20 anos da queda do muro

A pintura germânica nas últimas cinco décadas

O recorte exponencia Anselm Kiefer, Gerhard Richter e Neo Rauch

por Adriana Guivo - 9 de novembro de 2009
 As pinceladas alemãs dos últimos 50 anos configuram muito mais que simples objetos de contemplação. Elas refletem a época em que foram pensadas, num percurso que alcança atualmente uma linguagem universalizante. Influenciados em maior ou menor grau pelos dramas sociopolíticos experimentados no século XX, os artistas aqui exponenciados viram consideráveis mudanças históricas em seu país. Dentre elas, a queda do Muro de Berlim e o dissipar da pesada nuvem dos horrores da guerra, que pairou por décadas sobre todos. 

Um dos maiores representantes da pintura moderna na Alemanha nasceu no último ano da Segunda Guerra. Mesmo sem viver diretamente o Holocausto, Anselm Kiefer transpôs para suas telas a fragilidade de uma sociedade em recomposição, física e emocionalmente. Questionamentos filosóficos e temas sacros também são abordados. Embora sua reflexão sobre os danos causados pelo nazismo seja marcante, a memória é o elemento que mais se evidencia em sua obra. É por ela que interpreta o mundo, indo de instantes atemporais a tempos mitológicos que o permitem revalorizar as rompidas tradições do país, sempre com linguagem contemporânea.

Em suas imensas pinturas, se sobressaem paisagens praticamente acromáticas, que ganham nomes tão simbólicos quanto os materiais colados nas superfícies. Toda representação pode ser compreendida de forma particular conforme a bagagem cultural que se tenha. Assim, não é preciso ser alemão, egípcio ou conhecedor da Cabala para compreender o sentido de escritos, areia, folhas secas, cabelo e vestimentas que utiliza.

Na exposição individual que o MAM de São Paulo dedicou a Kiefer em 1997, o destaque era a pintura “Paisagem Árida”. Com quase seis metros de largura e três de altura, à esquerda se via o edifício Copan e todo o centro da terra da garoa. Sem se render ao exotismo tão usual nas representações do Brasil, seu olhar homogeneizou a cidade no que considera um ambiente desértico e pleno de silêncio, tão representativo de sua simbologia quanto a densa Floresta Negra.

FAMA ALCANÇADA EM VIDA


Gerhard Richter, nascido em 1932, é considerado o artista vivo mais caro do mundo. Suas pinturas já alcançaram o valor de 2.7 milhões de libras – algo como R$ 8 milhões – por uma única imagem. O feito se deve ao que os críticos do mundo chamam de reinvenção da pintura, voltada mais a imagem em si do que a fatos históricos e simbólicos. Suas séries se dividem entre figurativas, concebidas com apoio de imagens fotográficas, e abstratas.

Os assuntos são os mais variados. Presos políticos, famílias em veraneio, velas acesas, animais, aviões, imagens televisivas, ressignificados por seus pincéis. Todos os instantes transportados para as telas buscam ser os mais fidedignos às imagens originais, ainda que não realista no acabamento. Ainda assim, a riqueza de detalhes pode justificar o preço que alcançam no mercado da arte.

Suas “Colour Charts” resultam da pesquisa pictórica presente em toda sua obra. Afinal, é de uma racional combinação de cores que nascem suas composições. Os quadrados e retângulos de cores também se relacionam diretamente a linguagem digital dos pixels, fragmentos de imagens computadorizadas. Ao se observar tamanha variedade de trabalhos, não há como evitar a comparação com outro mutante temático da pintura: Pablo Picasso. Até hoje, somente ele trocou tanto de fases sem alterar o veículo de expressão.

DESTAQUE DA CENA ATUAL

Dentre a novíssima arte germânica, se encontra Neo Rauch. Nascido em 1960 no lado oriental do país, configura o time da Nova Escola de Leipzig, criada originalmente em tempos de RDA. Ausente qualquer ideologia em sua temática, o realismo socialista de Rauch se constrói com uma narrativa inquietante. Ao mesmo tempo em que seus personagens pertencem aos anos 2000, elas também remontam a idos passados, saídos de pinturas históricas ou de anúncios publicitários.

Seus corpos se assemelham a figuras de massinha, inexpressivos, mas sempre com um gestual atuante. O ambiente ao qual pertencem tem um artificialismo reforçado pela falta de lógica nas cenas, num espaço compartilhado por acúmulos diversos, inclusive o de afazares.

Em um país com desenvolvimento econômico e cultural tão intenso, Neo Rauch retrata os anseios da geração atual carregada de sentimentos quase tão pesados quanto os de décadas atrás. Talvez seja um espectro das frustrações mal-resolvidas de uma sociedade que quase destruiu a si mesma. Ou fruto dos tempos modernos, que atinge a todos, sem fronteiras.
Últimos comentários
  • CRIS CABANA - 09/11/2009 às 22:12:36

    FINALIDADE LEGAL!

    DERAM AO MURO UM BOM FIM, ELE FOI MOIDO E USADO NA CONSTRUÇÃO CIVIL. VEJO ISSO COMO ARTE, O SER HUMANO É TÃO ARTEIRO.........

  • - 30/03/2010 às 01:41:24

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