donato X gilberto
Um papo com João Donato, o músico que deixou a bossa nova para trás
Por Danilo Casaletti
por Mr. Fork - 30 de setembro de 2009
Recentemente entrevistei o músico João Donato que completa 60 anos de carreira e 75 de idade. Eu já tinha tido um breve contato com Donato em 2008, durante as comemorações dos 50 anos da bossa nova. À época, fui conversar com ele a respeito do movimento musical e acompanhar seu ensaio para o show que festejou a data. Confesso que o achei meio frio, querendo terminar logo o papo. Não entendi o motivo, já que - ao lado de Tom Jobim, João Gilberto e Jonnhy Alf, - ele é considerado um dos mentores do estilo.
Nessa segunda conversa, João foi mais direito. “Sinceramente? Eu não gosto muito da pegada da bossa nova. Ela deve ser boa para cantar, aquela coisa de ‘cantinho e violão’. Mas, para você tocar seu instrumento, como faz o Sergio Mendes, como fazia o Baden Powell, fica complicado. A pegadinha é muito leve. Gosto de energia no palco”, me disse.
A grande questão, porém, é que Donato ousou mais durante a sua carreira. Foi para os Estados Unidos em 1959, bem antes de a bossa nova estourar. Chegando lá, recebeu a notícia que só poderia voltar ao Brasil quando pagasse as passagens. Teve que se virar. Os músicos brasileiros lhe viraram as costas. “Eles ainda estavam naquela de ‘Tico-tico no fubá’. Disseram-me que eu não tocava música brasileira’”.
Donato acabou conhecendo a turma do jazz e os latinos. Tocou com Chet Baker e Tito Puente. Adorava ouvir James Brown. Todos esses elementos contribuíram para a formação de sua música.
“Em 1970, lançou o álbum “A Bad Donato”, que tem produção de Eumir Deodato e mistura jazz, bossa nova e funk. “Bad”, que traz apenas temas instrumentais, foi considerado pela revista “Rolling Stone” brasileira como um dos 100 melhores discos de todos os tempos.
Porém, João Gilberto e Tom Jobim ficaram mais populares que Donato, pelo menos aqui no Brasil. Não que Donato não tenha colecionado sucessos. “A rã” (com Caetano Veloso), “A paz” (com Gilberto Gil) e “Gaiolas Abertas” (com Martinho da Vila) são exemplos disso.
Tom sempre teve a sua turma (Chico Buarque, Edu Lobo, Vinícius de Moraes). João sempre foi do ‘bloco do eu sozinho’. Já a lista de parceiros musicais de Donato é um caso à parte. Além dos já citados, tem João Bosco, Paulo César Pinheiro, Abel Silva, Beth Carvalho, Nelson Motta, Joyce, Carlinhos Brown, Fernanda Takai, Marcelo D2. Difícil se adaptar a tão diferentes companheiros de ideias e canções? “Quando eu fui fazer música com o Carlinhos Brown, ele me disse ‘eu quero uma bossa nova’ e eu dizia ‘mas eu quero fazer um axé’”, contou Donato em nosso bate-papo.
UM ARTISTA INQUIETO
Planos para o futuro? Claro! Donato quer gravar um disco com versões para as composições de Joseph-Maurice Ravel (1875-1937). “Há mais de 15 anos tenho esse desejo. Quero deixar as canções dele com a minha marca”, revela o músico com entusiasmo.
Fiquei pensando o que levou Donato a fugir da bossa, enquanto o outro João, o Gilberto, vive nela até hoje. Questão de gosto? Pode ser. Questão de mercado? Talvez. No Brasil acredita-se que tudo tem que ter um rótulo, um nome. Dessa maneira, fica mais fácil de se encaixar nas prateleiras.
Busquei a explicação para esse antagonismo Donato-Gilberto em um episódio delicioso da história da música brasileira: o disco que Tom Jobim fez junto com a cantora Elis Regina em 1974. Gravado em Los Angeles, onde o maestro morava, o álbum foi um pedido de Elis para comemorar seus dez anos de contrato com a gravadora Philips (atual Universal). Tom estava radicado nos Estados Unidos há mais de dez anos e, em um primeiro momento, não gostou da sugestão da gravadora de dividir com o músico César Camargo Mariano, na época casado com Elis, os arranjos do disco. Também não queria que os músicos da Elis, todos brasileiros, tocassem. Em suma: não queria interferência em sua música.
Terminadas as gravações e a mixagem do álbum, César e Aloysio de Oliveira, o produtor do encontro, foram para o apartamento de Tom com a fita da gravação. Eram 5h30 da manhã. Tom abriu a porta de pijama e com um copo de whisky na mão. Ao ver os dois, perguntou: "O que vocês estão fazendo aqui?". Eles disseram que o disco estava pronto e que queriam que ele escutasse. Tom pediu para deixar para mais tarde, mas César insistiu. Tom, então, ouviu na hora, sem tecer qualquer comentário.
Mais tarde, César estava no hotel descansando quando foi acordado por Elis: "César, é o Tom no telefone. Ele quer falar com você". O músico escutou as seguintes palavras do maestro: "Eu gosto de tomar banho de banheira, com água parada. Já vocês, gostam de tomar banho de chuveiro, com água fresca".
Não condeno quem toma banho na mesma água, ou que senta sempre no mesmo banquinho. A música tem dessas coisas. Cada um na sua praia, cada um na sua onda. Mas tenho admirado mais quem se mistura, que toma uma boa e gostosa “chuveirada".
* Danilo Casaletti é repórter do site de ÉPOCA. Apaixonado por música brasileira, conhece histórias incríveis sobre Elis Regina, Vinícius de Moraes e até de Roberto Carlos
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