De Covent Garden a Madureira
Há mais semelhanças entre a ópera e o samba do que supõe nossa vã filosofia
João Gabriel de Lima
por Mr. Fork - 9 de setembro de 2009
O diretor de teatro José Celso Martinez Corrêa foi o primeiro a chamar a atenção para as semelhanças entre dois mundos aparentemente díspares. Ele fez questão de que o palco de seu Teatro Oficina tivesse forma de passarela. “A ideia é que os espetáculos não fiquem parados, mas evoluam, como num desfile de escola de samba. Chamo isso de ópera do carnaval. Ópera e carnaval têm tudo a ver”, disse o encenador numa entrevista. Zé Celso, como todo artista, frequentemente delira. Mas desta vez estava sendo lúcido como só os grandes criadores conseguem ser -- e eu tive a oportunidade de comprovar isso numa semana inusitada, em junho deste ano, em que despenquei diretamente da garoa de Londres para os 40 graus de Madureira. Mais exatamente, de Covent Garden, bairro onde se situa a Royal Opera House, um dos quatro templos da música lírica no mundo, para a escola de samba da Portela, o Buena Vista Social Club brasileiro.
Ir a Covent Garden é uma experiência que começa bem antes da ópera em si. Mais precisamente no momento em que você compra seu ingresso pela internet. Em sites americanos tipo ticketmaster existe um campo onde é possível escolher “Mr.”, “Mrs.” ou “Miss” antes de seu sobrenome. No site da Royal Opera House existem muito mais opções: “Conde”, “Visconde”, “Barão”, “Príncipe” e até “Rainha”. Ou seja, todos os títulos da nobreza britânica. (Fiquei pensando depois que perdi a grande oportunidade de guardar, para sempre, um ingresso endereçado a “Conde Fork”, “Barão Fork”, ou mesmo “Príncipe Fork”. Era só mentir um pouco.)
No teatro, mesmo antes da abertura das cortinas, a primeira surpresa – e que eram exatamente elas, as cortinas. Em seu tecido, estavam impressos centenas de anúncios de remédios, usando a linguagem publicitária dos anos 1940 e 1950. Alusão ao personagem principal da ópera em cartaz, o Dulcamara de “O Elixir do Amor”, um charlatão do ramo farmacêutico. E um indício de que a ópera a ser encenada, como ocorre frequentemente hoje, remeteria a ícones da cultura pop (um exemplo radical está numa montagem suíça em que o barítono Bryn Terfel, como Dulcamara, aparece vestido de Elvis Presley. Outros trechos bem divertidos estão no canal da Royal Opera House no YouTube).
A ópera é provavelmente a arte cênica em que os diretores tomam mais liberdades em relação ao original. Por um motivo bem simples: os enredos quase sempre absurdos turbinam a criatividade. “O Elixir do Amor” é um bom exemplo. A ópera conta a história de um aldeão quase limítrofe, chamado Nemorino, que se apaixona por Adina, a mulher mais bonita da cidadezinha onde vive.
Adina não dá a mínima para ele, até porque é inteligente e instruída, quase uma intelectual. Gosta de ler clássicos como “Tristão e Isolda”. “O Elixir do Amor” acaba sendo quase uma paródia desse mito celta, que Adina narra, livro na mão, numa das primeiras cenas do drama. É divertido. Um belo dia, chega o charlatão Dulcamara. Ao perceber em Nemorino uma vontade imensa e um QI baixíssimo, resolve vender a ele uma garrafa de vinho ruim com o rótulo “Elixir do Amor” – o homem que tomasse a poção supostamente despertaria a paixão de todas as mulheres. Nemorino acredita e – bingo! – acaba conquistando a bela Adina. Difícil de acreditar? Sim, tanto como a história da cigana que churrasqueia crianças (em “O Trovador”, de Verdi) ou do travesti que é morto no lugar do protagonista por um assassino profissional (em “Rigoletto”, também de Verdi). A ópera exige muito mais da tal “suspensão da incredulidade” por parte do espectador do que qualquer outra arte cênica. Diante de uma boa ópera, somos todos Nemorinos. Até porque, na vida real, ninguém fala cantando.
Passemos para a Portela. Lá, como em Covent Garden, a diversão começa muito antes da feijoada com samba que costuma animar os sábados em Madureira. A viagem até o subúrbio é uma diversão à parte, como o blogueiro Ricardo Freire, referência no jornalismo de viagens, mostra em um fotolog. E olha que ele perdeu algumas das placas mais divertidas. Perto da Portela, bem ao lado do vizinho Império Serrano, passa-se em frente de uma casa de, digamos, diversões masculinas, onde se lê há anos o sugestivo letreiro: “Corrente humana e outras brincadeiras” (custo a imaginar como seria a tal “corrente humana”, e nunca tive coragem de ir checar até onde iriam as tais “outras brincadeiras”). Chegando à quadra, constata-se que se trata de um dos programas culturais mais baratos do Rio de Janeiro. A entrada custa R$ 5. A feijoada, R$ 8. Muito pouco pelo já citado Buena Vista Social Club brasileiro.
Como no filme de Wim Wenders, desfilam no palco do Portelão vários ícones da música do passado e do presente. Em seu fotolog, Ricardo Freire captou a grande Lecy Brandão. Mas em três anos frequentando mensalmente a quadra da Portela já vi Paulinho da Viola, Beth Carvalho, Jair do Cavaquinho, Tereza Cristina e – mais importante – o maior cantor do samba de todos os tempos, Monarco. O Ibrahim Ferrer brasileiro bate ponto na rua Clara Nunes, onde fica a quadra, em quase todos os sábados. A feijoada em si também vale a pena. Segue a receita centenária do “feijão da Vicentina” da música de Paulinho da Viola: couve misturada na farinha, carnes separadas do feijão e, temperando tudo, quantidades industriais de alho.
O que há de mais característico neste mundo, no entanto, é a mesma suspensão de incredulidade da ópera. A Portela é quase um universo paralelo. Até recentemente, pairava sob as cabeças dos sambistas uma espécie de cemitério flutuante. Flâmulas penduradas no teto traziam epitáfios de portelenses ilustres, e relatavam seus feitos. Poetas, compositores, carnavalescos e até um tal de Alcides, que não tinha nenhuma habilidade especial, mas que, segundo o epitáfio, havia sido um “malandro histórico” (inevitável pensar em Dulcamara). Do Motel Carícia, que se vê da quadra (e cujo luminoso anuncia as suítes com o indispensável ar condicionado a apenas R$ 19,90), aos sambistas que se apresentam às loiras da zona sul com o cartão de visitas “professor de ritmos populares”, tudo contribui para a atmosfera de filme.
E tudo imita, de certa forma, o surrealismo das letras dos sambas carnavalescos, que são especialmente mirabolantes na Portela. Os mais famosos deles – os chamados “hinos” – constituem o ponto alto das feijoadas de sábado. Os que arrepiam a quadra estão todos no YouTube. “Contos de Areia”, fusão de três sambas que em 1984 fez a escola chorar na avenida lembrando da cantora Clara Nunes, morta no ano anterior.“Das Maravilhas do Mar Fez-se o Esplendor de Uma Noite”, definido num de seus versos como um “cortejo irreal”. E o mais maluco e bonito de todos, “Lendas e Mistérios da Amazônia”, que traz valquírias germânicas para a floresta tropical, em meio a sacis pererês.
É exatamente isso que a ópera e o samba têm em comum. São universos paralelos, delirantes, com lógica própria – e saímos deles totalmente modificados, com os sentidos aguçados para o que há de absurdo e fantasioso em nosso dia a dia. Não consigo imaginar utilidade prática mais nobre para o que se costuma chamar de arte.
* João Gabriel de Lima é diretor de redação da revista "Bravo!" e autor dos romances “Carnaval” (ambientado no mundo do samba) e “O Burlador de Sevilha” (ambientado no mundo da ópera).
Últimos comentários
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Luty - 09/09/2009 às 12:38:20
Agora!
João, Só agora entendi de fato o meu gosto pela ópera. tks!!!
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Thiago Tavares - 09/09/2009 às 17:39:31
Parabéns
Muito bom o texto do João, sou fã da revista bravo e é muito interesante esse paralelo entra a ópera e o samba. Recentemente passei a frequentar a escola de samba vai vai aqui em São Paulo e é muito bommmmmmmmmmm








