sangue de ET tem poder
A cantora Lulina fala sobre suas inusitadas canções em papo exclusivo com o Colherada
por Malu Porto - 21 de janeiro de 2010
"O poeta é um fingidor. Finge tão completamente, que chega a fingir que é dor, a dor que deveras sente". A célebre frase de Fernando Pessoa poderia muito bem descrever o trabalho da cantora e compositora Lulina -- essa recifense de 31 anos, que aportou em São Paulo há oito e nunca mais saiu. "Vim para passar uma semana de férias, mas consegui um estágio numa agência de propaganda e acabei ficando na cidade". Conciliando sua profissão de publicitária com a música, Luciana Lins carrega no humor nonsense para tirar um sarro das agruras da vida, tal como transformar um azedo limão em uma caipirinha bem docinha. As canções espalhadas pelos seus nove álbuns (sim, nove, você leu certo) são recheadas de pérolas como "o ano acabou, mas eu não acabei. Quem sabe na contagem regressiva, eu exploda também" e "miojo, me ajude a digerir todos os meus desgostos. No final tudo sai no xixi, no final tudo sai por aí", e lembram bastante a maneira piadista de Raul Seixas e Novos Baianos de fazer criticas sociais e cotidianas com uma pegada "viajandona".
Confira, abaixo, uma entrevista exclusiva com a cantora/ compositora/ publicitária Lulina:
Colherada Cultural: Como é sua relação com São Paulo? Como os paulistanos reagem à canção "Balada do Paulista"?
Lulina: Eu adoro São Paulo. Desde a primeira vez que pisei na cidade, soube que aqui seria a minha casa, pelo menos por um tempo. A “Balada do Paulista” eu fiz junto com uma grande amiga paulistana, que me ajudou a listar e “traduzir” essas gírias e comportamentos típicos do paulistano na balada. Eu demorei a tocá-la em shows justamente por não ter ideia da reação, mas para minha surpresa o pessoal de São Paulo adorou (e encarou muito mais como uma crônica e uma homenagem do que como alguma gozação).
Lulina: Eu adoro São Paulo. Desde a primeira vez que pisei na cidade, soube que aqui seria a minha casa, pelo menos por um tempo. A “Balada do Paulista” eu fiz junto com uma grande amiga paulistana, que me ajudou a listar e “traduzir” essas gírias e comportamentos típicos do paulistano na balada. Eu demorei a tocá-la em shows justamente por não ter ideia da reação, mas para minha surpresa o pessoal de São Paulo adorou (e encarou muito mais como uma crônica e uma homenagem do que como alguma gozação).
C: Você esperava despertar tanto interesse da mídia em relação ao seu trabalho?
L: Não, nunca esperei despertar tanto interesse, até porque o "Cristalina" (seu nono albúm) foi um lançamento independente, por uma gravadora independente (Yb), sem objetivos e investimentos maiores. Fizemos o show de lançamento e três dias depois estávamos na capa da Ilustrada (pense no susto que eu levei!). Daí em diante, foi só alegria, com uma boa crítica atrás da outra. Acho que o disco ganhou força não só pelas boas reportagens que saíram, mas principalmente por causa da internet (downloads, blogs, etc...).
L: Não, nunca esperei despertar tanto interesse, até porque o "Cristalina" (seu nono albúm) foi um lançamento independente, por uma gravadora independente (Yb), sem objetivos e investimentos maiores. Fizemos o show de lançamento e três dias depois estávamos na capa da Ilustrada (pense no susto que eu levei!). Daí em diante, foi só alegria, com uma boa crítica atrás da outra. Acho que o disco ganhou força não só pelas boas reportagens que saíram, mas principalmente por causa da internet (downloads, blogs, etc...).
C: A marca das suas canções é definitivamente o humor. No Brasil, tivemos o Mamonas Assassinas como o exemplo máximo de combinar música e humor. Alguma influência deles ou de outros brasileiros como Tom Zé, Falcão ou Mutantes? L: Acho que o humor é o resultado natural quando se faz um trabalho sem maiores ambições. O Mutantes era assim e nesse ponto eu até me identifico com eles. Algumas músicas que você escuta deles dá para imaginar claramente que eles estavam ali só se divertindo e tomando todas. Mas nunca compus uma música com o intuito de ser engraçada (isso é coisa para banda de humoristas, como eram os Mamonas Assassinas ou o Falcão).
“Jerry Lewis”, por exemplo, é uma canção que o pessoal morre de rir. Eu acho uma música extremamente triste. Fiz numa época que eu andava muito doente e a história de Jerry Lewis era como um exemplo para mim de que existia vida após as desgraças. “Sangue de ET”, que também parece uma canção engraçada, eu compus poucos meses depois do falecimento da minha avó, num momento em que minha vida estava tão triste que fui buscar salvação até numa bebida mágica extraterrestre. No meu caso, quando existe bom humor, ele está quase sempre atrelado a sentimentos bem mais complicados, mas que eu disfarço com ironias e gracinhas.
L: Minha banda atual é formada por Leo Monstro, André Édipo e Missionário José, amigos que conheci em Recife, e Pedro Falcão -- único paulistano da turma e o mais recente na banda --, um queridão que conheci só no ano passado. Como metade da banda vive entre Recife e São Paulo, às vezes preciso chamar substitutos, como é o caso desse show do SESC Vila Mariana. Vamos ter, no lugar de André e Missionário José Habacuque Lima e Bruno Serroni, dois amigos que eu admiro bastante e que sempre contribuem muito com os arranjos.
C: Você escreve primeiro as letras e depois elabora a melodia? Como é o seu processo musical?
L: Às vezes, componho tudo junto, letra e melodia. Às vezes, escrevo uma letra e deixo lá, até um dia em que olho para ela e começo a cantarolar. E às vezes, acontece ao contrário: gravo milhões de "lalalás" e "papapás" e fico à espera de que alguma letra brote das harmonias. Não existe um método, é tudo muito intuitivo. Posso passar um mês inteiro sem compor nada e posso compor um disco inteiro em uma madrugada. Só sei que dias de ressaca são muito inspiradores, sempre. E dias de chuva também, sempre tenho ideias de letras quando estou andando por aí de guarda-chuva (o difícil mesmo é anotar, no meio da chuva).
C: Suas letras têm uma abordagem bem irônica, falam desde relacionamentos, escatologias, sexo, e desconstroem clichês como ser feliz no reveillon ("Bosta Nova") e o príncipe que lava banheiros ("Meu Príncipe"). Como as pessoas reagem a essa carga de sarcasmo?
L: Eu acho que boa parte das pessoas entende a ironia e o sarcasmo. Só não sei se isso agrada à maioria. Mas esse é o meu jeito de expressar boa parte dos meus sentimentos, sou assim fora da música também. É uma forma de transformar um sentimento de quase indignação em algo bom, como uma piada (mesmo que sem graça). Com ironia e sarcarmo, a gente pode assumir que as merdas existem, sem perder tempo reclamando delas.
C: O que você acha da cena musical brasileira atual, especialmente, do rock nacional?
L: Eu acho maravilhosa a cena musical brasileira atual. Pena que boa parte dos artistas mais criativos dessa geração não têm tanto espaço na mídia como mereciam. Cidadão Instigado, Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Jeneci, Bruno Morais, Junio Barreto, Lucas Santanna, Nina Becker, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda, Stela Campos, Isaar, Orquestra Contemporânea de Olinda… Se eu for falar de todos, a entrevista não acaba nunca, pois vem um nome atrás do outro na cabeça, de tão incrível que tem sido a cena musical nacional de uns anos para cá. O ano de 2009 foi de grandes lançamentos e torço para que em 2010 exista cada vez mais espaço para toda essa galera.
C: Por fim, gostaria que você falasse um pouco sobre o que você gosta de ler, assistir no cinema, na TV ou mesmo ouvir em casa.L: Eu acho maravilhosa a cena musical brasileira atual. Pena que boa parte dos artistas mais criativos dessa geração não têm tanto espaço na mídia como mereciam. Cidadão Instigado, Romulo Fróes, Tulipa Ruiz, Jeneci, Bruno Morais, Junio Barreto, Lucas Santanna, Nina Becker, Tatá Aeroplano, Dudu Tsuda, Stela Campos, Isaar, Orquestra Contemporânea de Olinda… Se eu for falar de todos, a entrevista não acaba nunca, pois vem um nome atrás do outro na cabeça, de tão incrível que tem sido a cena musical nacional de uns anos para cá. O ano de 2009 foi de grandes lançamentos e torço para que em 2010 exista cada vez mais espaço para toda essa galera.
L: Gosto bastante de ler, de literatura russa a livros sobre astronomia e física, de filosofia e poesia a quadrinhos. Entre meus autores preferidos, Dostoiévski ocupa a primeira posição. No cinema, curto Truffaut, Kiarostami, Kieslowski, Hitchcock. Na música, minha banda preferida é Velvet Underground e meu compositor brasileiro preferido é Tom Zé. Para mim, ele é o maior compositor do país. Mas, infelizmente, nunca foi influência para minhas composições, pois só fui conhecer realmente o trabalho dele quando eu já tinha gravado bem uns cinco discos. TV eu quase não vejo. Raramente, assisto um trecho da novelinha do momento, para desligar o juízo antes de dormir, ou “Arquivos Extraterrestres” e “Caçadores de OVNIs”, do History Channel.
Últimos comentários
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Edson - 11/02/2010 às 17:08:10
lulina
O melhor cd de 2009 com certeza , todas as musicas são legais , a capa do cd tudo é muito bem feito !!!
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