estilista intelectual
Mário Queiroz desmascara o mito do herói em novo livro
A cultura e o comportamento masculino são temas de seu estudo
por Sarah Oliveira - 26 de agosto de 2009
Mário Queiroz é um estilista intelectualizado. Firme e forte, destaca-se na SPFW por preservar seu perfil independente com estilo único, desde a criação do evento, quando ele ainda era o Morumbi Fashion.Queiroz nunca parou de ler e pesquisar sobre moda e tudo o que a envolve, no sentido mais cultural. Natural de Niterói, o jornalista formado e designer de moda há 25 anos retomou a carreira acadêmica de uma maneira decisiva. Em 1996, foi convidado a criar o curso de Design de Moda da Universidade Anhembi Morumbi, em São Paulo, onde leciona até hoje. Há 3 anos, decidiu cursar pós-graduação em Semiótica.
"O Herói Desmascarado - A Imagem do Homem na Moda" (Estação das Letras e Cores) foi escrito durante seu mestrado na PUC-SP em Semiótica. "Fiquei um ano estudando vários autores e tendo referências literárias. E, depois de buscar esse embasamento, comecei a me ver não só como a figura do estilista que enxerga na revista de moda o espelho de seu trabalho. Mais do que isso: comecei a ter um olhar crítico diferente. Isso me permitiu escrever o livro."
A obra tem um texto acadêmico como qualquer tese de mestrado exige, mas, talvez por sua experiência jornalística, Mário conseguiu formatar uma linguagem acessível e gostosa, nada distante da realidade do público em geral. Não é um livro duro. Ao contrário, traduz para qualquer tipo de público o comportamento do homem e de sua moda nos últimos tempos. Eu diria que isso é emergencial diante de tanto conteúdo leviano que se escreve sobre moda no país. E o mais interessante é o diferencial que ele propõe: estudar a moda masculina - que quase sempre é deixada para escanteio.
Neste bate-papo com uma das figuras mais inteligentes da moda brasileira, pude saber um pouco mais sobre o comportamento do homem moderno, inclusive descobrir que os meninos paraenses são os mais vaidosos do Brasil. Dá uma lida:
S: No livro, você analisa as modificações pelas quais a moda masculina passou no último século. Como começou essa pesquisa?
Na verdade, eu peguei a moda como um objeto de estudo pra entender, principalmente, o engessamento do comportamento do homem nesses últimos tempos. A moda pra mim é uma forma de analisar comportamento. Estudei desde a transformação, do momento em que a fotografia substitui a ilustração de moda nas revistas. Para isso, pesquisei muito na "Arena Home Plus" [revista inteira dedicada à moda masculina], que é dos mesmos donos da antiga "The Face" [revista de moda conceituada]. Eu analisei os editoriais dessa revista desde o final do século XX até os dias de hoje [2007].
S: Para você, qual foi a mudança mais significativa?Olha, Sarah, o mais perturbador, pra mim, foi constatar que a visão de herói está tão enraizada na cultura do homem que acaba ficando latente em seu comportamento e, consequentemente, no que ele veste. O homem passou por duas grandes guerras. Nesse período tão extenso de lutas, ele teve uma obrigação de defender seu estado, de ser um herói e isso não o permitia em hipótese alguma ser vaidoso, nem sequer pensar em se olhar no espelho ou cuidar de sua imagem.
S: Não havia tempo, não havia cabimento, não havia propósito...
Isso mesmo... e esse engessamento vem dessa herança do início do século, marcada por tantas guerras numa época em que a era industrial já havia começado. Outra constatação é que, nos anos 1960, quando essas guerras acabam e o homem começa a ficar mais liberado, mais à vontade e mais atento à sua vaidade, logo tudo volta a ficar duro de novo, por causa da descoberta da Aids - bem quando o homem relaxa um pouco, começa a se incomodar menos com o que as outras pessoas pensam, ele começa a ficar com medo de ser comparado a um doente, pois todos achavam que a Aids era algo ligado aos gays. E todos achavam que os homens que se vestiam de maneira descontraída eram gays e, portanto, poderiam ter Aids. Imagine, você! São essas questões, essas passagens importantes no comportamento do homem que acabam tendo relação direta com a moda, e é isso que abordo no livro.
S: Por que você acha que os homens e muitas mulheres têm essa visão estereotipada de que apenas mulheres e gays entendem e podem usufruir da moda?
A moda passou a ser um poder das mulheres. Eu tenho uma teoria: as mulheres ganhavam bonequinhas e os meninos carros. O garoto nunca pôde pegar um boneco e pensar: "Poxa, que roupa ele pode vestir? Que cabelo pode usar?" Isso faz parte da nossa cultura e afeta nosso comportamento, como se ditasse assim: "Bom, as mulheres cuidam da beleza e da casa e os homens da segurança". Eu penso que essa nova geração da garotada de 16 anos já é uma exceção, acabou o período em que a Aids estava associada aos gays e tá rolando uma nova abertura. Ainda bem!
S: O arquétipo do héroi, do belo, que você diz engessar tanto o homem, é diferente aqui no Brasil e lá fora? Sentiu isso na pesquisa?
Não é. Esse herói sempre foi muito forte, é uma herança antiga. Se você pegar a figura do herói desde a mitologia grega, você encontra o Héracles, um deus forte, e um de seus desafios seria matar o leão de Medeia. Ele mata e, na hora, se veste com a pele do leão. Sua vaidade vem daí. Moda é isso. O homem que colocava um terno tinha um poder por usar terno. O mito de herói vai desmoronando assim como o terno foi perdendo o status que ele dava ao homem. Entende? Hoje, o motorista, o segurança do tal do empresário também usa terno. Então, essa obrigação de ser herói ou de o terno trazer o poder está desmoronando. Todas essas máscaras estão caindo na trajetória da moda masculina. Por isso dei o nome do livro "O Herói Desmascarado - A Imagem do Homem na Moda".
S: E o homem comum brasileiro? Aquele que não tem em seu repertório uma referência mais apurada da moda, a não ser o que vê nas ruas. Como você avalia o olhar dele sobre isso? Ele pode ter um olhar mais diferenciado sobre a moda também? De que maneira?
Pode! E, na verdade, tem alguns fenômenos que surpreendem até. É uma furada pensar que o cara que mora em São Paulo ou no Rio de Janeiro é o único brasileiro que entende de moda por ter mais acesso a informações. Olha, Sarah, um exemplo: eu vendo joias muito mais em Belém do Pará. São os homens mais vaidosos do país. Eles dão muito valor ao perfume e às jóias e nem por isso são taxados de gays, é um lance de tradição. Tá mais do que provado que o nível social não tem a ver. Tem muitos sem grana que estão mais abertos pra moda do que muitos ricos. Eu acredito que a gente já nasce com o DNA, com o interesse. Fora a influência da formação familiar, do ambiente escolar... Eu sou de uma família humilde, pais que nunca me indicaram um caminho e eu fui traçando-o de uma maneira livre. Por outro lado, uma família rica pode dizer ao seu filho: "Você seguirá os passos de seu pai, será um engenheiro". Será que esse garoto não curtiria ser um artista plástico, um maquiador, um cineasta?, eu me pergunto. Não é o nível social ou o fato de estar numa metrópole que vai torná-lo mais ou menos aberto às inovações. Isso vem da criação da pessoa.
S: Queria falar um pouco sobre rock e moda masculina. Hoje em dia a alfaitaria foi ressignificada não?
Com certeza, as bandinhas largaram as jaquetinhas de couro e começaram a usar os paletós. Os jovens continuam sendo rebeldes, talvez menos poilitizados (risos), mas, por exemplo, usar um paletó bem-cortado com uma calça jeans rasgada é uma forma de dizer: "Eu misturo o que eu quero. Eu construo um conceito". Pra mim é importante ser designer hoje em dia, viver de perto essas misturas e entender as possibilidades de criar uma individualidade. Não é ruim o homem se vestir de uma maneira mais séria, basta que ele tenha uma individualidade. As mulheres não tinham medo de parecerem malucas, saindo de calça com vestido por cima ou usando um vestidinho tipo camisola com uma bota. O homem não tem essa permissão. E tem gente que acha que eu como designer não posso mexer no volume, na cor? Não acredito nisso. Não acho que meus clientes não queiram ousar ou têm medo de serem chamados de "mulherzinha". Você conversa com um garoto de 16 anos, por mais antenado que seja, ele tem medo de ser caçoado. Ele ainda não tem essa segurança social, pois nossa sociedade é muito cruel com isso. Se você parar na rua e reparar, vai perceber quantos homens andam como se tivessem com uma armadura, querendo provar: "Eu sou homem, sim!" Então é isso que quero passar com meu estudo, não é simplesmente falar sobre moda masculina, e sim dar a possibilidade para o homem comum que não liga muito para o assunto refletir um pouco. O que de moda tem no comportamento dele?
S: Você tá aí sempre mostrando mudanças e inovações dentro de cada coleção voltada para a roupa masculina. Isso não é fácil. Mais tranquilo no caso de roupas femininas, imagino. Existe uma dificuldade ou até mesmo uma resistência entre os próprios profissionais da moda nesse sentido?
Sim e, Sarah, isso é muito sério. Olha, eu fiquei muito emocionado com a cobertura de dois grandes jornais, de alta circulação sobre esse meu livro. Saíram duas críticas muito benfeitas e eu fico muito grato por isso ter acontecido em minha vida. O jornalista (Alcino Leite, da "Folha de S.Paulo") escreveu que eu nunca fiz concessões em minha moda. Foi muito bom ler que alguém da mídia que entende do assunto me entendeu. Realmente, eu nunca fiquei ligado no que a mídia ia dizer ou preocupado em fazer algo fácil apenas para vender. Eu sempre fui fiel à minha ideia de inovar na moda masculina, mesmo sendo alvo de críticas. A mídia é retrógrada e não incentiva o novo, ela é despreparada, mal-informada. Olha só, muitas vezes, quando acaba um desfile meu, alguns jornalistas vêm perguntar: "Quando um homem vai poder usar isso na rua?" ou "o Mário viajou muito ou essa roupa é gay". E eu repondo que, com certeza, podem ter muito mais homens usando sem preocupação quando não tiverem mais jornalistas com esse preconceito imbutido, que possam mostrar ao leitor que você pode ser homo, hetero e gostar de moda e brincar com o que veste nas ruas sem isso afetar sua masculinidade ou imagem. Falta preparo, estudo, as pessoas não pensam. E digo que é muito legal pensar que o Colherada Cultural nasceu numa Universidade, por exemplo. Vocês não estão aqui para ditar regras e modinhas, e sim para fazer o leitor refletir. Eu também quero isso, não quero dar a resposta, e sim oferecer reflexão sobre moda. Tem gente que nao vê valor nisso [nos estudos]. Quer falar de moda e acha que é só colocar um óculos bem grande na cara e uma bolsa chique de marca que já é um profissional de moda. O nosso mercado de moda só vai se profissionalizar quando tiver gente "pensando" moda, entendendo e mergulhando fundo no que ela realmente pode significar.
Questionário Colherada, por Mário Queiroz:
S: O que você gosta de comer de colher?
Qualquer doce.
S: Pra quem você dá uma colher de chá?
Para todos que aguardam meus bazares e descontos pois não têm grana para comprar.
S: Quem merece uma colher de sobremesa?
A mídia que cobre de maneira digna a moda masculina.
S: Em quem você bateria com uma colher de pau?
Em toda a questão política brasileira.
S: Onde você meteria sua colher?
Onde eu continuo metendo: nessa questão de provar que um designer não é só um projetista. Somos transformadores da sociedade.
Últimos comentários
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marcela - 26/08/2009 às 10:51:23
sensacional
nossa, esse sim é um estilista consciente, inteligente e que sabe o que fala. o mundo da moda é perdido pelo glamour e futilidade. deu gosto de ler essa entrevista, sarah. parabéns!
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Francielle Boguchesky - 26/08/2009 às 14:16:55
Comportamento
Fantástico, a mistura moda-comportamento-cultura que ele fala. Isso aí foi estratégia pra eu comprar esse livro!
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