456 anos
São Paulo, cidade pizzadélica
Por James Scavone*
por Mr. Fork - 27 de janeiro de 2010
Imagine a cena: um auditório lotado de mulheres orbitando certo galã global que se apresenta como o novo garoto-propaganda de uma campanha publicitária. No palco improvisado, ele tem o microfone em mãos e a atenção irrestrita da plateia. "Sabe o que eu mais admiro nas mulheres?", diz ele olhando para todas ao mesmo tempo e nenhuma em particular. "O bom humor", completa. As mulheres, que já estavam felizes (e bem-humoradas) com a sua simples presença, deliram e acreditam. E assim inicia-se a coluna, que não tem nada a ver com bundas, celulite e gorduras localizadas, mas que tentará provar que a minha cidade, tida como feia e desajeitada, pode se tornar bonita desde que bem-humorada. Some-se à discussão o relatório da Price Waterhouse and Coopers, que afirma que São Paulo se tornará a 6ª cidade mais rica do planeta até 2025. Com dinheiro abundante, as coisas podem ficar ainda mais tangíveis. Será?
São 10 milhões de habitantes dentro de seus limites e o dobro disso na região metropolitana. Dois números cheios, impressionantes, mas que parecem ter chegado à certa estabilidade. Cabem aos nossos gestores, portanto, saber lidar com vinte milhões de almas – e não com os prédios e casas onde vivem.
Costumo dizer que São Paulo é uma cidade que não se conforma com o fato de estar no alto de um planalto e não na costa (afinal, também nós, paulistanos, somos filhos de Deus e gostamos de praia). Nos últimos 456 anos, tudo que a cidade fez foi crescer para os lados, manchando de cinza as colinas e vales até que seja capaz de se debruçar sobre a Serra do Mar e enxergar o Atlântico. Quando tiver vista para o mar, talvez sossegue um pouco.
Nos tempos da prefeitura de Paulo Maluf, era comum avistar este slogan de governo abaixo do brasão metropolitano: São Paulo Crescendo. Isso não faz tanto tempo assim e a cidade já estava bem grandinha. Era como se a mãe italiana da metrópole não se incomodasse com a obesidade do filho e preparasse lasagna à bolonhesa em todas as refeições. São Paulo não precisa mais crescer, precisa melhorar.
Veneza, a bela cidade dos canais, tem também um belo cognome: a Sereníssima. Quando imagino um destes também para a minha cidade, penso: a Deslumbradíssima. Somos deslumbrados e volúveis em termos arquitetônicos. Já quisemos ser Paris (e quem não quer?) e Nova York (Banespa State Building). Gostamos da arquitetura colonial, das linhas clássicas, do ferro e vidro, do concreto e das linhas retas modernistas, mas queremos mesmo é morar em um deslumbrante apartamento neoclássico, guardado por guarita com vidro fumê. Se for dentro de um condomínio, então, aí chegamos lá. De casa para a (neoclássica) Daslu de carro blindado e com ar-condicionado.
A arquitetura da (in)segurança avacalha a cidade. As grades e os muros altos escondem as pessoas e avançam sem dó nas calçadas. Para entrar em qualquer prédio é preciso passar por duas grades, mais ou menos como a área de descompressão de um submarino. Enquanto não houver gente na calçada, não se resolve o problema da segurança pública. Se andamos à noite por uma calçada no bairro do Itaim, as luzes vão acendendo feito mágica pelo caminho. O único problema é que não acendem para ajudar você a enxegar melhor e evitar o cocô de cachorro e sim para iluminar (e cegar) a sua triste figura e reconhecer um possível criminoso.
São Paulo só vai ficar bonita quando a calçada for segura, limpa e o transporte público funcionar. Não sou eu que digo isso, mas sim Jane Jacobs, autora do meu livro de cabeceira, "Morte e Vida nas Grandes Cidades". Em uma época em que o bom urbanismo era o urbanismo que abria avenidas e derrubava quarteirões inteiros para organizar a cidade, Jacobs sugeria o inverso. A americana acreditava na diversidade, no uso misto das ruas e em bairros sem zoneamento, apostando no convívio entre moradores, comerciantes, velhos, crianças e jovens. Vilas dentro das cidades, assim como o vibrante Greenwich Village em Nova York.
Se o fato de se tornar a sexta cidade mais rica do mundo significar apenas dar mais poder aos especuladores, criar novas avenidas e passar o trator por cima das áreas degradadas (vide Cracolândia), a cidade não há de se tornar mais bonita, e sim ainda mais difícil, poluída e ranzinza. O trânsito não pode pautar o desenvolvimento da cidade. Sem o alívio das montanhas e do mar carioca, temos que nos esforçar mais.
O grande incêndio de 1666 deu a Christopher Wren a chance de reconstruir Londres. Em 1870, o barão Haussman criou a série de boulevards, praças e prédios públicos que tornaria Paris a mais bela das cidades modernas. Antes disso, Giorgio Vasari remodelou Florença, que até hoje é o exemplo da cidade ideal. Mas ouso dizer que podemos nos dar bem sem um Wren, um Haussman ou um Vasari. Precisamos de bom senso, bom humor e senso de escala.
O crítico de arte inglês John Ruskin afirmou certa vez que buscamos duas coisas de nossa casa. Queremos que nos dê abrigo e queremos que ela fale conosco. Que fale sobre as coisas que achamos importante e que não podemos nos esquecer ou deixar de lado. Esperamos isso de uma cidade também.
Ande e verá como algumas coisas em São Paulo não foram feitas para falar com você, mas com o seu carro. Mas será que o que proponho é colocar tudo abaixo e começar do zero?
Manchester, na Inglaterra, arrependeu-se de seus prédios de vinte andares construídos na década de 1960 e 1970 para a população mais pobre. Como as construções rapidamente se degradavam e os bairros se tornavam violentos, nos anos 1980, deram início a um programa chamado “decapitação”. Os prédios perdiam o topo e ficavam com apenas cinco ou seis andares. Revoluções às vezes reivindicam algumas cabeças. Mas acredito ainda mais em pequenas revoluções (cirurgias localizadas?). Adaptações da cidade ao convívio social, à bicicleta, aos velhos e ao respeito ao espaço público. Arrependimentos e expiações são válidos.Não sei se é verdade, mas dizem que na Holanda as praças são entregues incompletas à população. Sem calçadas cimentadas, os pedestres caminham sobre o gramado por semanas. Até que o trajeto feito pelos passantes mata a grama e mostra o caminho. Aí então a obra é retomada e o granito é colocado sobre a rota natural.
São Paulo é complexa e qualquer texto que queira discuti-la logo torna-se longo demais. Termino por explicar o enigmático título. Pizzadélica talvez seja só um trocadilho ruim com a pizza de domingo, delicioso hábito de todo paulistano, independente da classe ou do bairro. Mas também remete à psicodelia, ao manifesto da cabeça, da mente. Busco uma cidade que agrade a nossa mente e que com isso seja capaz de convencer nossos olhos. Quero apenas uma cidade mais gentil.
* James Scavone é publicitário profissional e urbanista amador.
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Últimos comentários
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Mike - 27/01/2010 às 11:31:36
Love Hate relationship!
I was told you loved the city?? has your love changed? or are you looking for a change? New city? try Bogota? or Boston?
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James - 27/01/2010 às 12:38:13
a mature relationship
But do I really have to hate it to want it to change? Or can I love it and still think it can do better?
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