casseta ousado
Sarah apresenta Claudio Manoel
O comediante do programa "Casseta e Planeta Urgente!" fala do documentário "Simonal", que dirigiu
por Sarah Oliveira - 30 de julho de 2009
Claudio Manoel é um casseta ousado. Aventurou-se pela primeira vez no universo cinematográfico sem ter alguma experiência no mercado. Produziu e dirigiu com muita competência, ao lado de Calvito Leal e Micael Langer, "Simonal -- Ninguém Sabe o Duro que Dei". "Eu filmei de um jeito exótico. Banquei. Tentei verba de todas as maneiras. Conseguir patrocínio pra um filme sobre o Simonal não é fácil. Ninguém queria dar. Nem os que conheciam o drama e muito menos os que não tinham noção desse cara que se perdeu na memória musical brasileira." Mas ele tinha uma boa história pra decifrar. Real, mas muito obscura. E tinha um feeling. Foi isso que o impulsionou a desmistificar um grande ídolo pop e revelá-lo de novo ao público. As salas de cinema comprovaram o interesse do público pelo artista e sua trajetória pessoal e profissional -- no momento da publicação dessa entrevista o filme está há onze semanas em cartaz em todo país.
Segundo o filho mais velho do cantor, Wilson Simoninha -- que participa do documentário ao lado de seu irmão Max de Castro --, esse é "um grande e importante filme, entre seus méritos ele apresenta para as novas gerações quem foi o artista Simonal e revela um Brasil com seu melhor e seu pior. Sempre que eu o assisto, me emociono e me surpreendo com o talento e a musicalidade do Simonal. O sucesso do documentário e toda a discussão que ele gerou pode e deve nos fazer crescer".
Claudio concorda: "Ele realmente foi um artista foda e isso causa um impacto nas pessoas. Acho que a história está bem contada".
[Veja com exclusividade no Colherada um trecho do documentário.]
Eu conversei com o famoso ator que interpreta o seu Kreysson, do programa "Casseta e Planeta Urgente!", sobre isso e sobre a trajetória dos Cassetas, inclusive com a falta que o Bussunda faz:
S: Por que um doc. sobre o Simonal?
Quando eu li "Noites Tropicais", do Nelson Motta, fiquei impressionado com o capítulo que falava da história do Simonal. Foi aí que caiu minha ficha. Eu achei a história muito louca: o cara que era um puta ídolo pop acabou sendo visto como um agente secreto da Ditadura, como um dedo-duro envolvido com os caras do Dops, e a desgraça que isso trouxe pra ele e sua família... E ainda mais por ser algo quase proibido de se comentar. Seu nome virou um tabu. Isso me motivou muito a querer entender melhor essa parada. Então, comecei a pesquisar, conheci o Max e o Simoninha, a Sandra, sua segunda mulher. Conheci a fundo a dor deles e senti que encontrei algo que deveria ser contado. Sobre alguém que subiu muito alto e teve uma queda muito única. Não é um ostracismo só, é um ostracismo com lepra. Por exemplo, o Garrincha entrou pro esquecimento, mas as pessoas têm uma memória carinhosa dele. O Simonal era um cara que estava ali pra vender alegria e, de repente, morre de tristeza. Entende? Tinha ali naquela história os vários extremos de um ser humano. Quando eu comecei a escarafunchar tudo isso, eu via que o cara não era nenhum demônio e nenhum anjo. Eu pensei: "Bom, eu vou descobrir que o cara era um ser humano, né?" Achei tudo meio que shakesperiano, sabe?
S: Uma tragédia...
Isso! Uma tragédia com tudo que tem direito: à glória, à dor, ao riso, ao esplendor da performance. O cara no palco era foda....
S: Você começou a ir atrás de tudo sozinho?
Depois de dois anos, entraram o Calvito e o Micael, e começamos a fazer uma parceria que pra mim foi fundamental, pois era tanto material, tantas possibilidades que se tornou importante conversar muito pra chegar num consenso e editar da maneira mais imparcial possível. Eu queria um ponto de vista correto, franco, sem ser cruel, sem tomar partido. Precisava de muuuita conversa. Muito discernimento. Ficamos um ano editando.
S: O doc. lhe permite ter sensações verdadeiras. A gente vibra, chora e sente raiva, aflição, tudo ao mesmo tempo...
Essa era a intenção. Minha história profissional vem da comunicação. Fiz teatro, cinema, sempre fui muito autoral na minha arte. Quem gosta, gosta, quem não gosta, ok. Nesse caso, eu tive que ser mais...
S: Factual?
É, pois eu estava contando a vida de outro. Eu tive que reapresentar o Simonal ao público, até porque sua história foi soterrada, as pessoas quase não tinham muitas lembranças dele. Então, eu tive que resgatá-lo. Pra mostrarmos o tamanho do drama tínhamos que mostrar a grandeza toda, até onde ele chegou.
S: Retomando esse fenômeno de comportamento de multidão que ele provocava, né?
Sim, as pessoas tinham que ver o quão foda o cara foi. Só assim todo mundo iria sacar a queda que ele atingiu. Portanto, metade do filme mostra o sucesso dele. Sabe que isso até foi desproporcional na própria vida dele, pois o auge de sua carreira dura o quê? Uns quatro anos? Foi pouco, mas foi intenso. Por isso não poderia deixar de mostrar bem o Simonal bombando, pra dar essa veia dramatúrgica. Eu vi pela televisão ele cantando no Maracanã quando eu era molequinho e aquilo era um absurdo. Não existia nem equipamento adequado. Ele transformava uma multidão em amigos, como se estivessem todos cantando ao lado dele na sala de sua casa. Hoje, isso ainda impressiona, imagina naquela época. O cara era a personificação do pop. Ele inventou isso no Brasil. O rapper americano de hoje, só que no Brasil há quarenta anos.
S: Como foi pra você quando viu pela primeira vez essa quebra que o documentário proporciona, do auge à queda?
Eu vi muitos cortes, muitos copiões, mas quando rolou a estreia de fato no Cine Odeon, no Festival do Rio, foi interessante, pois eu pude ir sacando com o público todas as reações, acompanhando o ritmo. Era muito bacana. De repente alguém mais velho cantarolava "Meu limão, meu limoeiro". Aí, quando entra a participação da Sarah Vaughan, nêgo batia palma, enfim, eu senti que tinha uma expectativa do público de que a coisa iria pra esse lado. É quando vem a virada da dor, da tragédia do cara, as pessoas vão se penalizando. No Festival Tudo é Verdade, em São Paulo, umas pessoas vieram comentar que era impossível ver o filme e não falar sobre ele depois, achei isso bem legal. Palmas, aplausos no meio, gente chorando. Muitos me contaram que depois foram jantar e as pessoas estavam comentando sobre o filme!
S: Por falar nessa virada, foi a única vez que resgataram o contador? [Na época, Simonal culpou seu ex-contador por tê-lo quebrado financeiramente, acusando-o de ter-lhe roubado dinheiro.]
Sim, ninguém tinha procurado a versão dele até então. A participação do contador possibilitou uma discussão dramatúrgica importante sobre onde e como seria melhor ele entrar no doc., com que tipo de impacto. A gente tinha que ter tempo de contar e, acima de tudo, saber recontar o drama final real do Simonal, mesmo depois de aparecer a versão do contador, que também era muito comovente, pois foi um cara que sofreu muito.
[Em entrevista, o ex-contador diz ter sido torturado por homens do Dops a mando do Simonal e obrigado a confessar que realmente estava roubando o cantor. Sobre isso, Simonal dizia -- sobre orientação dos seus advogados, segundo depoimento no documentário -- que tinha prestado queixa anterior de supostas ameaças terroristas e, por isso, tinha pedido que o Dops investigasse.]
S: O jornalismo todo, até o cultural, representado ali pelo "Pasquim", pegou esse acontecimento "pra Cristo" por conta do contexto todo da Ditadura, né?
Sim, como você falou, a intolerância levava os caras a crerem que se ele não estava contra o governo então era inimigo. Isso não deixava de ser uma disputa de modelos autoritários, entendeu? Pequenos ditadores disputando espaços políticos. Admiradores de Mao Tsé Tung contra os adoradores de Fidel, Lênin e Stálin, contra adoradores do Estado, dos caras de direita. Agora pouquíssimos eram a favor da pluraridade partidária, da liberdade de expressão, das divergências e convergências convivendo. Todo mundo ali queria tomar o poder. A tolerância de qualquer tipo de jornalismo era pequena. Uma patrulha. Esse tipo de época provocava essas utopias complicadas.
S: Eu fico imaginando que muita gente que apenas conhece aquela coisa escrachada do Simonal no palco, seu som alegre, e vê que você, um casseta divertido, é o diretor, pode esperar um filme inebriante do começo ao fim. Mas, na real, é um filme sério.
Tem, sim, uma descoberta ou redescoberta desse lado do performer, do comunicador, aquele que cantava "Nem vem que não tem", mas esse cara aí também é aquele de quem "não se fala muito sobre pois foi delator do governo", enfim... E isso pode ter ficado maior e as pessoas até se esquecerem que "Samarina" é dele, que ele foi o cara que inventou o "Patropi", entende? Por isso, o filme mostra a real, que as duas extremidades são intensas. Agora, o "seu Kreysson" ser o diretor pode confundir, sim. Não acho que isso deve explicar de cara o intuito do documentário, mas também não vim aqui pra isso. Sabe que, pra mim, pessoalmente, como diretor, eu tenho recebido muito carinho. Tirando essa gente muito fundamentalista, muito militante... mas esses não me interessam, nem quero o amor deles. Agora, sinceramente, eu não sei se tem apenas o lance da curiosidade de ver o lance que o seu Kreysson dirigiu. Acho que fala mais alto a vontade de saber a história do Simonal.
S: Tem essa preocupação ética de que estamos falando tanto, mas também tem a estética, que é sedutora...
Eu queria fazer um lance bonito e que as pessoas gostassem de ver. Eu queria que o público se relacionasse com ele, por isso tinha que ficar bonito e gostoso de ver. Engraçado que minha irmã levou meu sobrinho pra assistir e ele tava com uma preguiça, pois na cabeça dele doc. é aula, aquela coisa careta e quadrada esteticamente, sem nada que elucide. Mas ele viu e curtiu, virou fã de docs., acabei indicando vários pra ele ver. Eu queria falar com os mais velhos, mas também com o moleque de 15 anos e, pra isso, a estética do filme tinha que ser impecável. Uma meninada ótima do "Pavê: gastronomia visual" que fizeram a embalagem visual do doc. numa broderagem fantástica.
S: Isso foi um gol de vocês...
Isso foi legal, pega todas as idades mesmo. Gente de todo lugar e de toda classe social. Mexicanos de 70, 25 anos. Americanos [o filme passou no Festival de Cinema de Washington]. Negão, brancos, japoneses... é uma puta história pop.
S: Tem intenção de entrar pro mundo cinematográfico com mais veemência?
Tenho. Existe a parte muito tesuda que é você ter feito (risos). Agora, fazer é um processo longo e não autossuficiente. Com a grana que gastei e o tempo que levei certamente não faria de novo. Pra filmar precisaria de um esquema melhor, mais colaboradores. Tenho ideias, convites, mas tudo isso complica pois eu também tenho meu programinha semanal que eu faço com prazer, do qual eu gosto muito. Meu contrato com a Globo vai até 2013. Se pintar algo bacana pra filmar, estamos aí...
S: Por falar nisso, você agradece aos cassetas nos créditos finais do doc...
Eles me ajudaram de várias formas. Quando eu precisei, tive cobertura. Durante o processo, sair mais cedo pra uma reunião do filme, ficar mais ausente por conta da edição ou recentemente, na divulgação. No lançamento, eles foram superpresentes, estavam em todas as prés. Mas tem também a parte individual. Nossos parceiros, como Guel Arraes e Paiva, foram caras pra quem eu mostrei cortes pra pegar opinião. O Hubert, por exemplo, que é ligado num som dos anos 1970, me trouxe muita coisa do Simonal. O Bussunda era muito engraçado, ele ficava me chamando de "Chatô" por causa do filme do Guilherme Fontes que nunca saiu. (risos)

S: Quer dizer que o Bussunda também teve contato com sua pesquisa sobre o Simonal...
Sim, deu tempo. Mas demorou tanto pra ficar pronto que ele não conseguiu ver... uma pena.
S: O "Casseta e Planeta" é um programa com uma postura "lado b" dentro do mainstream que a TV onde trabalhamos, a Globo, representa. Como você avalia isso?
Olha cara, eu acho que a gente, sem falsa modéstia, tem uma trajetória vitoriosa. São 18 anos líderes de audiência no ar. Fazemos parte da cultura de mídia, o "Casseta" é imitado. O bacana é que a gente ainda gosta de fazer humor e a real é que tivemos um baque muito complicado em 2006 com a morte do Bussunda. Isso retraiu muito o nosso descompromisso com a brincadeira solta, a gente ficou literalmente trabalhando. Fomos pro lado de um humor mais cara limpa, mais entrevistas, mais jornalístico. Mas este ano de 2009 deu essa vontade de voltar ao nosso humor "roots", entendeu? Fico feliz que estamos retomando isso. Sei que apareceram aí outro tipo de produto de humor que eu não acho que são concorrentes diretos porque, na real, sem querer tirar o cu da reta, concorrente do "Casseta" é novela. Acaba a novela da Globo, a gente entra junto com as outras -- as do SBT, da Record, da Bandeirantes. Tem "CQC" de segunda-feira, o "Pânico" é no domingo, Adnet em outro horário na MTV e eu assisto a tudo e gosto. Não nos tira nada. A gente tá lá firme nas terças. Eles são a carne nova no pedaço, estão mais na praia do jornalismo, fazem humor com perguntas e entrevistas etc. A gente tá no mercado há mais tempo, já passamos por essa fase. Fora que a Globo tem mais condição de produção, cenário, figurino e tal.
S: Qual a importância da televisão brasileira pra você?
É um veículo superamado. O que acho que existe aqui e no mundo é um certo "torcer o nariz" para a cultura de massa. É você não entender que massa pode ter um valor cultural. Nêgo acha que virou popular, perdeu seu valor na hora. Roberto Carlos, Ana Maria Braga, novelas, Simonal... na visão de poucos, o que é feito para muitos é desvalorizado. TV é o veículo mais claramente de massa. Mas isso rola na música também. A gente brinca que as pessoas dizem que gostavam do Rod Stewart quando ele era coveiro (risos), depois que ele atingiu mais gente perdeu a graça. E eu penso: como assim? Isso é muito elitista. É muita gente que diz que gosta do povo, mas, se o povo comprar o que ele gosta, ele para de comprar na hora. Sacou? E a TV entra nisso. Regina Casé fala que, infelizmente, a TV é vista como algo que emburrece ou como a máquina que hipnotiza e influencia as pessoas pro mal e tal. Pura ilusão.
S: E a internet? Você navega?
Eu uso a internet pra comprar coisas, como CDs, livros e uso como ferramenta de consulta e pesca. Agora, Orkut, Myspace, blog não é comigo. Eu já tenho dificuldade de me relacionar frequentemente com as pessoas que eu conheço -- por exemplo, não tenho tempo às vezes nem de ver minha irmã --, como vou ficar atento aos perseguidores do Twitter? (risos) Mas com a estreia do doc., virei um "facebookista" assíduo e sei que o Twitter do documentário do Simonal é muito seguido... Claro que concordo que, depois da roda, o mundo da web foi a maior invenção.
S: O que tá ouvindo?
Sarah, eu adoro música. Gosto de Mart'nália, de tudo da Motown. Ouvi uma cantora nigeriana chamada Asa* que é demais. Eu vou fuçando na internet e também no que vejo. Outro dia, assistindo ao programa do Edgard [Edgard no ar, do canal Multishow], eu conheci um cara bom chamado Marcos Sacramento, John Legend... Adoro todos os negros.
S: As pessoas confundem seus personagens com o que você é no dia a dia?
Olha, eu sou meio normal. Não sou um cara tímido nem muito diferente do que sou na TV. Não sou nada istriônico, por outro lado. Não me sinto na obrigação de ser engraçado. Tenho meus maus humores. Como apareço muito caracterizado como seu Kreysson ou como o Maçaranduba, aí devem imaginar que na vida real eu tenho o dente quebrado ou aquela barriga e, quando me veem, falam: "nossa, como você é diferente!" (risos)
"Questionário colherada", por Claudio Manoel:
S: O que você gosta de comer de colher?
Qualquer coisa que lambuze. Eu gosto de comer melado.
S: Pra quem você dá uma colher de chá?
Pra quem me der uma de sopa.
S: Quem merece uma colher de sobremesa?
Merece todas as colheres quem dorme "de colherzinha" com você.
S: Em quem você bateria com uma colher de pau?
Eu bato com colher de pau em quem reclama pra cacete e não vê o que tá fazendo.
S: Onde você meteria sua colher?
Onde deixassem. Eu meto a colher com jeitinho. (risos)
* Eu também recomendo a cantora Asa (pronuncia-se "Asha"). Pra quem ainda não conhece, vale conferir o clipe "Fire on the Mountain".
Palavras-chave:
Últimos comentários
-
renata ferreira - 30/07/2009 às 10:54:02
diferente
eu estou acompanhando o colherada desde semana passada. essa entrevista que entrou hoje estah mto diferente de tudo o que jah li em internet e revistas. parece que vejo sarah batendo papo com o casseta na minha frente. isso eh delicioso! obrigada parabens a todas! renata
-
lourdes - 30/07/2009 às 12:23:23
casseta ousado
Fantastica materia sobre Simonal. Parabéns, sucesso.
Leia também
Ressaltamos que nenhum estabelecimento foi incluido neste guia por ter feito publicidade em qualquer publicação nossa e que nenhum tipo de pagamento influenciou as resenhas. As opiniôes publicadas neste site são dos escritores do Colherada Cultural e são totalmente independentes








