sensações
Gastronomia e cinema: panelas em 24 quadros
Por Adipe Neto*
por Mr. Fork - 16 de dezembro de 2009
O cinema e a gastronomia sempre estiveram ligados, um fazendo propaganda do outro e flertando com a incrível possibilidade de criar uma experiência, seja pela magia da edição de imagens e sons, seja pelo formato, consistência e sabor atribuídos a um alimento.Sempre fui fascinado pela imagem, gostava de fazer teatrinhos, enfeitar a porta do quarto com temas sazonais, inventar histórias e criar um mundo paralelo. De cara me apaixonei pelo meio de cinema e televisão. Comecei a cursar publicidade e acabei me formando em cinema. Durante quase dez anos produzi curtas, programas e comerciais para televisão. E o que sempre me envolveu nessa área foi a arte de me relacionar com as pessoas. Desde muito pequeno me dei conta de que gostava de organizar, planejar e lidar com pessoas. E aos poucos fui migrando para esse lado.
No cinema a grande magia é a arte de dividir um pensamento, ou contar uma história, e isso me atraía muito. A possibilidade de interação com o outro de uma forma a trazer transformação de mente ou alma, ou apenas uma experiência diferente de uma rotina moderna. A chance de comunicar e se relacionar em grande escala é uma linguagem que só a imagem consegue alcançar.
O cinema sempre teve a surpresa da sala escura, em que tudo parece possível e há um pouco dessa sensação de experimento que acredito haver na gastronomia.
A comida era outra coisa que me fascinava! Por influência familiar esses hábitos foram quase naturalmente integrados a minha personalidade. Com ascendência libanesa, não eram raros os dias em que chegava à casa das minhas tias e ganhava kibes e esfihas feitos na hora.
Os libaneses, quando vieram fugidos da guerra para o Brasil, se refugiaram no interior de São Paulo, e, por sermos estrangeiros, todo libanês era parte da família e tratado como tal. Minhas tias nunca foram de sangue e fui descobrir isso muitos anos depois, quando os laços familiares já eram mais fortes. Chegar à cozinha delas tinha um gosto especial. Era de fato um universo à parte, com temperos, ervas, trigos, carne moída na hora, um espetáculo culinário de aromas, cores e gula. O hábito de se reunir à mesa era um ritual social em que se ficava sabendo da vida dos outros, decisões familiares eram tomadas e as crianças iam absorvendo essa tradição.Do lado da minha mãe, a ascendência portuguesa e italiana me deu vó, mãe e tias boleiras e doceiras. Era fascinado por vê-las fazerem tortas e bolos com andares, cores e formas de glacê. E tudo isso acontecia nas minhas férias de verão, que passava em Salvador, onde há mais de 30 anos mora a família da minha mãe. Meus tios e tias soteropolitanos agregados à família ainda ensinaram a boa culinária baiana.
Durante o tempo em que me dediquei ao cinema continuei a cozinhar, estudar gastronomia e promover jantares em casa para amigos. Mas em nenhum momento percebi que esse lado pudesse ganhar força. Foi num desses jantares que percebi o quanto as pessoas, além de comer, gostam de saber como se faz cada prato, e aí surgiu a idéia de ensinar. Compartilhar um conhecimento e tornar alguém apto a qualquer tarefa é de fato gratificante.
Creio eu que a experiência gastronômica é tão impactante quanto a cinematográfica. E chamo de experiência, pois acredito que comer passa pelo processo visual, olfativo e gustativo, e com esses referenciais, é possível criar uma atmosfera onde oferece-se uma experiência e não apenas uma refeição.
Continuo amante fervoroso do cinema e estudante da arte de produzir e gerir para cinema e televisão. Há pouco tempo troquei as planilhas e celulares pelas panelas e comecei a dar aulas de culinária em casa. Abri minha cozinha e chamei os amigos para aprender. Aos poucos a ideia foi tomando forma e ganhando essa cara de aula, em que os alunos podem ver, fazer, comer e conhecer pessoas diferentes.O importante no processo de aprender é fazer, testar. A culinária é arte pois não é exata, não é metódica. Apesar de todas as técnicas, cozinhar, assim como comer, também pode ser um novo prazer a cada encostada de barriga no fogão. Há quem se deleite apenas em ler receitas ou ver programas de televisão, mas cozinhar passa pelo mesmo processo que produzir, existe a necessidade da repetição para que aprimoremos o talento e a técnica. Todos são aptos a aprender.
Acredito que todo chef no fundo não passa de um amante da comida e da boa gastronomia. Conhecer os alimentos, temperos e técnicas pode ser um processo de aprendizagem para a culinária, mas a experiência gastronômica vem da entrega às sensações, sejam elas visuais, olfativas, gustativas ou até sentimentais, assim como no cinema.
* Adipe Neto é produtor cinematográfico, chef do DeliDeli, dá aulas e promove a festa “Neverland” no Clube Glória.
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Últimos comentários
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Bruno Macario - 16/12/2009 às 16:25:16
Show de Bola
Impossível ir pra casa do Adipe e não praticar a gula!
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Janaina - 16/12/2009 às 14:11:55
Delícias
Apesar de ainda não ter tido nenhuma aula com o Adipe, sou da época em que estudávamos na faculdade e ele trazia delícias pra gente experimentar. Não tem como esquecer o brownie que esse inigualável produtor de cine/ mestre cuca faz!!!
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