a origem de uma história
A criação do roteiro de “Os Famosos e os Duendes da Morte”, filme vencedor do Festival do Rio
Por Ismael Caneppele*
por Mr. Fork - 28 de outubro de 2009
Um dia me perguntaram se o que eu escrevo é pessoal e respondi que sempre é pessoal, mas não necessariamente biográfico. Agora quando você me pergunta quando foi que eu comecei a escrever o livro “Os Famosos e os Duendes da Morte”, eu não posso deixar de dizer que ele começou a ser escrito há quinze anos, quando as angústias que povoam as páginas começaram a surgir em mim.
Escrever nem sempre consiste no ato em si. Escrever é enxergar através da ótica literária a realidade mais próxima de si. Fisicamente falando, o livro começou a ser escrito em 2005 quando, após assistir a um curta-metragem que me deixou absolutamente impactado, eu me retirei em minha cidade natal para escrever alguma coisa que eu ainda não sabia o que seria. A ponte, vizinha de onde cresci, era o lugar onde eu passava as primeiras horas da tarde observando o rio e lembrando de mim mesmo. De vez em quando algum primo ou amigo mais novo estava comigo e eles sempre dividiam suas experiências atuais vivendo na cidade que eu havia deixado. O livro foi uma ponte entre esses dois mundos. Entre eu e eu mesmo, dez anos antes. Entre eu e eles, hoje.
Essa é a primeira vez que eu escrevo um roteiro. Até então, nunca havia nem pensado em trabalhar com cinema. Quando o (cineasta) Esmir [Filho] me chamou para o projeto não era para eu escrever o roteiro com ele. Entrei como colaborador artístico, mas logo no início ficou acertado que o roteiro seria nosso por igual. O filme fala sobre entrega e parecia que todos os presentes no set de filmagem estavam entregando o seu melhor, independente das adversidades enfrentadas.
O roteiro foi escrito a partir de uma imersão minha e do Esmir na região onde se passa a história. Precisava escrever sobre um sentimento muito presente na minha adolescência, o que fez com que eu praticamente voltasse a viver na casa da minha juventude. Acredito que esses momentos de solidão trouxeram à tona as suas inquietações adolescentes e foi assim que nós dois começamos a criar uma obra pessoal, sem ser necessariamente autobiográfica. Esmir é a verdadeira ponte entre livro e filme. O que habita os dois lados com profundidade.
Partimos do esboço de livro muito mais linear no sentido dramático. Eu sempre fiz questão de duvidar daquele primeiro esboço e deixei isso claro para Esmir. Começamos a escrever o roteiro e quanto mais mergulhávamos nele, mais fantástica a história se tornava. Eu sempre podia descer um pouco mais para dentro de mim mesmo o que confere ao texto literário de “Os Famosos e os Duendes da Morte” um exercício de liberdade.
Se teve uma coisa que nasceu com a primeira versão do livro e que nunca se cogitou a possibilidade de alteração, foi a presença de Bob Dylan não apenas na trilha sonora. No livro, Dylan é muito mais do que isso. É um espelho do garoto a ponto de ele se intitular Mr. Tambourine Man. Li muito a biografia do cara e voltei a escutar todas as velharias que ouvia quando era adolescente.
Nunca vou esquecer da primeira vez que eu ouvi falar de Bob Dylan: foi quando decidi viajar de caminhão com um amigo do meu pai e sua esposa. Ele comprava sucata e estávamos parados em algum depósito de lixo esperando o caminhão ser carregado quando a mulher dele perguntou se eu gostava de Bob Dylan. Eu tinha doze, treze anos, e, claro, nunca tinha ouvido falar nele. Mas aquele nome ficou na minha cabeça porque ela disse “se um dia tu quiser comprar um disco bom, compra Bob Dylan”. Eu gostava daquela mulher chamada Lisete que não subestimava a minha idade. Bob Dylan é o caminhão, a estrada, o lixo, a mulher do motorista e, antes de tudo, a lembrança. “Os Famosos e os Duendes da Morte” é um manifesto nostálgico para ser libertário: Bob Dylan?
Agora, pouco a pouco, o livro está se tornando real. Como um sonho que vai se desvanecendo antes de acordar, está tomando forma lentamente, partindo de edições artesanais, numeradas e exclusivas. Como um presente, esse livro é fruto da generosidade de pessoas que resolveram investir nesse projeto. Em São Paulo, será lançado nesta sexta, dia 30, às 22 horas no cinema Frei Caneca Unibanco Arteplex. Assim como na primeira edição feita especialmente para o Festival do Rio, aqui serão apenas 162 exemplares criados para a 33ª Mostra de Cinema de São Paulo.
Eu sinceramente gostaria que as pessoas que viram o filme ou que tenham lido o livro colaborassem com as próximas edições enviando fotos, bilhetes, ingressos… Para que juntos criássemos o corpo desse livro objeto mala de viagem carta de despedida filme de amor.
*Ismael Caneppele, escritor, ator e roteirista, lançou o livro "Música Para Quando as Luzes Se Apagam" pela editora Jaboticaba e "Os Famosos e os Duendes da Morte" pela editora Fina Flor. Ao lado de Esmir Filho, adaptou sua própria obra para o cinema em longa-metragem homônimo que foi o grande vencedor do Festival Rio BR de Cinema 2009. Neste filme, além de roteirista, também atua em um dos papéis centrais. No momento dedica-se à criação de filmes e livros.
Últimos comentários
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frederico - 28/10/2009 às 20:30:57
qdo estreia este filme?
não vou conseguir ir na mostra pois além de ser muito disputado, eu viajo no feriado mas todo site ou caderno de cultura que entro tem alguém ou algo falando deste filme. o nome é estranho então não dá pra esquecer. lendo agora como foi feito o roteiro, fiquei mais curioso. li na veja que o diretor tem apenas 27 anos. que fera! será que estréia mesmo em março? parabéns pelo conteudo diferenciado deste site!
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Nana Soma - 06/11/2009 às 23:01:21
Emoção à flor da pele
Se não fosse, em um primeiro momento, o tweet da colher Adriana Guivo sobre o filme eu jamais teria prestado atenção ao msm qdo na minha seleção de filmes indispensáveis da Mostra. Se o nome me chamou atenção, qdo li esta reportagem sobre o roteiro, fiquei ainda + curiosa em ver o filme e descobrir a sua msg. Sexta-feira passada tive a oportunidade de assistir em primeira mão à sessão. E digo q, com td a minha ctz do mundo, foi um dos melhores filmes a q já assiti até hj! Emoção à flor da pele total! Lindo e sensível! Não contente em ter apenas visto o filme, comprei logo após a sessão, ao livro de Ismael Caneppele e, p/ minha surpresa, o livro me tocou ainda +!!! Já se tornou meu livro de cabeceira! E já assisti ao filme 2x... Enfim, vale mto a pena!!! Amo!









