entre quatro paredes

Andrea Fraser e sua artística performance sexual

Como expôr a própria intimidade adentrou espaços museológicos

por Adriana Guivo - 18 de janeiro de 2010
Andrea Fraser em frame da obra "Untitled" (2003)A crítica embutida no trabalho “Untitled” [sem título] da norte-americana Andrea Fraser é bastante clara: o quanto um artista pode se prostituir em nome da arte. Literalmente, diga-se de passagem. Realizado em 2003, mostra a artista e o colecionador que pagou a melhor quantia para ter uma hora de sexo com ela. O valor oferecido foi de 20 mil dólares e o vídeo resultante é exposto como obra museológica, como ocorreu até ontem (17) na mostra “Pop Life: Art in a Material World”, na renomada galeria londrina Tate Modern.

Totalmente silencioso, foi gravado de uma câmera fixa no alto de um quarto de um hotel, dando vista para uma cama de casal. Fraser e o desconhecido John – o pagante – adentram o ambiente e após uma conversa e uma troca de beijos, iniciam-se os finalmente comuns entre dois tórridos amantes. Pelas descrições da obra encontrada na internet, o que os dois realizam é decorrente de uma polêmica intimidade, talvez para chocar ou para romper novas fronteiras artísticas, se ainda for possível tal feito.

O CORPO COMO SUPORTE RESTRITO DA ARTE

Desde que um urinol foi alçado ao ambiente museológico, tornou-se uma árdua tarefa definir o campo do fazer artístico. Ao longo dos últimos cinquenta anos, o leque das opções foram ampliadas com atitudes complexas, provocativas e inusitadas. Utilizando gestos ordinários em suas composições, alguns artistas tomaram como ponto de partida a própria subjetividade diante de questões corriqueiras, fossem elas de cunho pessoal ou sociopolítico. Investir no terreno da intimidade e torná-la pública, ou arriscar conscientemente a própria vida para executar uma obra, ainda que pareçam atitudes extremas, foram banalizadas com a então nova arte.

Orlan durante uma das muitas cirurgias a que se submeteu para alterar seu rostoAs condições libertárias e expansivas semeadas desde o início do século XX atingiram seu ápice, no Brasil e no mundo, nos idos de 1960 e 1970, período contracultural repleto de revoluções, movimentos hippies, protestos contra as guerras, o amor-livre propiciado pela pílula anticoncepcional e viagens mentais à base de ácido lisérgico. Em meio ao turbilhão de transformações sociais, a busca por uma identidade individual se tornou uma necessidade também no cenário artístico.

Para isso, era preciso vivenciar o máximo de sensações e fazer com que a distância entre o criador e a Arte se tornasse imperceptível. O uso do corpo – mais especificamente o corpo do artista – foi o meio mais eficiente para criar tal unidade. Explorado por estar ao alcance da mão a qualquer momento e por conta de sua flexibilidade sensorial para sentir dor, desejo, fadiga e liberar secreções, relativizou pudores e valores sociais, além de suscitar a efemeridade da vida e a iminência da morte em autorretratos comumente intensos.

Talvez a mais inquietante das iniciativas tenha sido vivenciada pela francesa Orlan, ao desconstruir – ou reconstruir – sua aparência com próteses enxertadas através de cirurgias plásticas , visando se assemelhar satiricamente a clássicas personagens da História da Arte, como a Gioconda de Leonardo Da Vinci. Vale reler o que já foi escrito aqui sobre os trabalhos de Marina Abramovic, Sophie Calle e Pipilotti Rist, artistas que se expuseram como um livro aberto, sendo tão objetos quanto outrora eram um bloco de mármore ou uma tela vazia.

UM CAMPO AINDA ELÁSTICO

Em tempos de reality-show, sex cam e um erotismo na potência máxima, é muito possível que a arte absorva a capacidade de ser realizada e ser vista através de performances sexuais, como Andrea Fraser investiga com sua produção. Uma elasticidade imprevista até mesmo pelo profeta dos 15 minutos de fama, Andy Warhol, mas que talvez nos deixe entrever como arte, cultura e economia, mediados por museus, colecionadores e os próprios artistas, dão valor e significado ao que ainda entendemos como sendo um objeto artístico.

Fato é que as rupturas instauradas pela Arte Moderna até hoje se expandem em ilimitadas possibilidades de representações. É de se perguntar, portanto, se há como estabelecer um limite, seja ele ético ou moral, para se expressar e produzir uma peça em nome de um ideal artístico.
Últimos comentários

Nenhum comentário para exibir, seja o primeiro a escrever um!

Faça o seu comentário

Top 5 as mais clicadas

Vídeo

Publicidade
Colherada no Twitter
Ressaltamos que nenhum estabelecimento foi incluido neste guia por ter feito publicidade em qualquer publicação nossa e que nenhum tipo de pagamento influenciou as resenhas. As opiniôes publicadas neste site são dos escritores do Colherada Cultural e são totalmente independentes