teatro e performance
“O Disfarce do Ovo” reflete sobre dois textos de Clarice Lispector
Espetáculo é apresentado aos domingos no Sesc Pompeia, em SP
por Estela Cotes - 22 de janeiro de 2010
O universo de Clarice Lispector encanta. No final do ano passado, a importância de sua obra foi retomada com o lançamento da biografia “Clarice”, de Benjamin Moser (Cosac Naify). Agora, mais uma peça pretende aproximar e refletir sobre a produção da ucraniana. A partir da construção formal, da teoria, da filosofia e das metáforas criadas pela escritora, o Coletivo Teatro Dodecafônico decidiu criar uma “resposta” aos textos “Legião Estrangeira” e “O Ovo e a Galinha”. Nasceu, então, “O Disfarce do Ovo”.O espetáculo é apresentado no Sesc Pompeia aos domingos, no próximo dia 24 e 31. Verônica Veloso, responsável pela encenação e pela preparação corporal dos atores da peça, falou ao Colherada sobre o processo de criação, a linguagem diferenciada e sobre sua “experiência clariceana”.
Colherada: Como funciona o espetáculo? Começa fora do teatro e segue qual percurso?
Verônica: A encenação foi formulada a partir de uma trajetória no espaço, durante a qual o público observa cenas de diferentes pontos de vista. A construção das cenas passa pela definição da posição do público em relação ao espaço onde a cena é instalada, propondo uma interação direta com a arquitetura escolhida (nesse caso, a choperia do Sesc Pompeia). Uma das atrizes (Bia Cruz e Gabriela Cordaro) convida o público na sala de leituras para acompanhá-la em uma itinerância dentro da choperia. Apenas 30 pessoas assistem a cada apresentação, pois o público é remanejado durante toda a encenação, sendo convidado a observar as cenas de pontos distintos, sobre as mesas da choperia e sobre o palco, por exemplo.
C: Por que o grupo optou por este formato?
V: A encenação vem da pesquisa que o Coletivo Teatro Dodecafônico desenvolve sobre a utilização de procedimentos cinematográficos para a composição da cena teatral contemporânea. Por exemplo: lidamos com o espaço como uma locação, de onde subtraímos enquadramentos, ou seja, recortes de espaço de onde os espectadores avistam a cena. Entendemos o teatro como experiência compartilhada e consideramos importante tirar o espectador de sua posição de conforto, sem, no entanto, desviar a atenção da cena para ele, expondo-o desnecessariamente.
C: O que mais encantou nestas duas obras de Clarice? V: Inicialmente, partimos de “Legião Estrangeira”, que trata de um encontro de uma escritora com uma menina que, por sua vez, se encontra com um pintinho. Esse último encontro permite que a menina viva sua infância e passe por uma experiência de amor, morte e transformação, atentamente observada pelos olhos da escritora -- alter ego de Clarice. O elemento detonador do momento epifânico do conto é o pintinho, que tem sua materialidade dissecada na obra “O Ovo e a Galinha”. Aqui a escritora não conta nenhuma história, ela exercita a linguagem na escrita, produzindo um rico ensaio sobre o ovo. Clarice, nesse conto, leva às últimas consequências seu exercício formal, teoriza, filosofa, metaforiza a partir do encontro com o ovo. O trabalho da companhia se inspira nessa experiência formal e propõe cenas que, em vez de adaptar ou transpor a literatura para o teatro, reagem ou respondem aos dois contos da autora.
C: Como você complementa a encenação?
V: A encenação não busca dramatizar as situação propostas por Clarice em “Legião Estrangeira”. A composição das cenas se baseia na escritura corporal das atrizes em relação com o espaço e o objeto ovo, por isso o trabalho corporal é bastante relevante e a encenação tem forte teor performático.
C: Como foi a sua "experiência clariceana"?
V: Considero Clarice Lispector uma autora fundamental, pois sua obra confere aos leitores a possibilidade de vivenciar experiências distintas. Ler Clarice é importante para aprender a “ser gente” e para entender sobre o feminino e suas potencialidades.
SESC POMPEIA
Rua Clélia, 93
24 e 31 de janeiro, às 17h30
De R$ 2,00 a R$ 8,00
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