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Agriturismo: uma viagem gastronômica pela Itália rural
Por Léo Teixeira*
por Mr. Fork - 26 de novembro de 2009
A Itália parece ter sido forjada para abrigar o agriturismo. Ali ele surgiu nos anos 80 como forma de recuperar propriedades rurais abandonadas. Afinal, os italianos nunca traíram seu gosto ancestral pelos modos de vida rural. Não conheço outro país no qual se encontram videiras plantadas até nas rotatórias das estradas! O agriturismo parece correr a favor dos tempos, pois se encaixa perfeitamente na moderna tendência da alimentação orgânica, gera empregos, preserva a cultura e a tradição.
Uma das mais agradáveis formas de visitar a Itália é através do turismo rural. Cada região tem sua personalidade, sua estrutura e, no geral, o foco está voltado para a produção de azeites, vinhos, queijos, embutidos e doces.
Nesse sentido, Le Marche é uma das regiões italianas que oferece interessantes roteiros. Situada na Itália central, à leste é banhada pelo mar Adriático e à oeste exibe a belíssima cordilheira dos Apeninos. Nessa região situa-se a província de Macerata, a aproximadamente 300km de Roma, reconhecida como importante testemunho do Renascimento italiano e sede de uma das mais antigas universidades do mundo, a Universidade de Macerata, fundada em 1290.
No período que residi na Itália, para uma especialização em gastronomia italiana, tive a oportunidade de trabalhar na Sardenha, no Piemonte e Le Marche. Foi lá que tive um contato próximo com o agriturismo. A propriedade denominada Le Case situa-se nos campos de Macerata, tem 21 hectares e possui um hotel, um restaurante, uma enoteca e uma “casa de recordações”, destinada à venda de antiguidades.

A proposta do Le Case é muito interessante. Na corrida rotina diária, logo pela manhã, antes mesmo do café e depois do galo cantar, nós da equipe da cozinha íamos ao campo em busca de ervas aromáticas, flores comestíveis e legumes. Realmente vivi uma experiência única ao fazer parte do processo que vai desde a colheita até a finalização do prato ao comensal. No período da tarde, funcionários da fazenda dedicavam-se ao abate de animais como javali, vitelo, pato, pomba e coelho. Ali tudo é “biológico”, o que corresponde no Brasil ao “orgânico”.
O restaurante funciona tanto para o almoço como para o jantar e oferece uma comida bastante rústica, saborosa e bem diversificada. A Porchetta e a oliva all’ascolana, originárias da região, fazem parte do cardápio; a primeira consiste em um leitão esvaziado e desossado, recheado com ramos da erva doce selvagem e condimentado com pimenta do reino e sal. A segunda é um dos mais famosos antepastos marchigiani, feito com azeitonas grandes e suculentas recheadas, empanadas e fritas.

A Enoteca, que tem uma estrela no Guia Michelin, foca na criatividade do menu degustação de criação do chef Michele Biagiola, com um estilo muito pessoal. A primeira entrada oferecida é o L'orto nel piatto e a sugestão para acompanhar é de um vinho da uva branca Verdicchio, considerada uma das mais importantes variedades da região. A entrada é composta por um creme de abobrinha que representa a terra, sobre o qual repousa o que a fazenda produz naquele momento, em diversas texturas, como um cubinho de gelatina de tomate cereja e uma fina fatia de abobrinha grelhada. E é servida especialmente pelo próprio chef Biagiola, como um “bem-vindo à nossa terra”. Nessa operação fica clara a importância que tem o agriturismo sobre as ameaças à biodiversidade através da proteção e preservação das produções que constituem a identidade cultural dos territórios agrícolas.
O grande responsável pelo movimento em prol da preservação da biodiversidade é o “slow food”, nascido na cidadezinha de Bra, no Piemonte (norte da Itália), em 1986, cujo conceito visa valorizar o sabor original do alimento, o cultivo no tempo por meio natural, a terra e produtor local. Empreendimentos como o Le Case são cada vez mais necessários nos dias de hoje, pois mantêm fortes elementos de valorização de todos os potenciais ambientais, culturais e gastronômicos existentes no território contribuindo, também, para a revitalização social e promovendo o encontro entre a cultura agrícola e urbana.
* Léo Texeira é consultor na área de gestão empresarial para Bares e Restaurantes e professor de Administração Aplicada a Gastronomia, Custos e Controles e Gestão Empreendedora na Universidade Anhembi Morumbi.
Últimos comentários
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Henrique Marchina - 03/12/2009 às 21:01:28
VIVA O AGRITURISMO
Ótimo artigo e provavelmente uma ótima experiência. Pena o Brasil ainda estar engatinhando em relação a isso e nossos ôrganicos ainda estarem bastante inflacionados. Parabéns
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