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"No Teu Deserto", de Miguel Sousa Tavares, relata encontro silencioso

por Martha Lopes - 21 de outubro de 2009
Miguel Sousa Tavares é um dos principais escritores portugueses da atualidade"Tudo o que se diz de desnecessário é estúpido, é um sinal destes tempos estúpidos em que falamos mais do que entendemos. No deserto não há muito a dizer: o olhar chega e impõe o silêncio" (p. 47). Com o trecho, o português Miguel Sousa Tavares define seu romance recém-lançado no Brasil: "No Teu Deserto" (Cia. das Letras, 126 páginas) é pautado pelo silêncio.

A obra narra o encontro entre Miguel e Cláudia, que embarcam em uma expedição ao Deserto do Saara, para uma reportagem. Ele é ativo e busca histórias que superem o poder do tempo. Ela é silenciosa e procura abrigo e proteção. No começo da viagem -- marcada por confusões e choques culturais -- se estranham em suas diferenças, mas, quanto mais se embrenham no deserto, mais aprendem a se complementar e entender. Nasce ali um afeto mútuo.

Um dos maiores méritos do livro é desenrolar esse sentimento com sutileza. Através do discurso dos dois interlocutores, descobrimos os episódios que compuseram a jornada e a forma como foram se aproximando -- sem declarações exageradas ou obviedades.

À medida que os dias desta quarentena de viagem se passam nota-se como, no meio do vazio daquele deserto, dois desconhecidos aprendem juntos a contemplar a solidão e constroem um espaço para a sua cumplicidade. Mergulham no Deserto do Saara como se afundam no deserto um do outro, num exercício metafórico que se desenrola por todo o livro.

RUÍDOS

A linguagem poética de Sousa Tavares permite a construção de trechos comoventes, como "Não me acordes agora, não me fales alto antes de me falares ao ouvido, não me tragas de volta do deserto" (p. 103). No entanto, o uso de alguns clichês soam "ruidosos" em meio à harmonia silenciosa do livro, como quando o autor discorre sobre a dificuldade de um casal aceitar o silêncio, ou quando diz que as estrelas pareciam tão próximas que sentia o impulso de estender a mão para tocá-las.

Outro incômodo se dá pela estrutura narrativa. A história é contada por dois narradores, Miguel e Cláudia, que se alternam na descrição. No entanto, o autor deixa claro no início do livro que o ponto de partida são as suas lembranças. Assim, soa um pouco artificial que Cláudia também conte essa história.

Essa sensação se intensifica pelo fato de que um narrador relata a jornada ao outro, ainda que ambos tenham dividido aqueles episódios e conheçam os fatos.

O AUTOR

Miguel Sousa Tavares é um dos autores portugueses mais conhecidos da atualidade. Formado em Direito, é filho da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen. Enveredou pelo campo do jornalismo, sendo colaborador de veículos diversos e tendo publicado diversas reportagens.

Além de contos, lançou o romance "Equador", em 2003, que se firmou como best-seller em Portugal nos anos de 2004 e 2005. Também assina o romance "Rio das Flores" (2007).

Últimos comentários
  • Ana Rita do Carmo - 01/01/2010 às 17:54:39

    Obrigado Miguel

    Gostei muito do seu "Quase Romance". Provávelmente se a Claudia ainda estivesse por aqui, não o teria escrito.É sempre assim, Miguel. Acredito que tudo tem um tempo para acontecer,sem duvida que este "Quase Romance" teve o seu. Se o tivesse escrito antes, não teria sido igual. Foi ilariante ler as peripécias da viagem atè chegarem ao Deserto. Quanto ao resto ... há afectos que vivem perpétuados no infinito dos tempos.... Acredito que lá em cima entre os Sóis e as Estrela a Cláudia estará grata. Termino agradecendo por ter tido a coragem de partilhar essa magnifica vivência com o Mundo. Ana Rita

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