tema do mês: infância
O desafio de quem faz teatro para crianças
por Estela Cotes - 15 de outubro de 2009
Elas interagem por natureza. São espontâneas, não sabem fingir, e não seria diferente dentro de um teatro. Nesta época do ano, fervilham encenações para o público infantil. Ao assistir dois espetáculos em cartaz, a minha dúvida era: quais são os desafios e as preocupações enfrentados por quem os monta?
César Gouvêa, fundador do grupo de improvisação Jogando no Quintal, lançou em 2008 o espetáculo “O Mágico de Nós”, que voltou aos palcos do teatro Tuca, na capital paulista, em setembro. Ao clássico que narra a história de Dorothy, o Homem de Lata, o Leão e o Espantalho, ele incluiu cenas também improvisadas. As crianças participam indicando um personagem, um lugar e um tema para uma história a ser contada pelos palhaços ali, na hora.
“A criança já improvisa, já brinca por natureza. Fiz um espetáculo pensando de que maneira a improvisação seria feita, mas dentro de uma fábula, porque criança ama história. No Jogando, a dramaturgia quem dá é o palhaço, e a história não segue uma linha, pode começar pelo final, por exemplo. Para as crianças, a narração tem que ser simples e mais imagética, menos verbal”, conta.
Enquanto encantam-se com as aventuras de Dorothy, as crianças surpreendem-se também em poder interferir na história. E a reação é mais que espontânea. Se deu certo, elas se esbaldam de rir. Se não, até ouvimos um “não achei graça, mãe!”.
MAIS DIFÍCIL E MAIS GOSTOSO
Desde 1995, Tuna Serzedello trabalha com teatro infantil. Atualmente está com o espetáculo “Zé Mane, Primazé e outro Zé”, dirigida por Soledad Yunge, que tem três personagens que tentam o tempo todo driblar a “famigerada”, a morte. Ao Colherada, ele especifica como é o desafio de fazer teatro para os pequenos.
“As crianças são muito exigentes e não se contentam com pouco. É um exercício muito grande para o ator buscar o tom correto para não parecer infantilóide. O texto precisa ser inteligente, instigante e divertido. Cenário e figurinos precisam fugir da ilustração e provocar a imaginação dos pequenos. Não precisa se preocupar em ensinar nada! Quem ensina são os pais e a escola; o teatro diverte, transporta, estimula e cria as situações para que os adultos possam discutir e ensinar as crianças.”
Atualmente, a produção infantil tem apresentado diferentes propostas, que vão desde as tradicionais marionetes até espetáculos para pequenos a partir de 2 anos. Para Tuna, “nós temos um panorama muito rico de companhias e peças. Com as temáticas abordadas podemos criar um tratado sobre a época em que vivemos: morte, separação, gêneros, medo, câncer. Não existe tema proibido, existe uma forma adequada de abordar a questão e as nossas companhias estão acertando muito. Desde a manipulação de bonecos, até pesquisas cênicas aprimoradas. Contar uma história nunca foi tão bacana!”
COMO EM SONHO
Um bom exemplo de como trabalhar o tema “morte” para as crianças é a peça “O Travesseiro”, em cartaz no Teatro Alfa, também em São Paulo. Criada pelo grupo Velha Companhia, dos atores Alejandra Sampaio, Kiko Marques e Virgínia Buckowski – que também atuam no espetáculo –, conta as aventuras da menina Didi para trazer de volta o irmão dela, que teria virado um travesseiro.
Os pais da menina inventam essa história para amenizar a dor da perda do irmão. Mas Didi entra em um mundo de sonho, que começa a prejudicá-la no dia a dia.
Com figurino delicado e colorido, assinado por Marina Reis, a peça trabalha com temas como a perda, o afeto e o sonho. A narrativa é dividida em capítulos, demarcados pela projeção de desenhos ao fundo do cenário. Para transitar entre o sonho de Didi e a realidade, a direção de Kiko Marques alterna a iluminação e traz personagens como uma fada em um balanço e um mágico que promete transformar o travesseiro em menino novamente.
Tanto texto quanto montagem não subestimam o poder de entendimento da criança – e não entendiam os pais. Esta, aliás, é uma das preocupações de espetáculos infantis: conversar com as crianças, mas sem desagradar quem as leva ao teatro.
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