análise

J. D. Salinger: a obra por trás dos mitos

por Martha Lopes - 7 de fevereiro de 2010
Salinger, que morreu aos 91 anos no final de janeiro"O ermitão morreu." Assim foi anunciada a morte do escritor norte-americano J. D. Salinger por meios de comunicação e pessoas em 27 de janeiro de 2010. O isolamento do autor, que evitava aparecer na mídia, se tornou um dos mitos que quase ofuscam o valor de sua obra literária.

Outra lenda que circunda seu trabalho é a de que Mark David Chapman, assassino do Beatle John Lennon, estaria lendo "O Apanhador no Campo de Centeio" -- livro mais conhecido de Salinger -- quando surgiu a inspiração para o crime. E a obra ainda teria "influenciado" um atirador que tentou matar o presidente norte-americano Ronald Reagan em 1981, que também afirmou ter tirado a inspiração do livro.

Com a morte de Salinger, no entanto, é preciso olhar além dos estereótipos e mitos. O escritor realmente preferia a privacidade ao estrelismo e publicou poucas obras -- não lançava nada há quatro décadas. Em uma rara entrevista ao jornal "The New York Times" em 1974, afirmou que, apesar de amar escrever, escrevia apenas para si mesmo e para seu prazer.

Seu talento e o estilo que viria a influenciar dezenas de escritores nada tem que ver, no entanto, com esse modo de vida. Apesar de ter produzido somente um romance e três coletâneas de histórias, Salinger marcou a literatura e obteve um status em publicações como a "New Yorker" a ponto de conquistar a liberdade para apresentar qualquer conto.

É preciso, ainda, olhar além da primeira leitura de que "O Apanhador no Campo de Centeio" pinta somente um sombrio quadro de insatisfação e falta de motivação típica dos tempos modernos. O romance, através do famoso Holden Caulfield, compõe um belíssimo retrato da adolescência, período em que é difícil entender-se a si mesmo, tomar decisões para a vida inteira, fazer amigos e se sentir confortável em família ou em sociedade. Diz-se, inclusive, que este livro ajudou a colocar a adolescência em pauta, como uma fase da vida que existe, digna de atenção, com seus problemas tão particulares.

Suas outras obras, contos reunidos em volumes como "Nove Histórias", remetem à família Glass e a personagens oprimidos pela sociedade e pelo papel que são obrigados a interpretar. Salinger conduz essas personas à bebedeira, ao suicídio e a outros caminhos de escape. São narrativas e personagens brilhantes e completos, de uma angústia típica da modernidade, que devem marcar Salinger como um dos escritores mais criativos e significativos de uma época. Muito além dos mitos que o perseguem.
Últimos comentários
  • Michelle - 07/02/2010 às 13:27:59

    J.D.Salinger

    Eu li "O apanhador no campo de centeio" no colegial e, desde então, esse é um dos meus livros favoritos. Na faculdade, era quase unanimidade a importância desse livro para os que leram. É realmente preciso olhar a obra além do autor, além de todos os 'mitos' que a perseguem. J.D. Salinger foi, realmente, um grande escritor e é isso que precisa ser lembrado.

  • guto leite - 07/02/2010 às 13:32:57

    bela aposta!

    Olha, acho uma bela aposta essa de dizer que o Salinger provavelmente será uma das vozes associadas à modernidade. Além da prosa envolvente e incisiva, o tema da adolescência parece dizer muito sobre nossa sociedade sempre adolescente diante dos avanços. Duas colheres de abraço!

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