road movie
"Hotel Atlântico", de Suzana Amaral, causa estranhamento com protagonista complexo
Narrativa de difícil digestão estreia nesta sexta-feira (13) em circuito nacional
por Thais Kuzman - 13 de novembro de 2009
Não vá ao cinema para assistir a “Hotel Atlântico”, que estreia nesta sexta-feira (13), pensando que o filme é um daqueles road movies (gênero que trata de "filmes de estrada", em tradução livre do inglês) certinhos, no qual o protagonista muda – e se torna uma pessoa melhor – ao longo de sua jornada. O mais recente trabalho da diretora Suzana Amaral (“A Hora da Estrela”), baseado no livro homônimo de João Gilberto Noll, não tem nada de comum, como o protagonista Julio Andrade (“Cão sem Dono”) e a atriz Mariana Ximenes afirmaram em conversa com o Colherada (leia aqui).No longa, ele vive um homem sobre o qual o espectador não tem quase nenhuma informação, condição que permanece inalterada no decorrer da trama. Sabemos apenas que é um ator que teve relativo sucesso na TV, mas agora está desempregado e passa a viajar meio sem rumo pelo sul do Brasil. Chamado apenas de Artista por aqueles que cruzam seu caminho, começa a peregrinação após ver o corpo de uma pessoa assassinada ser recolhido do hotel que dá nome ao filme e no qual está hospedado.
No quarto, o quase sempre silencioso personagem, tem uma das poucas explosões de sentimentos da história. Sua angústia aparece pela inquietude e opressão que o aposento passa e, mais expressamente, pela briga que tem com o espelho. Depois de cogitar alternativas para a viagem, que considera inevitável, olha seu reflexo e grita: “Você é um desocupado, é isso o que você é”. A raiva, seguida pela dúvida, indica que para o Artista é muito mais importante se manter em movimento do que chegar a algum lugar, pois ao entrar na rodoviária de São Paulo diz que vai embarcar para Minas Gerais, admira um cartaz de Curitiba, mas compra um bilhete para Florianópolis.A partir deste ponto, a trama de “Hotel Atlântico” ganha o ritmo das pessoas que interagem com ele em seu intrigante percurso. Apesar dos episódios que se seguem terem em comum apenas o personagem principal, a unidade do longa se dá pela melancolia das personas apresentadas e pela constante presença do sexo, da morte e da doença. Suicídio, ameaça de assassinato e até mutilação estão no caminho do Artista, que mais parece reagir aos estímulos do meio do que agir por alguma motivação própria. “Eu não pergunto nada não, seu Antonio, eu só escuto”, diz ele em um momento que dá o tom de sua personalidade.
Apesar do personagem perigoso, Julio Andrade convence com sua atuação seca e olhar desesperançado. A ótima interpretação do ator é coroada pela galeria de coadjuvantes formada por Gero Camilo, o sereno sacristão Antonio, Mariana Ximenes, a adolescente deslumbrada Diana, e João Miguel, o emocionante e devotado enfermeiro Sebastião. O último se torna amigo do Artista, mas ao contrário dele tem um objetivo bem claro, que é ver o mar. Suzana Amaral, de 75 anos, ousa ao adaptar a complexa obra de João Gilberto Noll, escrita em 1989, e que apresenta um protagonista com o qual não é fácil se identificar, torcer ou se emocionar. O Artista não “é”, ele apenas “está”, algo bem diferente das narrativas clássicas do cinema, o que causa estranhamento e faz pensar.
Veja o trailer:
Últimos comentários
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Lu - 13/11/2009 às 15:38:41
Julio Andrade
Pelas palavras de Gilberto Noll, Julio Andrade é "o animal cinematográfico do momento". O filme vale muito não só pela magistral interpretação do ator, como a direção primorosa de Suzana Amaral.
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