confissão
Relato emocionante em primeira pessoa em “O Ano do Pensamento Mágico”
Peça está na segunda temporada em São Paulo no Teatro Sérgio Cardoso
por Estela Cotes - 1 de dezembro de 2009
Cada um tem uma maneira diferente de enfrentar a perda de alguém muito querido. A escritora norte-americana Joan Didion passou por dois momentos trágicos: perdeu o marido, John Gregory Dunne, subitamente vítima de um problema coronário. Juntos o casal foi responsáveis por filmes como “Íntimo e Pessoal”, “Os Viciados” e “Nasce uma Estrela”.Um ano depois sua única filha, Quintana (que já havia ficado 20 em coma na época da morte do pai), também veio a falecer por complicações neurológicas. Não, a história não é o enredo da próxima novela de Manoel Carlos. Todo esse sofrimento fez realmente parte da vida de Joan a partir de 2003.
Mas ao invés de recolher-se por depressão, a colunista que já passou por Vogue e pelo The New York Times, decidiu narrar suas aflições no livro “O Ano do Pensamento Mágico”. A morte de Quintana fez com que Joan levasse o texto homônimo para o teatro.
PSICOLOGIA NO PALCO
A montagem está neste momento espalhada pelo mundo, em cartaz em Nova York, Inglaterra, Austrália e Áustria. Na capital paulista, “O Ano do Pensamento Mágico” está na sua segunda temporada, no Teatro Sérgio Cardoso.A atriz Imara Reis interpreta seu primeiro monólogo em 35 anos de carreira. Como você já pode notar pelo enredo acima, o texto é comovente. A ideia no entanto não é tratar do tema morte, dos imprevistos da vida de maneira piegas ou com conotação de auto-ajuda.
Joan aqui, por meio de uma ótima interpretação de Imara, é muito mais do que uma narradora da própria tragédia. É uma mulher com características psicológicas muito próximas da realidade que gostaria de estar constantemente no comando. Daquelas que vivem a angústia e a ansiedade de sempre tentar intervir nas situações. A mãe superprotetora, a profissional perfeccionista...
Os “pensamentos mágicos” começam quando John morre. A partir de então ela percorre um caminho interno baseado nas hipóteses do “se”. “Se eu cuidar de Quintana, John continuará vivo”. Ela cria situações que poderiam trazê-lo de volta, como se isso estivesse a seu alcance.
Intercalando flashbacks do dia a dia da família feliz, situações cotidianas, à descrição detalhada de como o marido faleceu (ela chega a fazer uma investigação no hospital para cronometrar o passo a passo daquela noite), Joan Didion tem na sua escrita as características do jornalismo literário.
O cenário indicando um ambiente externo e o texto confessional, em primeira pessoa, deixam claro que a intenção da autora é dividir sua experiência e tentar, de alguma maneira, entender o que se passa naquele momento dentro de si. É um processo de purificação, uma catarse impressa nos livros e exposta no palco.
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