alma masculina

O psicanalista Contardo Calligaris faz sua estreia como dramaturgo com a peça "O Homem da Tarja Preta"

por Malu Porto - 16 de julho de 2009


A peça "O Homem da Tarja Preta" marca a estreia do psicanalista e colunista da Folha de S.Paulo Contardo Calligaris como dramaturgo. Dirigido por Bete Coelho e estrelado pelo ator Ricardo Bittencourt, o monólogo aborda a crise do homem contemporâneo, tanto em relação ao seu papel na sociedade quanto internamente, perdido entre referências e modelos de virilidade impostos.

O espetáculo se inicia apresentando um homem, por volta de 40 anos, casado, pai de família e funcionário corporativo, que passa as madrugadas nas salas de bate-papo da internet, conversando com travestis e se fingindo de mulher. Maquiado, com uma meia-calça preta e saltos altíssimos, ele adentra nas descrições pormenorizadas de suas perversões sexuais e experiências pra lá de picantes.

A cena se estende e o prolongamento do tempo ocupado por essa monotemática causa impaciência. Quem, como eu, havia lido diversos artigos e entrevistas sobre a discussão em torno da "alma masculina" é tomado de certa aflição pelo pouco tempo dedicado às agruras dos homens – de serem depostos de seus cargos de provedores, da frustração de nunca conseguirem corresponder aos modelos de virilidade de seu imaginário infantil, como super-heróis, desbravadores e revolucionários, e da pesada responsabilidade pelo prazer feminino.

Se nós mulheres achávamos dura a nossa vida de esperar pelo príncipe encantado montado num cavalo branco, não imaginávamos a pressão sobre os pobres rapazes, que já nascem incumbidos de serem realeza e de ainda terem de colecionar atos de heroísmo e bravura.

Sim, o desenrolar das teorias de Calligaris acontece e é riquíssimo. Está tudo ali – embora aos 45 do segundo tempo. No fim, temos uma peça necessária, galgada em sacadas brilhantes e originais. Valendo-se de matemática psicanalítica, conseguimos até entender por a + b o porquê de tanta sacanagem inicial. O didatismo até justifica a dramaturgia, mas eu preferia dar uma de "macho" e partir logo para o "vâmo vê".

Livraria Cultura - Conjunto Nacional Teatro Eva Herz
Av. Paulista, 2.073 - Bela Vista - Centro.
Telefone: 3170-4059.
Até 31 de julho.

Últimos comentários
  • Gustavo Gitti - 29/07/2009 às 23:42:46

    Eu também...

    Como você, queria ver logo as teorias do Calligaris em vez de discurso de putaria sem sentido. Mas foram belas sacadas em diversos momentos. Ao fim, gostei muito da visão do Calligaris sobre o masculino. No fundo, o Contardo é um grande comedor. Sendo bem direto, é essa a verdade. Ele sabe da coisa, já teve várias mulheres e eu o admiro por isso, não tanto pela psicanálise. ;-) Abraço, Malu.

  • name - 22/03/2010 às 20:00:07

    name

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