samba rock n'roll
Mariana Aydar fala com exclusividade sobre seu novo disco
por Sarah Oliveira - 18 de setembro de 2009
Mariana Aydar está entrando em turnê de seu segundo disco, “Peixes Pássaros Pessoas”, produzido por Kassin e Duani. Depois de passar por países como França, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos e Panamá no primeiro semestre de 2009, ela lançou o disco em São Paulo em um Sesc Pinheiros lotado no último sábado, dia 19 e no dia 7 de outubro segue para o Rio onde recebe a presença de Lecy Brandão.
Será a primeira vez de Mariana no Canecão e ela está ansiosa por isso. " O público do Rio é muito sincero, despojado. Eu me identifico muito com ele. Acho uma responsa fazer show no Canecão".
Quem ainda não ouviu o disco novo pode tirar suas conclusões no myspace da cantora ou, se tiver uma grana separada, comprar o CD. O encarte é de muito bom gosto e a escolha do repertório segue essa linha. Se você curte o som dela, acompanha essa nova geração que faz samba ou até mesmo se você não conhece Mariana Aydar acho que vale dar uma olhada no papo que batemos um pouco antes de ela entrar na aula de canto com a professora Maria Alvim.
S: Você transita com sua voz em ritmos variados. Como cuida dela?
Fora as aulas de canto as quais supervalorizo, eu faço coisas básicas como aquecimento, estou aprendendo a fazer colocação, impostação. Mas, na real, eu acho que isso tbém é muito intuitivo, a técnica só ajuda pois te dá uma flexibilidade pra cantar um sambinha, uma lenta ou algo mais para o forró, que é rápido. Nunca fui muito ligada nesse lance mais técnico, mas voz é um instrumento mesmo, né? Outro dia me contaram que o Michael Jackson aquecia por duas horas antes do show. Nossa! Duas horas!
S: E estuda algum instrumento?
Piano. É o instrumento mais completo e tem a coisa rítmica que me agrada demais, abre meu ouvido totalmente. Quando compus "Palavras não falam" (que está no repertório desse disco), por exemplo, eu o fiz sem instrumento, mesmo, mas ele é sempre bom pra quem canta pois te deixa mais consciente de até onde sua letra pode ir. (* aqui uma curiosidade: desde seu primeiro disco, ela assina suas composições como Kavita não como Mariana)
A TRAJETÓRIA DE MARIANA
Filha do multiinstrumentista Mario Manga, líder do Premê (Premeditando o Breque), grupo paulistano que fervia nos anos 1980, e casada com outro, Duani Martins (produtor musical e ex-líder do Forróçacana), Mariana desde cedo ouve até mesmo o batuque mais tímido virar música. "A música sempre permeou de maneira importante minha vida sem eu escolher, foi destino mesmo. É uma hora que eu apago as coisas, é uma forma de meditação. Em casa sempre tive a música me chamando pra esse momento, de silêncio até, eu diria", conta a cantora, que mora com Duani há 4 anos numa deliciosa e estratégica casa-estúdio perto da praça Pôr do Sol, em São Paulo.
Destino, intuição e DNA são elementos que realmente fazem um artista acontecer, mas sem esforço ou dedicação não rola. Por isso, quando Mariana Aydar poderia ir para o lado mais fácil - se lançar com a ajuda de gente do ramo que já trabalhou com seu pai ou com sua mãe (a publicitária Bia Aydar), ela preferiu largar tudo e ir estudar música na França. Antes de seu primeiro disco solo, "Kavita 1", cantou forró durante três anos na banda Caruá, foi vocalista do grupo de Miltinho Edilberto e do trio elétrico de Daniela Mercury, além de apresentar-se ao lado de Chico César, Dominguinhos, Elba Ramalho e Virginia Rosa.
"Eu fui pra lá numas de me encontrar como artista, saber o que realmente eu queria. Meu intuito sempre foi ser honesta com meus sentimentos para a música fluir da maneira mais sincera. Nunca foi fácil pra mim sair cantando. Ir para Paris foi no intuito de pegar a música, estudar, mergulhar no universo melódico e harmônico. Aulas e mais aulas diárias. Foi um esforço necessário", conta ela.
Lá ela decidiu que quando voltasse ao Brasil, iria fazer um disco. Para isso, correu atrás sozinha. Fez shows alternativos, buscou novas referências, conheceu muita gente, inclusive Seu Jorge, que ficou encantado com sua voz e até a convidou para o acompanhar em alguns de seus shows. No ano do Brasil na França, em 2005, já estava tão conhecida no circuito alternativo francês que dividiu palco com Lenine, Seu Jorge, Elba, Gal Costa e Gilberto Gil.
O GOSTO PELO FORRÓ
Em suas raízes como cantora, Mariana passou a adolescência em Trancoso de onde surgiu seu interesse pelo forró. Sobre essa influência em sua vida, ela conta uma história curiosa:
"Minha mãe era a produtora do Luiz Gonzaga e eu o conheci quando tinha 6 anos. Sarah, tem uma cena que nunca vou me esquecer: eu bem menina, com uns 8 anos, sei lá, a gente foi pro shopping Iguatemi (em São Paulo) não me lembro por que e ele ficou lá parado por uns 20 minutos olhando para aquele relógio enorme que tinha no shopping. Lembra? Então, eu fiquei fascinada por ele, por aquele olhar terno, por aquela figura. Quando o vi cantando no palco, nossa, me apaixonei de vez por ele e pela sua música. Aí, teve aquele 'boom' do forró universitário e eu fugia de casa pra ir dançar quase toda noite. Comecei a dar canjas pros trios nordestinos que se apresentavam e foi aí que fui chamada pra cantar na Caruá".
Além disso, cresceu ouvindo samba com o Luís, motorista da família - e amigo dela até hoje. "Ele não deixava eu e meus amigos que iam de carona comigo ouvir a Jovem Pan, ele colocava numa rádio comunitária que tocava um samba bem "roots". O maior barato (risos)! Eu ficava observando ele falando sobre samba, admirava muito essa simplicidade. Então, eu acabei nem me identificando com os gostos da galera do colégio. Ele era bateria da Leandro de Itaquera, eu entrei muito no samba por causa dele. A gente voltava pra casa ouvindo Fundo de Quintal, Lecy, Benito de Paula, Branca de Neve. A força que a Lecy tem ao cantar me chamava muito atenção desde lá."
S: Ao mesmo tempo que você tem uma forte ligação com a nova geração do samba, você reapresenta pra essa mesma galera gente de samba de raiz como Lecy Brandão... (Lecy costuma dizer em entrevistas que voltou a tocar em FM por causa de Mariana e que agora é a primeira vez que tem um público jovem de todas as classes sociais e de vários cantos do país)
Acho que são duas coisas bem legais de falar. Fico orgulhosa de fazer parte de uma geração que me instiga e me influencia, pois tem gente muito boa fazendo um som [esse disco traz parcerias de expoentes dessa nova geração como Romulo Fróes, Luisa Maita, Nenung, Roberta Sá, Pedro Luis e Duani]. Na época de meu pai era muito assim, eles se ajudavam, mostravam novas possibilidades uns aos outros e se influenciavam.
S: Por falar em seu pai, você curte rockn'roll?
Gosto de rock, esse disco tem um pouco essa pegada. Samba é algo muito rock n'roll, né? O samba tem atitude, quando você canta, traz a música lá do seu útero, com força. Acabei ouvindo muito rock por conta do Premeditando o breque e de tudo o que meu pai gostava.
S: Você já consegue explicar o nome que deu ao disco?
Eu nunca consigo explicar essa pergunta direito (risos). Mas o fato é que eu tô num momento meio hippie de prestar atenção nas pessoas e em mim. Eu falo na minha música: "Nossos gritos abafados, o amor que não vivemos, a paz que não achamos..." Não consegui falar de outra coisa nesse disco.
S: Nesse caso, então, você "brifou" os compositores sobre a mensagem que queria passar com esse disco?
Sim, eles todos entraram nessa mesma vibe, pensando nesse assunto. Todas as músicas encomendadas foram feitas para esse conceito do disco. E o nome desse trabalho diz isso. É muito bom conviver com a natureza, os bichos vivem muito em paz. Os pássaros e os peixes são muito mais livres que a gente. O sucesso, a fama, a inveja, o ciúme são loucuras que permeiam a mente humana há milhões de anos. Eu penso muito nisso e resolvi colocar isso em forma de música. Acho que a arte serve pra isso, mesmo.
S: Você faz terapia? Medita?
Sempre tive interesse pelo lado espiritual. Já fiz cabala e acho que a terapia fica muito no mérito da mente e não transcende para o vazio. Conheci o mestre Osho e medito hoje em dia. E sabia que eu gosto de dar entrevistas que te fazem pensar? É porque as perguntas te colocam pra dentro de você. Acho bacana...
S: Para finalizar, quero saber pra quem você dá suas colheradas?
Ah! Adoro essa sua pergunta. Dou uma colher de chá pra Luiza Maita e pra Tulipa Ruiz e acho que o Caetano merece uma bela colher de sobremesa, sabia? Adoro Caetano. Ele sempre merece uma colher de sobremesa, pois se renova a todo tempo, não tem medo de falar o que acha, é pé no chão, não faz questão de reforçar essa coisa do mito. Pelo contrário, mesmo sendo quem é, não deixa de ser um cara simples, sincero demais. Acredito muito na sinceridade do artista.
Últimos comentários
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renato - 19/09/2009 às 13:04:22
eu vou hoje
já fui em 2 shows da mariana no sesc pompeia e no auditorio do ibirapuera. esse novo disco é muito interessante. consegui comorar ingressos ontem. adoro o sesc paulo autran. boa entrevista. curiosa
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mario - 19/09/2009 às 19:54:31
sarah, vc vai no show hj?
sarinha, te sigo no twitter. vi que você foi no show da maria gadu ontem. você vai hj na mariana aydar? eu fiquei a fim de ir. lembro de uma matéria com ela na capa da vejinha ano passado. vou pro sesc tentar ingresso e amnahã sigo o @colherada no live twitter do emmy!
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