redes sociais
Colaboracionismo na internet e o socialismo 2.0
Ruy Barata Neto
por Mr. Fork - 26 de agosto de 2009
Desde a eleição de Barack Obama, a palavra socialismo aparece nos Estados Unidos como um “fantasma”, mas desta vez mais próximo de um “Gasparzinho” do que da encarnação do mal, como demonstrava as frases iniciais do "Manifesto Comunista" [wkp], de Karl Marx e Friedrich Engels. A grande ameaça do capitalismo ao longo do século XX reaparece com novo conceito, conhecido como o socialismo 2.0, nomenclatura do que seria o “modo de produção econômico e cultural” da web de hoje. Quem defende essa tese é o pensador e escritor norte-americano Kevin Kelly [wkp], especialista em tecnologia e nada menos do que um dos fundadores da "Wired". Em recente artigo "The New Socialism: Global Collectivist Society Is Coming Online", publicado na revista, Kelly cuida logo de estabelecer as diferenças entre o “antigo” e o “novo” socialismo, este colocado como uma inovação dos próprios americanos – isso é necessário para Kelly não ser linchado em praça pública tal o pavor que o país tem da palavra.
"Não estamos falando sobre o socialismo do seu avô. Na verdade, há uma lista longa de movimentos do passado que este socialismo não segue. Ele não segue a luta de classes, não é antiamericano; inclusive, o socialismo digital pode ser a inovação americana. Enquanto o socialismo da velha guarda era uma arma do estado, o socialismo digital é o socialismo sem o estado. Esse novo tipo de socialismo correntemente opera no centro da cultura e da economia, em vez do governo -- por enquanto."*1
Kelly justifica o resgate do conceito de socialismo pela falta de um termo mais adequado para classificar o modus operandi da web. Ele carrega uma série de outros princípios, como “comunitário” e “coletivismo”. O autor é certeiro na comparação: “Quando as pessoas controlam os meios de produção para seu trabalho em direção a um objetivo comum e dividem seus produtos em comum; quando eles elaboram trabalhos sem receber salários e usufruem dos frutos gerados de forma gratuita, não é irracional chamar isso de socialismo”.
Ele cimenta seu discurso nos diferentes softwares abertos, licenças como a Creative Commons, e sites de relacionamento social entre os quais estão Facebook, Myspace e o próprio Youtube, no qual bilhões de fotos, músicas e vídeos produzidos com ou sem custo são compartilhados de forma gratuita. Não importa credo ou classe social, todos têm meios para distribuir conhecimento, conteúdo e se beneficiar disso de volta no ambiente digital.
O artigo segue com Kelly citando o livro "Here Comes Everybody" (2008), do teórico da mídia Clay Shirky [wkp]. Shirky fala da capacidade das pessoas em se organizarem na rede independente das instituições. Ele inclusive estabeleceu uma certa hierarquia para os acontecimentos que criam esse colaboracionismo online. O flashmobs são exemplos dessa capacidade. Kelly lembra dos blogs que nasceram em torno de uma campanha de preservação da natureza, que dizer, já nasceu com o estigma de organizar pessoas em torno de mudanças sociais em direção a um bem comum.
A publicidade se beneficia dessa capacidade. Para quem não viu, basta sentir um pouco da energia que a agência Saatchi & Saatchi, de Londres, criou ao reunir as pessoas na Trafalgar Square para cantar “Hey Jude” (veja aqui). No Brasil, uma recente ação combinada no Twitter levou mesmo muita gente a baixar as calças no metrô de São Paulo ou, em outro extremo, há o exemplo do homem que começa a dançar sozinho em um festival de Chicago e acaba inspirando centenas de pessoas (link). A colaboração é dom natural do ser humano e isso cresce à medida que a conexão online aumenta.
Para Kelly, a eleição de Barack Obama foi uma amostra de mudanças inesperadas que podem acontecer com a contínua evolução da web na direção de aumentar a integração entre as pessoas em torno de interesses comuns. A campanha online de Obama é case para publicitários do mundo inteiro e a vitória do primeiro presidente negro da história do país se deu principalmente por conta da internet. “Democracia é mais do que apenas votar. Votar é apenas essa etapa superficial, o último degrau de um processo muito maior que inclui um envolvimento entre as pessoas de uma sociedade. E eu acho que com a eleição teve-se uma ideia de que é possível conseguir coisas de maneira mais engajada, com mais pessoas trabalhando em prol de um benefício em comum e tendo conversas em torno disso”, diz Kelly nesta entrevista concedida no ano passado.
De acordo com Kelly, a questão é que todas as velhas características de interação, de colaboração entre as pessoas, continuam existindo, mas, em adição, há caminhos para explorar novas formas de colaboração, novas maneiras de interação, o que começou a ser feito recentemente. “Nós realmente estamos no limite de um novo continente”, diz.
UTOPIA
Mas, na prática, tais benefícios vislumbrados por Kelly, que seriam frutos dessa “comunhão online”, ainda não passam de utopia. A ideia de socialismo digital, só pelo fato de contar com o estigma da palavra, é muito negativa para a maioria da sociedade norte-americana. Basta observar os primeiros meses do governo Obama neste ano. Para conter a crise financeira, o novo presidente teve que levar o Estado a intervir diretamente na economia – praticamente “comprou” empresas símbolo do capitalismo mundial como a GM, a Chrysler, a AIG seguros e os bancos Bank of America e Citigroup. Além disso, tomou uma série de medidas sociais difíceis, como o mais recente projeto de universalização dos planos de saúde do país.
Tal conjunto de ações levou a uma reação forte da mídia conservadora do país logo nos primeiros cem dias de governo. Jornalistas anunciaram: “Obama está levando os Estados Unidos rumo ao socialismo” (veja vídeo aqui) – algo improvável no contexto norte-americano. Tudo não passou de esperneio exagerado da imprensa conservadora, já que medidas como essas, em tempos de crise, já foram tomadas no passado no próprio país, exatamente para “salvar e manter” o capitalismo como sistema “que dá certo” – Veja mostrou isso em uma matéria bastante interessante; um raro momento de bom jornalismo lúcido da revista.
"O MUNDO É QUE É PÉSSIMO"
É por essas e outras que o escritor José Saramago, que hoje aprecia o desenvolvimento dessa mídia digital, não se empolga nada com as ideias de Kelly. Assim como pensador norte-americano, Saramago também já vislumbrou as maravilhas da integração entre as pessoas na internet e sua possibilidade de transformação – não é à toa que inclusive mantém seu blog.
Quando o escritor português esteve no Brasil, em novembro do ano passado, eu logo tratei de submeter um pouco dessa questão toda do socialismo online ao mais velho dos comunistas ainda vivos. Minha pergunta: A integração entre as pessoas na internet pode ser motor de mudanças sociais? A resposta dele, na íntegra, está aqui (link). Com quase 90 anos de vida, digamos que Saramago, se não é ingênuo, é no mínimo pessimista, o que ele rejeita: “Eu não sou pessimista, o mundo é que é péssimo”. Para mim, vale a definição de Zélia Gattai, para quem o socialismo na teoria é perfeito, pena que foi criado pelos homens.
GOOGLE MASTER PLAN
Além de tudo isso, outro dia me coloquei a pensar sobre o Google, que hoje tem ares de “Estado” dentro da internet, uma vez que é o grande organizador da informação disponível em rede. O Google nos dá a noção de que tudo na internet é gratuito e que podemos navegar livremente. Mas há gente que, em função dessas características benéficas, observa um plano maquiavélico por trás. Pode ser ficção, mas trata-se de uma grande história; veja aqui.
* Ruy Barata Neto é jornalista e editor da "Revista da Cultura", publicação customizada da Livraria Cultura.
*1 Tradução livre de Martha Lopes do seguinte trecho: “We're not talking about your grandfather's socialism. In fact, there is a long list of past movements this new socialism is not. It is not class warfare. It is not anti-American; indeed, digital socialism may be the newest American innovation. While old-school socialism was an arm of the state, digital socialism is socialism without the state. This new brand of socialism currently operates in the realm of culture and economics, rather than government—for now”.
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Últimos comentários
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Maria Helena - 26/08/2009 às 17:00:41
Google como aparente Estado
Gostei muito das colocações e observações mais do que pertnentes para nós, internautas, nesse universo que tornou-se quase micro. Parabéns pela matéria.
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