Nada mais difícil e fácil do que falar de Claude Lévi-Strauss...

Um mês depois da morte de Claude Lévi-Strauss, o antropólogo que revolucionou o século 20

Por Paulo Pedro e Mônica da Costa *

por Mr. Fork - 3 de dezembro de 2009
 
Lévi Strauss em sala de aulaNada mais difícil e fácil do que falar de Claude Lévi-Strauss (1908-2009), advogado, filósofo, professor, um dos fundadores da Universidade de São Paulo, onde o também etnólogo e antropólogo lecionou sociologia, de 1935 a1939. O cientista é mais reconhecido como antropólogo, criador de um método específico de análise de mitos a partir das características linguísticas e das relações com a estrutura da organização social dos seus narradores.
 
Suas reflexões sobre a história, etnologia e civilização reafirmaram a força do relativismo cultural, que acaba com falsas suposições de superioridade do mundo ocidental. O pensamento de Lévi-Strauss abalou crenças que fundamentam o racismo, cujo combate ele considerava como função do antropólogo.
 
Nesse breve texto queremos colocar questões que consideramos relevantes à compreensão da obra de Lévi-Strauss e destacar resultados práticos que nos proporcionou na relação com os ainda chamados “povos primitivos”, termo consagrado, que ele criticava, propondo-nos uma substituição por “povos felizes”. A persistência dos termos povos primitivos e selvagens possui razões colonialistas típicas do capitalismo, duras de transformação.
 
A cultura ocidental incorpora, infelizmente, em ritmo lento, algumas de suas principais heranças: as proposições sobre a natureza dos mitos, cujas implicações éticas, de respeito à natureza, nossa cultura despreza, limitando-se à mera utilização com resultados imediatos de seus conceitos, como se observa nas práticas da etnozoologia, da etnomedicina e da etnobotânica. Entretanto, as interpretações estruturalistas propõem novos métodos de compreensão e interpretação da natureza, a partir do entendimento do raciocínio mítico, talvez só exeqüíveis no mundo dos povos da floresta ou onde seja estabelecida uma visão de mundo não utilitarista, de plantas e animais.
 
Para Lévi-Strauss, o mito, como forma de inquirir o mundo, não difere da ciência pelo gênero de operações mentais (relações de determinação ou classificação), mas, sim, pelas relações que estabelecem com a “percepção” (mais desenvolvida no pensamento científico) e “a intuição sensível” (mais desenvolvida no mito - de certo modo semelhante à arte (bricolage). Ciência e mito representam estratégias distintas do conhecimento humano (Lévi-Strauss. O pensamento selvagem, 1976).
 
Aproximar-se de formas de pensamento estranhas à nossa é um dos méritos da antropologia, como constatou o próprio Lévi-Strauss ao identificar entre os povos ditos selvagens a lógica do raciocínio mítico como forma distinta do pensamento científico, sendo um modo alternativo de produção de conhecimento, ambos igualmente eficientes para organizar as relações dos homens entre si, com o seu meio ambiente, cada um a seu modo, com ganhos e perdas em distintos aspectos. Observe-se, porém, que, conforme o conhecimento mítico, as noções ou aplicações do conhecimento não estão isoladas em compartimentos estanques, como ciência, arte, política, religião etc.
 
As características do mito, tal como escreveu o autor desse método, é que, a “esse jogo de espelhos e reflexos que se remetem mutuamente, nunca corresponde um objeto real, para ser mais exato, o objeto tira sua substância das propriedades invariantes que o pensamento mítico consegue extrair, quando coloca em paralelo uma pluralidade de enunciados” (Lévi-Strauss, 1986).



*Paulo Pedro P. R. Costa, psicólogo, prof. de Psicologia Social da FAMEC – Faculdade Metropolitana de Camaçari, coautor de Os Segredos do Macaco, com Mônica Rodrigues da Costa (Ed. Maltese / Revista Neo-Interativa, SP, 1996, CD-ROM com coletânea de lendas sobre esse animal, inspirada na concepção de zoemas de Lévi-Strauss)

 
Livros consultados:
 Lévi-Strauss, C. O pensamento selvagem. São Paulo: Companhia Ed Nacional, 1976.
___. “Religiões Comparadas dos Povos Sem Escrita”, in: Antropologia estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976.  
___. “A Natureza do Pensamento Mítico”, in: A oleira ciumenta. São Paulo: Brasiliense, 1986.
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