deusa Lakshimi
Dona Laura Cardoso é "colher" absoluta
por Sarah Oliveira - 10 de setembro de 2009
Tem gente que me pergunta se eu só entrevisto amigos. Não. Na 89FM, na MTV ou na Globo, sempre entrevistei todo tipo de gente. Comecei no mundo da música e depois passei para o entretenimento, áreas em que fiz ótimas amizades. Mas esse espaço aqui no Colherada tem outra conotação para mim. Ele reitera o desejo de revelar um olhar diferente, o "lado B" de pessoas que têm projetos culturais em diversas áreas. Assim, entre amigos ou não, procuro, principalmente, fazer com que flua um bom papo cultural -- sem impor regras, formalidades ou qualquer tipo de preconceito. Aprendo a lidar e a respeitar como cada entrevistado funciona.
Por isso mesmo, tenho que dizer que dona Laura Cardoso foi uma das pessoas que mais me emocionou conhecer enquanto estive no "Vídeo Show" -- ainda que não fosse minha amiga, mas uma figura que sempre acompanhei na televisão. Depois das três entrevistas que tive a oportunidade e a honra de fazer com ela, posso afirmar que se todos fossem como dona Laura, os bate-papos dentro do jornalismo cultural seriam bem mais ricos.
Em "Caminho das Índias", ela teve nome de deusa: Lakshimi. Uma personagem forte, matriarca de uma família supertradicional. Na vida real, é uma das maiores referências da dramaturgia no Brasil e uma "colher" absoluta. Culta, afetiva, lúcida. Diva sagrada do teatro, cinema e TV.
A novela acaba nesta sexta-feira (12), mas para quem já está com saudades, aqui vai uma colher de chá que procura mostrar, com exclusividade, outro lado da atriz. Com vocês, Laura Cardoso:
S: O que a senhora ouvia na infância? Quais as lembranças culturais dessa época?
Ai, meu Deus, parece incrível como eu me lembro disso. Eu sou do bairro Bela Vista, do Bexiga, e eu ia da minha casa, que era na São Domingos, pra escola de freiras ali na Rua João Passalaqua. Eu fazia esse trajeto de ônibus todos os dias e ouvia sempre uma música que tocava num bar de esquina pelo qual eu passava toda manhã. Eu me lembro tão bem... (suspira) Tocava Schubert!! Eu tinha 6, 7 anos. Foi a primeira vez que tive contato com música clássica sem mesmo saber que era música clássica. Fiquei encantada. Música é coisa de Deus.
S: E hoje em dia, o que curte ouvir?
Adoro Maria Bethânia, Roberto, Caetano... Ah! o Gil é divino, né?
S: Voltando um pouco para o seu começo de carreira, o que destacaria de marcante na rádio da década de 1940, no começo da tevê (nos anos 1950) e nas produções teatrais dessa época?
No rádio? O rádio teatro, o Brasil inteiro ouvia isso, foi marcante até quando a tevê chegou. Ai, como eu adorava fazer! Na televisão, havia grandes musicais, orquestras inteiras fazendo musicais e balés, adorava ver as bailarinas e os grandes maestros. Ao teatro, eu ia sempre, mesmo quando eu não estava em cartaz. Assistia a Maria de la Costa, a Bibi Ferreira, Tônia Carreiro, mulheres importantes dos palcos brasileiros. Mas você sabe que eu fiz de tudo, né? Comecei na rádio aos 16, fiz teatro, circo, cinema, televisão, dublagem (ela dublava a Betty, dos Flinstones, na versão dos anos 1960 do desenho), já fiz de tudo o que uma atriz pode fazer.
S: Mas teve vontade de fazer algo além de atuar?
Amo balé. Amo dançar. Se eu não fosse atriz, seria uma bailarina profissional! Acho lindo você poder se expressar com o corpo e com a cara.
S: Tem algum texto que ainda quer levar para o palco?
Encenei grandes autores, gostaria de encenar um texto que falasse da juventude... (diz pensativa) Ah! Sabia que eu nunca encenei uma tragédia grega? Isso! Eu fiz tragédia grega na televisão, mas não no teatro.
S: A senhora lê muito, quais são seus escritores favoritos?
Eu leio, mesmo. Olha, Sarah, se o texto for bom, leio até gibi! Lia livrinhos pras minhas filhas, pras netas e leio pro meu bisneto. Eu adoro Machado de Assis, claro. Euclides da Cunha, Lygia Fagundes Telles, Rubem Braga, leio muito os autores brasileiros.
S: Quando um ator é bom?
(risos) Ih, eu percebo na hora quando um ator novo vai chegar lá. Percebo na postura, se é profissional, na dedicação. O ator tem que ser dedicado, tem que procurar se lustrar, ser culto. Pra chegar no seu reconhecimento, tem que se sacrificar mesmo, renunciar muita coisa. Sem essa de vou aparecer na capa, vou virar famoso. Isso não diz nada. É uma profissão muito séria, tem que trabalhar.
S: Mas tem muita vaidade nesse nosso meio, né, dona Laura...
Eu vi várias vezes isso ao meu lado, você deve imaginar. Claro que o ator tem que ser vaidoso, mas ele deve dominar essa vaidade. Ela incita, isso é bom, porque você quer ser o melhor, mas não deve ser mostrada. A vaidade tem que ser cuidadosa, não pode te deixar boba.
S: E o que envaidece a senhora como atriz e como mulher?
Como atriz me envaidece quando eu consigo fazer meu trabalho benfeito. Eu sou chata, perfeccionista. Tô sempre achando que poderia estar melhor. Quando as pessoas estão gostando, eu fico toda vaidosa, amo meu trabalho e quero que o amem também. Uma vez uma colega de trabalho me disse que eu era muito vaidosa, pois eu confiava muito no meu taco, no meu rosto, mas eu nunca fui de correr pra ficar bonitinha. Meu conceito de beleza é outro. Nunca fui das mais bonitas, mas sempre gostei de mim como sou. Sou bem normal.
S: A senhora é uma "colher" arretada aos 82 anos. Como se sente nessa fase da vida?
Plena. Muito bem. Caminhei bem pela vida, tô satisfeita. Lógico que tropecei, mas me levantei e continuei bem. Sou uma mulher forte por dentro.
S: Qual o maior ensinamento que deixou e ainda deixa pros seus filhos e netos?
Ser justo. Na vida, a gente tem que ser justo em qualquer circunstância. Fui uma mãe ausente em alguns momentos por causa do trabalho, trabalhei muito. Tive duas filhas e nunca deixei de trabalhar. Mas nunca deixei faltar amor e justiça dentro de casa. Não sei cozinhar, o pai delas cozinhava muito bem. Além do meu querido marido, que era um pai maravilhoso, eu podia contar com minha querida mãe. A Fátima e a Fernanda (filhas de Laura com Fernando Balleroni, roteirista de rádio e televisão, já falecido) tiveram uma ótima avó. Mas compensei com a Adriana e a Cláudia, minhas netas, e faço tudo pro meu bisneto. Quando estou em São Paulo, até almoçar na escola dele eu vou. Pra ver se ele está comendo direitinho lá.
O bisneto interrompe: "...E todos os meus amigos querem ficar junto com a gente. Eles são fãs de minha avó, queriam saber se ela era igual a Lakshimi. Eu digo que não. Que ela é muito mais boazinha", diz Fernando de 8 anos.
Lau, como seu bisneto a chama carinhosamente, ri toda orgulhosa e comenta: "Verdade! E quando a gente vai pra nossa casa de campo, em Itu, corro com ele, jogo bola. Ele é bom de bola, menina!"
S: Tem alguma mania?
De comer chocolate. Antes de irmos passar o fim de semana em Itu [o que ela gosta de fazer em quase todos], minhas filhas e netas passam no supermercado pra abastecer a casa com chocolates. Como tudinho.
S: Como a senhora avalia sua contribuição pra cultura brasileira? [em 2006, recebeu do presidente Lula a Ordem do Mérito Cultural]
Acho que eu fiz muita coisa, sim. Mas sempre quis contribuir para que o jovem que me assista seja culto, é uma contribuição verdadeira, sincera, sem falsos valores. Preocupo-me em esclarecer que essa é uma profissão muito séria. Eu amo a juventude, quero sempre passar coisas boas pros jovens. Eles me dão muita esperança, me permitem sonhar... gosto de contribuir agregando cultura a eles.
S: Por que ainda existe tanta resistência das pessoas em aceitar a televisão como veículo cultural?
Ah! Esses intelectuais acham que a TV é um veículo menor. Isso é uma bobagem. Eles dizem que não assitem novela, mas todos falam "are baba" (risos). Eles acham que TV é coisa de povão. Porém, o povão deve ser respeitado, pois nós todos fazemos parte dele. É uma cretinice ter esse preconceito. É um grande veículo divulgador de cultura, de bons ensinamentos. De vez em quando ele escorrega, claro...
S: Quando?
Quando não esclarece devidamente o assunto em que está focando. Quando baixa o nível de temas a discutir ou quando cria ilusões desnecessárias. Por exemplo, quando mostra um personagem que ganha dois salários mínimos e tem uma casa com uma sala cheia de móveis lindos e uma piscina na casa. Isso no Brasil não é fácil, ele pode até ter, mas há que se lutar muito pra conseguir. Enfim... a TV é enganosa em certos aspectos, mas é a maior invenção dos séculos.
S: Sua imagem pública condiz com sua personalidade real?
Não sei analisar o que as pessoas pensam de mim. Eu recebo muito carinho das pessoas nas ruas. Recentemente eu fui apresentar um prêmio no Festival de Cinema de Recife. Quando eu entrei no palco, menina... as 3 mil pessoas levantaram pra me aplaudir de pé. Nossa! (emociona-se) Isso te envaidece, te dá um enorme prazer. Esse reconhecimento é bom demais. O público sente que eu levo a sério meu trabalho, a minha vida.
Questionário colherada (disponível também em vídeo. Confira aqui ou assista abaixo), por Laura Cardoso
S: O que você gosta de comer de colher?
Mousse de chocolate.
S: Pra quem você dá uma colher de chá?
Pro Fernando, meu bisneto.
S: E quem merece uma colher de sobremesa?
Tony Ramos.
S: Em quem você bateria com uma colher de pau?
Nos políticos.
S: Onde você meteria sua colher?
(pensativa) Numa boa briga de literatura.
Últimos comentários
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Paolo - 10/09/2009 às 10:30:19
MUSA ETERNA!!!
Se o nome do personagem de D. Laura Cardoso na novela é de deusa, sua trajetória na vida confirma e dá merecimento à esse nome. D. Laura Cardoso é uma sacerdotisa do teatro, seu nome está escrito na história da dramaturgia brasileira em letras de ouro. Vida longa à essa Deusa!!!
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Juliana - 10/09/2009 às 12:28:11
DIVA!
Laura dispensa maiores comentários...fala por si só...Excelente entrevista Sarinha...Colherada bombando! Beijos








