sem estereótipos
"Urban Manners 2": uma arte nascida na Índia
Três gerações de artistas expõem no Sesc Pompeia, em SP, até 4 de abril
por Adriana Guivo - 22 de janeiro de 2010
A contemporaneidade na arte trouxe uma indistinção ao que se refere a origem de obra e artista. Elimine legendas em exposições internacionais, como a Bienal de São Paulo, e é possível jurar que um trabalho desenvolvido na Polônia pertence à Suécia, ou que outro feito no interior dos Estados Unidos veio dos Bálcãs. Ainda assim, as peculiaridades de cada cultura resistem em meio à globalização, e podemos ainda ver elementos populares em meio a pensamentos artísticos refinados.É o que ocorre, por exemplo, na exposição “Urban Manners 2”. Na mostra aberta nesta sexta (22) no Sesc Pompeia, 17 artistas desconhecidos entre nós – porém referenciais em grandes mostras pelo mundo – apresentam o que de mais atual a Índia tem nas artes visuais, desde meados de 1970. Essa mesma conformação de nomes foi reunida em 2007 por Adelina von Furstenberg para uma exposição em Milão, e chega a São Paulo como uma continuidade de relações culturais entre o Sesc e a Índia, iniciada em 2003 com o espetáculo de dança "Samwaad - Rua do Encontro”. Nele, o coreógrafo Ivaldo Bertazzo uniu a diversidade sonora e os movimentos corporais característicos dos dois países numa interpretação autêntica, vivida por jovens da periferia paulistana.
Essa junção tem precedentes por uma semelhança histórica. Ambas as nações passaram por processo de colonização e tiveram a cultura europeia como modelo exemplar no que se refere à culturalização. E vem conquistando lugar nas discussões artísticas mundiais com merecido valor. Dentre os artistas brasileiros, ainda são poucos os nomes que saltam da ponta da língua de estrangeiros ao tratar da produção contemporânea: Tunga, Vik Muniz e Adriana Varejão são os mais contabilizados.
Uma leve pesquisa dentre os indianos – via Google mesmo – vai certamente trazer em primeiro plano Subodh Gupta, Sheba Chhachhi e Raghubir Singh. Suas obras são extremamente bem-estruturadas, com uma força conceitual que transcende qualquer visão estereotipada da cultura a qual pertencem e provocam válidas reflexões para a vida como um todo. A seguir, um panorama com alguns dos destaques da mostra.Gupta constrói esculturas com utensílios domésticos industrializados, normalmente panelas em diferentes formatos, conferindo a eles uma aura de artefato de luxo. A superfície reflexiva do metal ganha nuances do ambiente em que são apresentadas, o que se aproxima da característica apontada por Márcio Medina, cenógrafo da mostra, como própria dos indianos: “Quando eles andam pelo mundo, eles se inserem, absorvem, sem serem agressivos com as culturas”.
Sheba Chhacchi, autora da instalação “Neelkanth (Garganta Azul) Veneno/Néctar”, possui em sua linguagem uma forte ligação com questões religiosas e de presentificação do corpo humano, do indivíduo destituído de inteireza nas sociedades urbanas. A obra é das mais tecnológicas, com diversos vídeos projetados a partir de recipientes no chão. Veem-se bocas e olhos em tamanho natural, como fragmentos de corpos ausentes. Diversas imagens se sobrepõem no que é o núcleo da instalação, e outras quatro imagens, de aterros sanitários, dão um aspecto desolado a essa espécie de microcidade. É possível associar a disposição das peças a velas acesas em um altar.
Raghubir Singh registrou por mais de três décadas apenas o seu país. Quando a fotografia colorida era vista com maus olhos e somente imagens em preto e branco eram consideradas expressões artísticas, Singh ousou ser mais fiel à essência dinâmica da Índia – feita de paisagens áridas, saris vibrantes vestindo as pessoas nas ruas e tecidos flutuando nas janelas. Quando faleceu, em 1999, havia deixado 12 livros com sua produção mais representativa, e ainda um recorte retrospectivo, apresentado no Instituto de Arte de Chicago nesse mesmo ano. As imagens escolhidas para a “Urban Manners 2” retratam uma realidade na qual estátuas se fundem a seres humanos, confundindo nosso olhar num primeiro momento, e que exploram não só planos de profundidade como espaços muito bem fracionados. Dois grandes animais construídos de resina vão muito provavelmente fazer a alegria das crianças na exposição. Um deles, similar a um dinossauro, pertence à dupla Thukral e Tagra, e foi construído à base de réplicas de embalagens recolhidas da rua, pintadas de rosa e cobertas por etiquetas. O outro, de Jitish Kallat, é um misto de carro-pipa com um grande esqueleto, similar aos de cemitérios de elefantes, simbolizando morbidamente a ausência de vida quando a água deixar de existir.
O serviço educativo conta com mais de 30 jovens treinados ao longo de três semanas para fazer abordagens diversificadas das obras, conforme o tipo de público. Vale contar com eles para uma visita que explore o que mais o Brasil e a Índia têm em comum quando o assunto é artes plásticas.
“Urban Manners 2” - até 4 de abril na área de convivência do Sesc Pompeia. Rua Clélia, 93 – Pompeia – São Paulo. Tel: (11) 3871-7700. A entrada é gratuita.
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