o começo do fim
Grégoire Bouillier resgata primeiro encontro com ex-namorada em livro
"O Convidado Surpresa", do autor francês que esteve na Flip, chegou ao Brasil neste mês
por Martha Lopes - 22 de julho de 2009
Foi um ex-amor do escritor francês Grégoire Bouillier que o convidou para uma festa, no dia em que morreu Michel Leiris, em 1990. Era tarde, e Grégoire dormia, já habituado a curtir a tremenda dor-de-cotovelo em que estava imerso há 4 anos, desde que a moça do outro lado da linha o abandonara sem mas nem porquê.Aquele dia mudaria a vida de Grégoire e provocaria os limites entre as esferas do íntimo e do universal no campo da arte. O escritor fora convidado à festa de aniversário da artista Sophie Calle, que tinha a tradição de celebrar a data chamando o número de pessoas correspondente à idade antiga, mais um convidado surpresa, que simbolizava o novo ano. Naquela ocasião, Grégoire era o convidado. A partir daquele momento, se desenrolaria um relacionamento entre os dois, que chegaria ao fim depois de anos, por meio de um email do escritor.
Com a carta de rompimento, Sophie criou a exposição "Cuide de Você" (leia mais na matéria "Sophie Calle e Marina Abramovic"), em que mulheres de diferentes universos interpretam as palavras do tratado de despedida. Grégoire foi ainda mais corajoso. Diante da dor do rompimento, teve isenção para retornar ao momento mais brilhante do relacionamento: a noite em que o casal se conheceu, o que deu origem ao livro "O Convidado Surpresa" (CosacNaify, 112 páginas).
O livro
Na obra, o autor rememora a depressão em que estava quando recebeu o telefonema que lhe chamou para a festa, bem como todos os contratempos e situações que o levaram até Sophie. Tudo isso embalado por uma prosa fluente, muito atual e marcada pela oralidade. O texto é pontuado ainda por documentos em que Sophie descreve a noite de aniversário, além de trechos de "Mrs. Dalloway", livro de Virginia Woolf a que o autor faz menção na obra.
Na última edição do Festival Literário de Paraty (Flip), o casal se reencontrou em uma mesa de debates. A palestra foi uma das mais concorridas do festival, diante da expectativa de que houvesse legítima lavagem de roupa suja. Além do caráter de fofoca, o assunto chamou a atenção por ser inusitado o fato de os artistas exporem tanto a intimidade.
No entanto, parece um imperativo da arte que o artista use elementos da vida na criação. Como a atriz Fernanda Torres declara na orelha do livro, a narrativa fala daqueles "que entendem que toda manifestação artística emana do indivíduo e de sua tragédia cotidiana repleta de som e fúria". Mas parece ser também necessidade do amor, sentimento inútil e penoso com o fim de um relacionamento, se reciclar em algo mais grandioso. Como já disse, em poema, Paulo Leminski:
Amor, então,
também, acaba?
Não, que eu saiba.
O que eu sei
é que se transforma
numa matéria-prima
que a vida se encarrega
de transformar em raiva.
Ou em rima.
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