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Sarah apresenta Marcelo Tas
Conheça o lado B do engenheiro, multimídia, pai, dançarino, diretor e ator Marcelo Tas
por Sarah Oliveira - 13 de outubro de 2009
"O verbo que rege a era digital é ouvir."
"Não podemos esquecer que comunicação não é o que você fala, é o que as pessoas ouvem." De tanto acreditar nessa ideia, Marcelo Tas tornou-se uma das figuras mais cultuadas e de maior credibilidade da mídia brasileira. Nascido em Ituverava, no interior de São Paulo, ele morou no Rio -- onde nasceu sua filha mais velha, Luiza, de 20 anos -- e em Nova York. Mas sempre se identificou melhor com a capital paulistana: "Eu sou aquele cara que mora em São Paulo e vive achando que deveria morar em outro lugar. Mas eu não consigo (risos). Se você tem paciência de se encaixar nela, São Paulo é muito generosa, tem abundância de amizade, de trabalho... Pra mim, hoje é dificílimo morar em outro lugar".
E foi no escritório de uma casa ampla e supergostosa aqui em Sampa onde ele vive com a família (a mulher, Bel Kowarick, que é atriz, e os dois filhos mais novos, Miguel, de 8, e Clarissa, de 4 -- melhor amiga do Marco Luque) que ele bateu esse papo comigo.
S: Quando desistiu da engenharia para entrar no mundo artístico? (Marcelo Tas é formado em engenharia pela Escola Politécnica da USP)
Eu estava em São Paulo totalmente perdido e a escolha da engenharia reflete muito isso de eu não ter certeza do que fazer da vida. Foi quando vi uma peça de teatro que me chocou. Era com a Maria Helena Ansaldi e chamava-se "Escuta Zé" - do Reich. Saí de lá transtornado, pensando: "E agora, o que vou fazer?".
S: Quantos anos você tinha?
De 18 pra 19. Foi quando decidi estudar teatro na escola Macunaíma. Eu tava no primeiro ano -- terrível -- da engenharia. Isso acabou me colocando em contato com a arte. Comecei a me meter em aulas de voz, de dança... Tive um grupo de dança, você sabia? (risos) E isso foi ampliando minha visão de mundo. Por caminhos totalmente tortos na própria engenharia eu encontrei uma galera que fazia jornal anarquista de humor. No segundo ano da Poli, eu comecei a publicar matérias pra eles e, no terceiro ano, eu virei editor desse jornal.
S: Ainda dança?
Socialmente (risos). Eu saio muito pouco, sou muito caseiro, mas quando saio é pra arrebentar. Adoro dançar. Adoro um bom blues. Música black. Meu Mozart é o Miles Davis.
S: Mas o curso de engenharia também tem muito a ver com você, com esse seu lado tecnológico, não?
Sem dúvida não foi um erro de escolha. Eu acredito que essa minha ligação desde sempre com a tecnologia tem a ver com a escolha por estudar engenharia, sim. Tenho interesse em entender como as coisas são construídas, até entender de eletrônica, de física, de química, enfim... Na época, eram coisas que parecia contraditórias (teatro e engenharia), mas que hoje para mim realmente fazem muito sentido. É meio um resumo do que faço hoje.
S: Você lança tendências midiáticas (como no caso atual do Twitter), mas também valoriza seus precendentes, como o teatro (ele dirigiu peças e até óperas teatrais) e o rádio (ele levou o personagem "Ernesto Varella, repórter", fenômeno da TV dos anos 1980, para o rádio). Isso não deixa de ser transgressor...
Olha, Sarah eu não tenho preconceito contra nada. Nem contra orkut, que as pessoas acham uma bobagem. Acredito que temos que nos dar a chance de experimentar todas as formas de comunicação possíveis. Eu costumo dizer que o teatro é a segunda melhor forma de comunicação. A primeira, obviamente, é o sexo (risos). Mas voltando, quando eu fui convidado pra dirigir um espetáculo de ópera aqui em São Paulo, era pra ficar duas semanas em cartaz e acabamos ampliando isso, nos apresentamos no Festival Internacional de Ópera de Manaus.
S: Fernando Meirelles é seu parceiro de longa data. A amizade com ele começou na USP?
Eu fazia Poli e o Fernando fazia FAU (Faculdade de arquitetura da Universidade de São Paulo). Ele tinha comprado uma câmera no Japão -- é bom a gente avisar o pessoal do Colherada Cultural que não tinha câmera de vídeo no Brasil naquela época (risos) e em torno dessa câmera e de uma ilha de edição surgiu um grupo de figuras incluindo eu e ele, que começou a estudar a linguagem audiovisual.
S: E assim a videoarte brasileira veio à tona com vocês...
A gente realmente participou intensamente desse movimento independente. A produção de vídeo no início dos anos 1980 foi algo muito forte em São Paulo. Várias produtoras surgiram, até o Zé Celso fazia experimentações com vídeos no Teatro Oficina. Muita gente de animação e curta-metragem começou conosco. A Olhar Eletrônico tinha um objetivo muito claro: revolucionar a tevê. A gente era muito metido, muito ambicioso. Desde o começo, buscamos entrar na TV, que era muito fechada. Existiam cinco canais abertos -- não tinha internet e nem canal a cabo -- e conseguimos colocar nossos vídeos e bizarrices numa brecha na madrugada da TV Gazeta. O Varella, o TV Mix, o "Rá Tim Bum" foram ideias que surgiram naquele encontro.
S: Você e sua trupe da época batiam forte na questão política sem alienar o público em geral, ao contrário, democratizando a mensagem que queriam passar. Muito do humor inteligente na TV deve-se a isso.
A nossa produtora, Olhar Eletrônico, tinha em seu DNA o objetivo de revelar a maneira como se fazem as coisas. É uma característica presente em vários criadores da minha geração. O Guel (Arraes), o Jorge (Furtado) são caras que além de contar uma história acabam revelando o que está por trás dela. Mostram o avesso. Eu preservo isso e acredito que tenha uma identificação com o popular principalmente com o brasileiro que adora televisão e adora entender como se faz televisão. Acredito que, quando você revela e deixa se revelar mostrando suas falhas e erros -- como fazemos no "CQC" -- e rimos disso, acaba sendo uma chave pra entender essa identificação com o popular. O brasileiro entende de tevê, acompanha enredos rocambolescos e ousados.
S: A edição, nesse caso, é muito importante...
É, no "CQC" a gente brinca com a edição. Colocamos uma animação para reforçar a piada ou a sátira, e o telespectador entende desde o momento zero. E olha que é uma edição ou linguagem sofisticadas com trocadilhos, gráficos, piadas embutidas, são várias interpretações que se pode fazer. É um programa feito pra várias audiências, ele não segmenta.
S: As crianças adoram e os mais velhos que te assistiam como professor Tibúrcio, na TV Cultura, e hoje têm seus 30 anos se lembram. Várias gerações te acompanham...
Eles me cobram tanto que às vezes eu apareço de professor Tibúrcio no "CQC" (risos). Eu acho que o programa junta todas essas plataformas no mesmo ambiente que é o digital no qual eu já estava há mais de dez anos. O pai dessa garotada que vê o "CQC" vai lá e me apresenta para o filho como o Ernesto Varella, o irmão mais velho como o Professor Tibúrcio e o próprio moleque se diverte comigo como o apresentador do "CQC".
S: O que mais te encanta na internet?
A internet te deixa muito vulnerável, ela te cobra de um jeito cruel, o melhor dessa história é que se você procurar manter uma espinha dorsal alinhada com o que você acredita, isso pode gerar uma comunicação muito eficiente. Creio que a internet propicia esse encontro de tudo o que você já fez na sua carreira e não te cobra uma exclusividade como a televisão. Diferentemente do que rola nos EUA, onde os caras transitam pelos canais concorrentes tranquilamente. Na internet, a gente se encontra. O "CQC" conversa com a Globo, com a Abril, com a Folha, com a Record através da internet.
S: Mas a internet cai naquele negócio de todo mundo querer ser Paulo Francis, já que se pode estar um pouco mais camuflado via online...
Verdade (risos)! Todo mundo quer ter opinião e, ao contrário do Paulo Francis, de um jeito gratuito, mas isso não prospera muito porque o que adianta ter um monte de gente com opinião frágil? Gera um barulho, claro, mas... Eu acho que a gente deve continuar sempre lendo bons livros, tendo noção da consequência do que falamos ou escrevemos, tem que usar boas fontes, ter credibilidade. Só assim que se tem uma boa audiência.
S: Por que você acha importante nesse momento termos criado um site de cultura?
Justamente por conta do que acabei de falar. Acho que o Brasil já tem muita gente conectada, muita informação disponível, mas com poucos filtros agregadores, algo já muito popular em mercados mais maduros como o americano. Agregadores de conteúdo em que se tem alguém que selecionou ou produziu determinado tema ou assunto. Por exemplo: Cultura. O Colherada Cultural está aqui pra falar de cultura, então eu sei que, sempre que eu entrar nesse site, ele vai ser minha referência de cultura. Acho que faltam projetos assim na rede, que gerem referência. Um exemplo ótimo disso, modestamente falando, é o "CQC", colocado num horário desvalorizado na tevê brasileria. Segunda à noite: nunca foi um horário valorizado na tevê brasileira, tinha o "Roda Viva" na cutlura, filmão na Globo... e no boca a boca pela internet o "CQC" aconteceu. Eu credito a velocidade de aceitação do "CQC" à internet. Os telespectadores começaram a subir vídeos no Youtube, a criar blogs e comunidades das quais não temos nenhum controle...
S: O que você mais gosta: twitter, facebook, blog...?
Eu gosto de tudo (risos). Aprecie com moderação é o que tenho a dizer. Cada coisa é legal, mas devemos saber como aproveitar cada ferramenta. Eu vivo conectado, mas sei muito bem o quanto tenho que dedicar de minha atenção pra cada ferramenta dessas.
S: E qual você usa mais?
O twitter é o que me deixa mais atento no momento, pois é o mais aberto, o mais democrático, o mais incontrolável. É impossível você moderar os comentários como acontece no blog ou no site, o twitter tem uma velocidade e uma liberdade assustadoras. O verbo que rege a era digital, que também é a era de aquarius -- segundo Jorge Mautner, meu filósofo preferido -- é ouvir. A gente passou décadas falando, você não conseguia ouvir. Agora isso é possível. Eu chego em casa depois do "CQC" ao vivo e leio tudo o que falaram sobre o programa. Eu acompanho tudo. É precioso poder ouvir quem tá te assistindo. Comunicação não é o que você fala, é o que você ouve!
S: E vc lê ainda jornal impresso?
Com certeza.
S: O que acha dessa polêmica de que a internet vai acabar com o jornal impresso?
Os jornais continuarão existindo, com certeza. O suporte deles (se será no papel, por exemplo), vai depender de cada empresa. Os jornais que entenderem e conversarem com seu público vão se dar bem. A gente vive numa época extremamente rica e abundante pra quem trabalha com jornalismo. Pelo contrário, vai faltar jornal pro apetite do leitor. A gente tá passando do broadcast -- que é você ficar em casa sentado recebendo só a novela ou os programas de entretenimento e o máximo que você pode fazer é trocar o canal pelo controle remoto -- para a era em que as pessoas vão até você quando elas querem, como elas querem. O público quer participar, criticar, quer que sua voz seja ouvida. Eu acho fascinante. Sempre quis isso!
"Pai, o que você faz?" "Laboratório" "E hoje você vai fazer experiências na televisão ou no computador?"
S: E o dia a dia como pai, Tas? Você faz mil coisas ao mesmo tempo e tem três filhos superpresentes em sua vida...
Sarah, eu deveria pagar um salário pra cada um deles pois são minhas principais fontes de informação. Você vê o quadro do escritório, eu só uso metade do espaço pra cima. O resto do quadro é deles. Eles invadem meu escritório a qualquer hora. Eu tenho filhos de 4, 8 e 20 anos, cada um deles é um laboratório pra mim. Aliás, foi por causa deles que eu coloquei essa plaquinha na porta escrito: "Laboratório". Porque o Miguel uma vez me perguntou: o que você faz aqui dentro (do escritório da casa)? E quando vi essa plaquinha na loja, pensei: "É isso!", eu faço experiências aqui! (risos)
S: E Miguel e Clarissa te assistem?
Miguel já foi até no estúdio e a Clarisse é amiga do Marco Luque, você acredita que às vezes ela sobe aqui no escritório e me pede: vamos ligar pro Marco Luque? E eles ficam por 15 minutos batendo o maior papo ao telefone! Eu acho fantástico! Mas sabe que sempre houve um questionamento deles... Perguntas como: onde você vai trabalhar hoje? No computador ou na televisão? Eles assistem meus vídeos no blog, assistem ao início do "CQC", pois dormem cedo, ou, no dia seguinte, pelo Youtube.
Quando eu fui dar um "oi" pra dupla dinâmica (que está linda) na sala de tevê, passei por um piano na sala principal. Bel (mulher do Tas) me explicou toda orgulhosa: "O Miguel faz aula de piano com o pai uma vez por semana. Ele inicia às 9:30 e o Marcelo entra em seguida." Pai e filho estudam clássicos como Bach, Bartok e Schumann com o professor Dante Pignatari. Achei isso demais e, pra finalizar, quis saber como ele se define como pai. E ele respondeu:
Eu penso que todo pai está sempre na beira do abismo da caretice. A gente tem que tomar cuidado pra não ser o controlador, o dono da vida do filho, pois isso é terrível. Eu procuro me observar e, principalmente, conversar com minha mulher, a Bel, e com a mãe da Luiza, a Cláudia. Eu tenho a consciência de que, 99% do tempo, os pais vieram ao mundo pra atrapalhar a vida dos filhos (risos). Se a gente conseguir atrapalhar menos, evitar, a gente já tem chances de ser muito bom pai. Aprendo que uma das melhores maneiras de ser um pai é -- mais uma vez -- saber ouvir. Praticar esse verbinho. O que eu mais sugiro aos pais que se queixam comigo é se aproximar, convidar seu filho a fazer algo que ele goste de fazer, não ir na casa da tia ou da avó, e sim ir ao cinema, ou comer uma pizza, beber uma cerveja. A fase mais dura que se passa com o filho é a adolescência. É uma fase em que o jovem tira seu fio da tomada e te desliga. Eu fiquei desesperado, pois minha filha adolescente que eu sempre amei tanto e me idolatrava não queria saber mais de mim, então minha tática foi a pizza! Eu ia me aproximando dela e da galera dela através de boas rodadas de pizza e a gente começou a se olhar de frente e eu comecei a conhecer a turma dela -- figuras interessantíssimas que hoje frequentam minha casa e minha vida. Eu só conquistei essa "honra" de me comunicar com eles a partir do momento em que eu comecei a ouvi-los e a apreciar uma boa pizza com eles -- coisa que, em São Paulo, vale a pena. (risos).
Dá-lhe, Tas! Beijomeliga.
Questionário Colherada, por Marcelo Tas (veja também em vídeo)
O que você come de colher? Sucrilhos, toda manhã.
Pra quem daria uma colher de chá? Pra garotada do twitter.
E quem merece uma de sobremesa? José Sarney. Ele é muito amargo. Merece adoçar um pouco.
Em quem bateria com uma colher de pau? Eu só bateria com uma colher de pau em quem me pedisse três vezes pra eu bater. (risos)
Onde mete sua colher? Onde não sou chamado.
Últimos comentários
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Gilberto - 16/10/2009 às 13:33:40
MT INTERESSANTE
Não consegui ver o vídeo em Roraima a internet não é tão boa, mesmo assim foi bem interessante conhecer uma figura tão genial de uma maneira tão simples, mt bom vou colocar este sit como favorito, descobri a entrevista pelo blog do TAS.
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thalline - 16/10/2009 às 12:11:12
vídeo super
adorei saber + um pouco sobre a vida de Marcelo Tas ótima pessoa, família super bacaca, entrevista super d+











