Direto do Festival de Cinema de Locarno

Longa brasileiro estreia em festival na Suíça ao som de Bob Dylan

por Sarah Oliveira - 12 de agosto de 2009

Esmir Filho no Festival de LocarnoSemana passada, eu acompanhei a estréia do primeiro longa de Esmir Filho numa sala lotada no 62o Festival de Cinema de Locarno, na Suíça  - considerado por muitos um festival autoral, por ser mais independente e valorizar o original. Aplaudido por críticos e atores europeus, "Os Famosos e os Duendes da Morte" concorre ao Leopardo de Ouro, prêmio máximo do Festival (como eu já disse aqui, só conquistado por um único brasileiro, Glauber Rocha, com seu memorável "Terra em Transe"). 
Pra quem não sabe, Esmir Filho é também responsável pelo vídeo Tapa na Pantera - que provocou a "descoberta" do Youtube no Brasil. O cineasta de 26 anos ainda tem no currículo curtas premiados, como "Alguma Coisa Assim", que ganhou o prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Cannes de 2006. Além dele, "Ímpar Par", premiado no Festival de Kiev, na Ucrânia, e em Huelva, na Espanha, em 2005.

Veja vídeo exclusivo do diretor comentando sua estreia em Locarno.

O filme conta a história de um garoto de 16 anos, fã de Bob Dylan, que vê o mundo através da internet enquanto sente seus dias passando numa pequena cidade de origem alemã, no interior do Rio Grande do Sul. A volta de uma figura misteriosa o envolve num mundo além da realidade e quem assiste embarca totalmente nos sentimentos desse menino - interpretado pelo ótimo Henrique Larré em sua estreia como ator.

É um filme brasileiro que não tem samba, mas Dylan (e seu "Mr. Tambourine Man", música que faz parte da trilha sonora do longa e foi autorizada pelo próprio cantor) e Nelo Johann, artista de 25 anos que também nasceu na região do Vale do Taquari, onde "Os Famosos..." foi filmado. Este artista traz em suas composições uma melancolia irônica e poética, e as melodias traduzem a dor do protagonista. O diretor conheceu Nelo na internet. "Ele tá no MySpace, foi lá que eu ouvi incessantemente os 12 álbuns com mais de 150 músicas dele durante a criação do roteiro, o que me ajudou muito a entender e a desenvolver essa atmosfera obscura e sombria do filme".

A trilha sonora, sem dúvida alguma, é um dos pontos altos. "Conseguimos os direitos da música do Bob Dylan na fase do roteiro, pois para nós era muito importante saber se teríamos a música, senão seria outro filme. A letra de "Mr. Tambourine Man" transborda o sentimento do menino e era imprescindível que a música estivesse lá, assim como seu nickname [apelido usado pelo garoto no MSN] e todas as menções ao Dylan", explica Esmir.

Ismael Caneppele, autor do livro que deu origem ao filme e que será lançado logo mais pela editora Fina Flor, além de interpretar o misterioso Julian, complementa: "Por mais que Bob Dylan não tenha surgido junto com os adolescentes retratados no filme, e sim nos anos 1960, ele continua representando todas as gerações, simplesmente por traduzir o que essa fase da vida significa: mudança. Dylan personifica muito bem as passagens através de suas músicas. E o livro, assim como o filme do Esmir, são sobre elas [as passagens]". Sobre os europeus, ele diz: "Acho que, para eles, ver esse filme é como ver um retrato de si de uma parte que partiu. A cidade do filme é como a que nasci, são compostas por imigrantes europeus que vieram no século 19. Mostrar o filme aqui é dar a eles a oportunidade de se enxergarem em uma possibilidade que poderiam ter vivido".

Veja vídeo com depoimento de Ismael Caneppele ao Colherada Cultural.

Ismael e Esmir falam sobre o filme no Festival de LocarnoA relação entre mãe e filho também me parece muito importante ao filme. Como se ela mostrasse tudo o que a gente queria falar para os nossos pais - e eles pra gente -, mas não sabemos como. Segundo Esmir, "o livro tem momentos maravilhosos que mostram bem isso". No filme, o garoto que não tem nome - como na internet, em que muitos teclam sem revelar seu nome verdadeiro - tem uma solitária relação com seu computador, comunicando-se com seus amigos através dele e, por outro lado, com sua mãe, através da televisão. É o momento de encontro entre filho e mãe, enquanto ela assiste a novelas, como toda brasileira de sua geração.

Subjetivo, o longa revela um Brasil que nem todos conhecem, não só pela região influenciada pela cultura alemã, em que os mais velhos não falam português (!), ou pelo clima frio do Sul no inverno, mas justamente por mostrar as fortes sensações e pensamentos de um adolescente que faz parte dessa cultura atípica ao país, mas que não deixa de ser brasileiro.

Ou seja, a temática do filme é universal. "A ideia de cidadão do mundo me lembra ainda mais a internet em que não há fronteiras, não há limites, você pode atingir o mundo todo num clique. É a ferramenta que liga o jovem com o mundo, um terreno libertador e ao mesmo tempo perigoso. O jovem projeta si mesmo na internet e cria novas identidades, novas personas, daquilo que ele gostaria de ser ou que os outros gostariam que ele fosse. Através do portal da internet eles expressam seus sentimentos mais íntimos, em blogs (textos), Flickrs (fotos), Myspaces (música), sem mesmo ter que dizer o próprio nome. O filme trata sobre o quão imaginária pode ser sua vida real e o quão real pode ser sua vida virtual. A trilha, por exemplo, é em inglês, pois é a lingua oficial do adolescente que está conectado na internet, dividindo seus sentimentos, tentando entender seu ambiente, tentando compartilhar suas ideias. O personagem principal do filme passa por isso."

"Os Famosos..." também nos apresenta outra atriz, Tuane Eggers, que, assim como Henrique e Samuel Reginatto (que interpreta o irmão da garota, chamado Diego, o único que tem nome no filme), também foi encontrada pela direção na internet. "Fui atrás de adolescentes dessa região do Sul que tinham blogs, MSN ou postavam fotos e vídeos no Youtube e fiz testes com vários deles." O diretor se apaixonou pela maneira como Tuane retratou sua vida através do Fotolog e Flickr. Todas as fotos  - também subjetivas - usadas no filme são dela. 

O filme, que tem produção da Dezenove Filmes de Sara Silveira e coprodução da Warner Bros, deve entrar em cartaz mais no fim do ano no Brasil. Por aqui, a recepção foi intensamente calorosa. Os europeus se conectaram afetivamente com a história do garoto brasileiro e viram nela muitas questões que rondavam sua cabeça na época da adolescência. Os jovens que estavam na plateia se emocionaram e vibraram como se fizessem parte da trama. Talvez essa seja a ideia.

Últimos comentários
  • Luty - 12/08/2009 às 13:25:06

    Gengibre

    Além do texto, seu post ficou demais!!! lindo o seu avatar! Parabéns pro Esmir Filho e pro Ismael!!!

Faça o seu comentário

Ressaltamos que nenhum estabelecimento foi incluido neste guia por ter feito publicidade em qualquer publicação nossa e que nenhum tipo de pagamento influenciou as resenhas. As opiniôes publicadas neste site são dos escritores do Colherada Cultural e são totalmente independentes