rest in peace

O brilhantismo irreverente de Alexander McQueen

A morte do artista levanta uma questão: a indústria da moda precisa mudar suas normas?

por Luty Vasconcelos - 12 de fevereiro de 2010
O estilista Alexander McQueenNunca se sabe por quanta pressão passa um criador brilhante para se reinventar e manter o alto nível das suas criações. Entre grandes acertos e erros, Lee Alexander McQueen atingiu o ápice da sua carreira desfilando em todas as maiores semanas de moda do mundo e vestindo celebridades importantes do showbizz e da política.

Para cumprir a loucura do calendário da indústria fashion, McQueen trabalhou praticamente de maneira initerrupta. Em janeiro de 2010, mostrou coleções nas semanas de Milão, Paris, Londres e, na tarde de 11 de fevereiro, dia de sua apresentação na semana de moda de Nova York, o estilista de 40 anos foi encontrado morto em sua casa na capital inglesa. Com apenas 24 anos de uma carreira brilhante, suspeita-se que ele tenha se suicidado em meio a problemas pessoais e à pressão da indústria da moda, que não costuma perdoar nem mesmo questões íntimas e particulares.

GÊNIO EM CRISE

McQueen enfrentava uma forte depressão agravada pela morte de sua mãe, Joyce, no começo de fevereiro. No último dia 3, ele mesmo anunciou o falecimento através do twitter: “Estou deixando meus seguidores saberem que minha mãe morreu ontem. Se ela não pode me ter, vocês também não”. Em seguida postou: “mas a vida precisa seguir em frente”. 

Pouco tempo depois, no dia 7, mais um tweet: “Noite de domingo, tem sido uma semana terrível, mas meus amigos têm sido ótimos, agora preciso de alguma forma me recompor”. Agora, o microblog de McQueen, conhecido como @Mcqueenworld, assim como a sua loja virtual, já não existem mais.

Imagem de seu último desfile com os saltos megalomaníacos (à esq.) e look da coleção The Horn of Plenty (à dir.)
Alexander McQueen tem uma trajetória daquelas de cair o queixo. Deixou a escola aos 16 anos para trabalhar da Anderson & Sheppard, na mítica rua Savile Row, com clientes do porte de Príncipe Charles e Mikhail Gorbachev. Entrou na Central Saint Martins na década de 1990, abriu sua marca própria no East End de Londres e assumiu a direção criativa da Givenchy de 1996 a 2001.

Em 1996, com apenas 27 anos, conquistou pela primeira vez o reconhecido título de Designer Britânico do Ano, sendo um dos mais jovens estilistas a atingir esse posto, entre nomes como John Galliano e Vivienne Westwood; a façanha foi repetida por mais três vezes: em 1997, 2001 e 2003.  Ainda em 1996, além da sua grife homônima, assumiu o cargo de designer-chefe da Givenchy, sucedendo Galliano. Depois de desfiles polêmicos e muita irreverência, recebeu as alcunhas de "enfant terrible" da moda.

Modelos da coleção de inverno 2009Até o final de 2007, McQueen já tinha lojas em Nova York, Londres, Los Angeles, Milão e Las Vegas. Em julho de 2008, conectado com as mudanças e novas tendências, o estilista lançou na internet sua loja virtual, na qual os clientes podiam comprar sua coleção de prêt-à-porter e acessórios sendo um dos pioneiros nesse tipo de ação.

A morte inesperada interrompe uma carreira que estava longe de entrar em declínio. A cantora do momento, Lady Gaga, dona de um estilo único, muitas vezes apareceu vestindo peças irreverentes e artísticas assinadas por ele em seus videoclipes. 

Anna Wintour, a imbatível editora da revista “Vogue” americana, disse certa vez que os grandes da moda precisam saber passar por cima dos seus problemas pessoais para manter o seu trabalho no mesmo nível de competência. Até que ponto a carreira deve estar acima até das situações limite na vida das pessoas?

Na minha opinião, a pergunta que fica é: será que em meio a tantas mudanças políticas, sociais e de comportamento ao longo da primeira década do século 21, a indústria da moda precisa manter essa regularidade de apresentações que obriga os envolvidos com essa realidade a correr atrás do que está na "crista da onda" dia após dia? A morte de Alexander McQueen, brilhante e inventivo designer de nosso tempo, faz pensar na necessidade de mudança da máquina contínua e potente que movimenta o mundo fashion. 
 
Últimos comentários
  • orlando - 12/02/2010 às 12:23:39

    o mercado mata

    é Luty, o mercado massacra demais. McQueen decididamente era um sujeito cuja obra se situava muito além da moda, era um gênio criativo, um artista que encontrou na moda um lugar, mas que estava mais além da moda. Acho que esse não se sentir confortável fez com que ele não conseguisse aguentar, junto as perdas da mãe e da amiga anos atrás devem tê-lo levado a sensação de não pertencimento a esse mundo. Parabéns pelo profile e pela crítica bem posta. Besos, Orland

  • Joseildes Farias Fonseca - 07/06/2010 às 16:34:08

    É impressionante

    Não conhecia o brilhantismo de Macqueen por ignorância mesmo em relação a moda. Mais alguém falar: ""Anna Wintour, a imbatível editora da revista “Vogue” americana, disse certa vez que os grandes da moda precisam saber passar por cima dos seus problemas pessoais para manter o seu trabalho no mesmo nível de competência. Até que ponto a carreira deve estar acima até das situações limite na vida das pessoas?"" Me sinto constrangindo com as palavras de tal mulher. Mais Ce la vie. Era como se Alexander num fosse Humano. Tudo bem liberdade de expressão, mais respeito ao sofrimento Humano acima de tudo. Joseildes Fonseca,

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