projeto ambicioso

"Ben Hur Live" tenta reproduzir nos palcos o sucesso do filme, ao custo de 15 milhões de euros

O espetáculo está em turnê pela Europa desde o dia 17

por Adriana Guivo - 22 de setembro de 2009
Há cinquenta anos estreava o épico hollywoodiano “Ben-Hur”, que consagrou Charlton Heston no papel principal. O ator, para quem não lembra, foi apresentado por Michael Moore como o vilão do documentário “Tiros em Columbine”, ao presidir a associação pró-armamento pessoal. No filme de 1959, ele é o mocinho de belos olhos azuis que vemos passar pelos piores momentos e ainda dar a volta por cima.

Charlton Heston como Judah Ben-HurEm suas três horas e meia de duração, se desenrola uma história de enfrentamento de dois amigos de infância, que se veem em lados contrários de questões políticas quando adultos, Judah Ben-Hur e Messala. Os dois deveriam protagonizar uma história de amor homossexual; diante do veto ao diretor, ficaram só os resquícios dessa relação, pautada por um ódio descomunal. 

Ben-Hur é tornado escravo após ser julgado autor de uma tramoia pra assassinar o governador. Diante de algo tão hediondo, dá-lhe maus tratos. À base de muitas chicotadas, vai suar os farrapos nos porões de uma galé (antiga embarcação náutica). Antes de ser totalmente destruída por um ataque, consegue se salvar e ao homem que o faz seu "filho", com direito a regalias no Império e uma grande reviravolta.

Tudo no filme é grandioso e intenso - são oito mil figurantes e cem mil figurinos, pra se ter uma ideia da dimensão da empreitada. Com seus desfiles de legiões usando elmos e saiotes, uma batalha sangrenta de bigas (acidentes em corrida de Fórmula 1 até parecem brincadeira) e ainda a inclusão da Via Crucis, um milagre dos céus, um reencontro emocionante e um final feliz apesar dos percalços, não há filme da atualidade que se compare. Durante anos, a época de Natal tinha exibição garantida na telinha.

O AMBICIOSO “BEN HUR LIVE”

Em Londres, estreou no último dia 17 a versão teatral da história. O desejo megalomaníaco de Franz Abraham (conhecido por suas produções musicais como “Carmina Burana Open Air” e shows dos Rolling Stones e David Bowie) levou 15 anos em projeto, e um investimento de 15 milhões de euros. Montado no centro de uma arena com 360º de visibilidade e 620 toneladas de areia, o público vê desfilarem quatrocentos figurantes e cerca de quarenta animais – cavalos, burros e pôneis.

Momentos da galé e da corrida de bigas
Pelos vídeos publicados na internet, se vê um show pirotécnico digno de desfile na Sapucaí e Cirque du Soleil. O exagero se completa com os diálogos proferidos em latim e aramaico, com narração de Stewart Copeland, cantor da banda The Police, que assina a música do espetáculo. O ingresso pra tudo isso é quase uma bagatela, custando o equivalente a R$ 100.

As críticas não têm sido nada favoráveis. Karen Fricker, do jornal londrino "The Guardian", considera que faltou uma "injeção do século 21", que lhe pusesse em pé de igualdade com o que se alcançou com a sétima arte. Diante de tantos efeitos visuais, a dramaticidade é deslocada para segundo plano, tanto que nem se ouve falar do desempenho dos atores.

A intenção do diretor é fazer com que dure mais de cinquenta anos em turnê – Viena, Paris, Madrid, Munique, Berlim, Lisboa já estão programadas, com poucas apresentações em cada lugar. Será então preciso que o público se renda à narrativa ou, ao menos, à curiosidade para ver as soluções encontradas para a cena das galés e a corrida das bigas. Caso contrário, nenhum naufrágio será tão estrondoso. Nem mesmo o do Titanic.
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