no rio de janeiro
A polêmica bioarte de Eduardo Kac, feita de animais e plantas transgênicos
Duas exposições homenageiam os 30 anos de carreira do brasileiro
por Adriana Guivo - 1 de fevereiro de 2010
Se você esteve no planeta Terra no último decênio, muito provavelmente ouviu falar da ovelha Dolly, do rato com uma orelha acoplada nas costas ou da Alba, uma coelhinha cujos pêlos brancos ficam verde fluorescente quando expostos a determinada luz azul. Três organismos modificados cientificamente, levantando questões éticas e sociológicas em torno da manipulação do homem sobre seres vivos, e como conviver com eles e sua transgenia. Dos exemplos citados, um foi concebido como projeto artístico. Acertou quem escolheu a opção mais saltitante, Alba, também conhecida por “GFP Bunny”. A sigla é proveniente da abreviação da proteína verde fluorescente retirada de uma água-viva e inserida no óvulo de uma coelha albina. Desenvolvida pelo artista Eduardo Kac, brasileiro radicado em Chicago, contou com o apoio de cientistas franceses para dar vida à experiência, no ano de 2000.
Boa parte da pesquisa de Kac se relaciona com embates entre arte e sociedade, entre os valores impostos e aqueles que devem ser repensados para um melhor convívio em conjunto. Na série de fotografias atualmente expostas na mostra “Pornogramas: 1980-1982”, por exemplo, podemos vê-lo desnudo no parapeito de um prédio, cuja vista tinha diante de si duas construções de valores simbólicos: uma igreja e um batalhão de polícia. Considerando que em tais anos no Brasil ainda se vivia sob regime ditatorial, a conduta é desafiadora e também reflexiva.
Com Alba, seu interesse foi mostrar que um ser vivo não deve ser desenvolvido apenas para um fim de melhorias genéticas, “satisfazendo necessidades e desejos específicos, mas para desfrutar de sua companhia como um indivíduo, apreciado por suas próprias virtudes intrínsecas”, como declarou em carta sobre o projeto. A coelha foi adotada por ele e sua família, sendo criada como um ente a mais, servindo de inspiração para desenhos, fotografias e diversos outros projetos virtuais.
Kac pontua que seu trabalho “pode ajudar a ciência a reconhecer o papel das questões relacionais e comunicacionais no desenvolvimento de organismos”, com a devida responsabilidade pela vida criada assim como do meio-ambiente. Com esse mesmo propósito desenvolveu “História Natural do Enigma”, entre os anos 2003 e 2008. Trata-se da inserção de seu DNA nos veios vermelhos de uma determinada petúnia, criando a “Edunia” – soma de seu nome com a da flor, ou “plantimal” – híbrido planta e animal/homem. Na mostra “Eduardo Kac: Biotopos, Lagoglifos e Obras Transgênicas”, alguns dos mais referenciais trabalhos do artista, realizados nas últimas três décadas em conjunto com a biotecnologia, poderão ser vistos e oferecer uma visão mais ampla sobre o que é a bioarte, desmistificando o elo que aproxima ciência e cultura.
Embora esse tipo de arte pareça ser questionável, não se pode negar que as criações de Kac são uma adaptação do ato criador que toda arte em si é. Ele literalmente dá vida a algo outrora existente apenas no mundo da imaginação, e que, no entanto, segue sendo único na natureza.
“Pornogramas: 1980-1982” até 13 de março na galeria Laura Marsiaj. Rua Teixeira de Melo, 31c – Ipanema – Rio de Janeiro. Tel: (21) 2513-2074.
“Eduardo Kac: Biotopos, Lagoglifos e Obras Transgênicas” até 7 de março na Oi Futuro - Flamengo. Rua Dois de Dezembro, 63 – Flamengo – Rio de Janeiro. Tel: (21) 3131-3060.
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