compositor
Sarah apresenta Nando Reis
Pai de cinco filhos. Compositor requisitado. Band leader competente.
por Sarah Oliveira - 23 de outubro de 2009
Téo, 23. Sofia, 21. Sebastião, 14. Zoé, 10. Ismael, 3. Essa não é uma chamada escolar e sim a sequência da melhor criação de Nando Reis. Vocação pra ser pai ele diz sempre ter tido e exerce essa função com muito orgulho. Assim como seus ofícios de cantar, tocar e ser um band leader exemplar. Nando os encara de maneira responsável e prazeirosa. Capricocarniano, nascido em 12 de janeiro de 1963, José Fernando Gomes dos Reis, filho de professora de violão e de engenheiro, ganhou seu primeiro violão da avó aos sete anos. Hoje, mais rock’n roll que nunca, está em turnê com o disco "Drês" e eu aproveitei pra trocar uma ideia com meu querido parceiro desde minha época de “Luau MTV”.
Aqui ele fala de livros, música, família, Cássia Eller ("Sinto falta dela a toda hora"), Titãs ("Vivemos os três primeiros anos de raiva, a separação não foi legal, nenhuma é. O filme pôs um ponto final em qualquer rusga."). Com vocês, Nando Reis:
S: Drês é seu trabalho mais rock n' roll. Você acha que é o que tem mais sua cara?
Sim. Acho minha cara, a cara da banda. Tem uma coerência total com tudo o que eu fiz desde os Titãs.
S: Muito dessa pegada rock se deve também à parceria com o Carlos Pontual (guitarrista) na produção musical deste disco?
Sempre busquei ter um produtor dentro da banda que interpretasse melhor o nosso som como uma unidade. Uma das minhas maiores preocupações quando eu sai do Titãs era: será que um dia terei uma banda de novo? Nunca me imaginei como um artista solo com músicos contratados, sabe? Ao contrário, sempre quis ter banda e talvez quando você diz que esse é meu trabalho mais rock’n roll tenha a ver com isso, com o fato de termos chegado ao ponto da sonoridade ideal. Sinto que existe uma maior proximidade entre o ao vivo e o estúdio. Com esse novo projeto, estamos com a sonoridade que nós criamos ao longo desses anos tocando juntos. Tanto ao vivo como no estúdio.
S: Você encontrou sua turma?
Total. O penúltimo disco que eu fiz com os Titãs ("As dez mais"), foi produzido em Seattle, fui pra lá com eles e fiquei amigo do Jack Endino. Pedi pra ele produzir o meu CD solo na época [“Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro”, disco gravado em Seattle com a produção de Jack Endino e concluído no Rio de Janeiro com produção de Tom Capone. Com Barrett Martin na bateria e percursão, Alex Veley nos teclados, Fernando Nunes no contra-baixo e Walter Villaça na guitarra, e contando com as participações especiais de Peter Buck (R.E.M.), Cássia Eller e Rogério Flausino, do Jota Quest]. O Jack me apresentou o Alex (que tornou-se o tecladista da banda Os Infernais desde então). Gravei esse CD com ele e com os caras que tocavam na banda da Cássia. Eu trouxe os gringos pra cá. Investi toda grana que eu tinha e, justamente neste momento, a Cássia tava indo muito bem com o álbum "Com você o meu mundo ficaria completo". Então, o Waltinho e o Fê Nunes que tocavam com ela não poderiam me acompanhar nessa turnê do meu disco solo. Foi quando eu conheci e fiquei muito amigo do Carlos Pontual. Passamos a ter uma relação que eu sempre procuro: de afinidade musical e pessoal. Passamos por alguns bateristas, inclusive João Vianna, que acabou seguindo com Djavan (seu pai), até que veio o Diogo pra turnê do MTV ao vivo. Agora já são cinco anos com a mesma formação da banda fazendo mil shows, criando uma mesma linguagem musical. Tanto que eu assino Nando Reis e os Infernais, pois acho que faz muito sentido.
S: Dá pra sacar isso ao vivo...
Sarah tenho muito prazer em ter uma banda que acho muito competente. Gosto da vida da estrada, estou há 27 anos nisso. Gosto da aplicação do trabalho na composição, na gravação e do quanto isso me transforma, me reconfigura e, mais que isso, tenho uma equipe com a qual consegui estabelecer uma relação incrível de trabalho, a gente se respeita. Quando eu saí dos Titãs, não tinha grana pra manter uma banda e trabalhei muito pra consolidar um escritório e uma agenda de shows e gravações. Hoje, tenho essa condição de confiabilidade e competência que me dá prazer.
S: E quando você sente mais falta da Cássia?
Quando? Ah... A toda hora (risos). Mas principalmente quando eu faço músicas e tenho vontade de que ela as cante. De fato, muita gente já gravou minhas músicas, mas a minha relação com a Cássia foi muito peculiar não só musicalmente como afetivamente falando. A Cássia era muito engraçada, por exemplo. Sinto falta disso. Não sou um cara de muitos amigos e mesmo nessas relações profissionais, raros são os casos em que eu consigo essa intersecção profissional e pessoal. Com ela foi bem especial.
S: Por falar nisso, todos que gravam uma música sua, a gente percebe que é sua composição na hora.
Sim, as pessoas comentam isso. Eu acho que é um traço meu de compositor, um estilo melódico, poético que desenvolvi. Isso é bom, né?
S: Acho incrível.
Mas não sei identificar isso direito. [ele responde meio sem jeito]
S: E como é seu processo de composição, Nando?
Faço tudo junto. Em geral, papel, caneta e violão... E sempre sozinho. Cada vez menos estou fazendo músicas em parceria, quero dizer, com a pessoa ao meu lado. Às vezes escrevo e a pessoa musica ou escreve e me manda algo. Nesse disco tem uma música que canto com Ana Cañas -- "Pra você guardei o amor” -- a única que escrevi antes e depois musiquei. É claro que eu reescrevo, que eu trabalho muito na música depois de pronta. Tenho métodos “pessoalíssimos” de me reorganizar na minha música.
S: Você é organizado?
Sou. Tenho um arquivo vasto com minhas coisas. Adoro a rascunhagem. (risos) Não sou um sujeito que tenho a hora certa pra tudo, não sou disciplinado.
S: Não concordo. Te vejo sempre pontual nas entrevistas e nos compromissos, na academia... [Nando faz personal trainer 3 vezes por semana e corre sempre que consegue]. Te sinto disciplinado, mas talvez não metódico. É isso?
Tem uma diferença mesmo no significado dessas duas palavras. No meu esquema de trabalho pessoal e coletivo, não sou obscuro, posso até ser prolixo, mas sei exatamente pra onde vou. Consigo atender a todos meus compromissos. Sem presunção alguma, sou um bom band leader e não coloco isso como um valor, mas como uma característica, sabe?
S: E você gosta desse posto?
Sim, gosto. Eu tenho esse talento, vamos dizer assim, de ouvir as pessoas e reconhecer o que elas têm de bom. E foi algo que eu aprendi muito depois que sai dos Titãs, que sempre teve um sistema democrático hiperfracionado na representatividade da banda. Pensa bem, eram cinco cantores para falar "boa noite", tudo aquilo exigia uma espécie de agilidade pra perceber quando você tinha que dar frente e quando tinha que se recolher, entende? Se eu olhar para trás, desde que sai da banda, eu acho que tomei decisões coerentes e fui me sentido mais seguro com elas. Por exemplo, os dois projetos que acertei com a MTV me trouxeram criticas até, mas foi uma percepção minha de que essas parcerias poderiam consolidar minha carreira, então acho que fui adequado em minhas soluções. É difícil para mim ter que confrontar ou ser autoritário, ainda bem que sei mostrar o meu ponto de vista e estar seguro com ele.
S: Como está sua relação com os Titãs?
Está boa. Claro, na nossa separação, vivemos os três primeiros anos de raiva, a separação não foi legal, nenhuma é. Acabamos falando besteiras uns dos outros, mas isso passou, principalmente depois do filme ["Titãs. A vida até parece uma festa" dirigido por Branco Mello e Oscar Rodrigues Alves]. O filme foi um ponto final em qualquer rusga, pois a história e a relação de amizade, e o que gerou essa amizade musicalmente falando é muito maior do que aquilo que nos separou. Por isso, eu estou ótimo com eles. Claro, nos falamos pouco temos vidas completamente separadas agora, porém sempre que nos encontramos é bom. Fiz questão de ir na estréias do filme, revê-los...
S: Você mora sozinho?
O Téo está morando comigo. Ele tem uma banda, a Zafenate que já até abriu uns shows meus.
S: Você é pai de cinco filhos, está separado, vive na estrada mas é nítido como seus filhos têm intimidade com você...
Eu admiro muito meus filhos, gosto dessa relação pai-filho. Gosto, mesmo de ser pai. Desde que todos nasceram eu já tava nessa vida. Mesmo quando estava casado, sempre tive um tipo de convivência diferente com eles que por outro lado me trouxe chances e oportunidades de ter momentos de prazer ao lado de meus filhos que outros pais com trabalhos mais ortodoxos não têm. Como ficar com eles numa segunda-feira em casa, levar e buscar na escola, pegar um cinema numa tarde durante a semana... Os mais velhos têm viajado comigo mais do que os pequenos hoje em dia. Caem na estrada, às vezes comigo até. Mas não vejo como não ter intimidade com eles. E natural demais nossa relação.
S: Tem o hábito de fazer o que com eles?
Como eu sou separado, embora tenha vivido muitos anos com meus filhos, por exemplo, quem lê para eles é a Vânia mãe de meus quatro filhos. Lia mais para a Sofia e para o Téo [os mais velhos]. Eu lia Monteiro Lobato, mas sabia que eles não achavam muita graça nas relações da Narizinho com a Dona Benta? (risos). Hoje, quando eles estão em casa e vejo que estão focados em algum livro, fico junto e tal. Eu não vejo com tanta frequência o Ismael porque mora em São Leopoldo, no Sul, com a mãe dele, a Nani. A Zoe, que é a mais novinha, está na fase do "Tim Tim", que eu adoro, então a gente lê isso junto. "Tim Tim e a sete bolas de cristal" é nosso "must" do momentos. (risos)
S: O que vocês fazem juntos?
Eu gosto de ir ao cinema com eles, fui ver "Gengiskan" com o Sebastião outro dia... Na real, nem sempre todos conseguem estar em São Paulo pra assistir a um show meu... Sarah, eu gosto mesmo é de ter uma boa refeição ao lado deles. Adoro comer com meus filhos juntos. Ah! e com os meninos que também torcem para o São Paulo vou ao estádio sempre que dá.
S: Por falar nisso, você lançou recentemente pela editora Belas-Letras o "Meu pequeno São-Paulino", da série de livros infantis sobre futebol.
Sim, foi algo encomendado e como amo futebol e até assino uma coluna sobre isso no “Estadão”, adorei escrever.
S: Mas já pensou em escrever algum conto ou livro?
Eu tenho a maior vontade de escrever um livro! Mesmo. Eu tenho algo que eu chamo de meu projeto autobiográfico que tem umas boas 200 páginas adiantadas.
S: Que bacana...
É eu nunca tinha comentado isso (risos) porque eu acho que é algo impublicável... Tenho muita vontade de um dia criar algo no campo da literatura, sim.
S: Você teve algumas músicas em trilhas de novela. O que acha disso?
Acho superimportante, pois a telenovela é o maior veículo de difusão ao lado do rádio. Eu peguei uma sequência boa de três músicas em novelas da Globo: “Espatódea”, que fiz para minha filha Zoe entrou em “Paraíso Tropical”; “Sou dela” foi resgatada para “A Favorita”; e gravei especialmente para “Caminho das Índias” uma versão de “Eu nasci há dez mil anos atrás”, de Raul Seixas e Paulo Coelho.
S: Chegou a acompanhar alguma dessas tramas?
Não muito, mas até gosto de novela. É que minha vida não permite que eu acompanhe com frequência. Me lembro quando estreou "A Favorita", "Sou dela" era a música da personagem de Mariana Ximenes, e foi tão bem editada que acabou tendo um destaque imenso. As pessoas me ligavam para falar que ouviram a música na novela. Foi interessante, pois ela bombou dois anos depois de ter sido lançada. E no show é impressionante, as pessoas cantam. Entrou na novela, reflete na hora.
S: Você tem myspace, orkut, facebok, site? E no twitter, você é você?
No Twitter às vezes eu entro, às vezes é a produção que entra. Eu tenho medo de me viciar como fiquei viciado no meu site uma época, eu blogava, postava foto (risos). Eu preciso até reencontrar um tom e retomar minha participação no site. Mas no twitter quando eu entro, assino pra pesssoas saberem que sou eu e em outros momentos a produção toca. Eu uso a web pra comprar vinil, consulto muito a internet para música.
S: O que você comprou recentemente?
A caixa do Neil Young. Olha, é cara, porque é importada, mas é uma caixa com 8 discos essenciais dele. Recomendo.
Questionário Colherada, por Nando Reis (veja também em vídeo)
O que você come de colher? Brigadeiro
Pra quem daria uma colher de chá? Pros meus fihos
E quem merece uma de sobremesa? Quem toma remédio
Em quem bateria com uma colher de pau? Numa boneca de pano (risos)
Onde mete sua colher? Em qualquer lugar menos na briga alheia
E eu recomendo o show do Nando. O cara tem total domínio de palco. A agenda completa de Nando Reis e os Infernais está no http://nandoreis.terra.com.br/
Últimos comentários
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mauricio - 03/11/2009 às 20:15:25
agora o obrigado vem de mim!
Matéria muito bacana. Parabéns!
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Suzana Carrascosa Storolli - 04/11/2009 às 23:03:59
ADOREI!
Oi Sarinha!!! Adoro seu trabalho, ja gostava desde a MTV... rs Vc sempre foi uma ótima apresentadora, e agora o site esta ótimo também! Mto boa a entrevista com o Nando, suas perguntas foram bem feitas, diferente do tradicional! SUCESSO p/ vc e as colheres!! Te admiro mt! beijos Suh











