sem explosões
"O Mensageiro" mostra lado B da guerra em drama tocante indicado ao Oscar
Longa concorre aos prêmios de melhor roteiro original e melhor ator coadjuvante
por Thais Kuzman - 19 de fevereiro de 2010
Ninguém gosta de ser o portador de más notícias, certo? Principalmente quando essas informações tratam da morte do ente querido de alguém. Mas há quem faça isso profissionalmente como o capitão Tony Stone (Woody Harrelson), que avisa às famílias de militares sobre a baixa de seus parentes na guerra do Iraque quase que diariamente em "O Mensageiro", filme que estreia nesta sexta-feira (19). O sargento Will Montgomery (Ben Foster), recém-chegado do campo de batalha com louvores de herói, é jogado nesta missão desgastante e cheia de pressão para ajudar o veterano, pois como seu superior explica, o posto exige “extrema fibra moral”, algo que ele demonstrou em ação.
Stone conta com uma frieza típica dos “caras durões de filmes” como a notificação de falecimento deve ser feita: seguir sempre o protocolo, informar apenas parentes diretos – antes que o noticiário faça isso – e nunca ter contato físico (como tapinhas nas costas ou abraços) com quem recebe a mensagem. Will, entretanto, não fica nada empolgado com o novo trabalho, porque tem problemas de sobra para administrar como os cuidados constantes com o olho e a perna feridos pelos estilhaços de uma bomba, a rejeição da antiga namorada que está prestes a se casar com outro e a incapacidade de se adaptar novamente ao “mundo normal”.
O sargento tenta encarar a nova função apenas como uma desagradável tarefa temporária – ele poderá deixar o serviço militar três meses depois –, mas se vê completamente desarmado pela imprevisível e sempre chocante reação dos familiares à sua mensagem. Há a mãe descontrolada que chora sem parar e chega a bater no oficial, o pai que olha para a netinha órfã com desespero e o que culpa os mensageiros pela morte de seu filho. Para o espectador, que acompanha tudo por uma câmera muito próxima da ação, é um soco no estômago atrás do outro.
Em meio às constantes missões, os aparentemente opostos Tony e Will passam a ser amigos e a confiar um no outro. É nesse ponto do filme em que Woody Harrelson mostra o motivo de ser indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Ele consegue explorar com grande desenvoltura todas as nuances que o personagem oferece, do machista conquistador ao solitário alcoólatra em recuperação, passando pelo militar frustrado por nunca ter estado em um campo de batalha, e faz o publico rir e se emocionar com a mesma eficiência. Ben Foster, que não foi lembrado pela Academia, também tem uma atuação tocante e de extrema humanidade. Will não precisa dizer como se sente perdido para que o espectador entenda sua vida dividida pela guerra e nem chorar depois de dar as notícias de morte para que se perceba o quanto aquilo incomoda o personagem. Todos os sentimentos estão ali.
A trinca de atores principais fica completa com Samantha Morton, que interpreta Olívia, uma viúva notificada pelos oficiais. Sua reação comedida intriga tanto o mais jovem dos mensageiros, que ele passa a segui-la e se interessa por ela. O envolvimento dos dois, complicados por dilemas éticos de ambas as partes, fica mais perto da vida real do que dos clichês de Hollywood.
Dirigido por Oren Moverman, conhecido pelo roteiro de “Eu não estou lá” (2007), “O Mensageiro” não precisa mostrar cenas de explosão, corpos dilacerados ou tanques atirando em cidades devastadas para fazer um retrato tão contundente quanto sensível da guerra. Não à toa, o filme também concorre ao Oscar de Roteiro Original – prêmio que ganhou no Festival de Berlim.
Veja o trailer do filme:
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