eternamente atômico
“Ocupação Chico Science” homenageia o caranguejo-mór do manguebeat
Exposição em SP relembra o valor do músico, morto há 13 anos, para a cena musical brasileira
por Adriana Guivo - 20 de fevereiro de 2010
O que você faz quando ninguém está olhando? O recifense Chico Science fazia-pensava-vivia uma música de primeiríssima qualidade, numa tradução do universo ao qual pertencia. Da liberdade em não atender expectativas, arregimentou uma legião que possuía o mesmo ideal: o de valorizar raízes e acoplar aqui e acolá uma batida vinda de fora. As tecnologias eram bem-vindas, assim como qualquer modernidade inovadora dos sentidos.
De uma somatória de ritmos do corpo, instrumentos diversos e intenções contrárias a mesmice reinante na indústria fonográfica dos anos 1990, fez nascer o contagiante movimento manguebeat. Segundo o roteirista Hilton Lacerda, “o mangue não é um tipo de música, mas uma frente que foi capaz de abrir brechas de visibilidade, antenar a periferia com o mundo e trazer esse mundo de volta”.
Chico Science & Nação Zumbi, banda com a qual se apresentou até seu precoce falecimento em 1997, deu uma guinada no panorama da música brasileira, deslocando o eixo Rio-São Paulo para a quentura de Pernambuco. O estado que até então só era lembrado por seu carnavalesco frevo demonstrou ter bagagem pra muito mais que um simples estereótipo aplicado aos nordestinos.
Era uma força de trabalho feita em conjunto, a muitas mãos e cabeças de fato pensantes – caranguejos com cérebro, como se denominavam – que persiste até hoje com esse preceito, em diversas esferas culturais. Pois esse maluco beleza contemporâneo compõe a atual edição do projeto “Ocupação”, no Itaú Cultural, em São Paulo. Quem não o conhece tem a chance de entender um pouco seu espírito inventivo, sua energia reformuladora de ideias e o contexto que permitiu que vingasse. Aqueles que vivenciaram a experiência saindo do forno vão conferir uma homenagem à altura.
A exposição apresenta fotografias, manuscritos e objetos pessoais, um fanzine com depoimentos de amigos e obras de artistas plásticos que beberam do mesmo mangue para criar. Um caminho feito de fitilhos coloridos, aparentemente instransponível, desemboca no cantinho de maior intimidade do artista - não deixe de atravessá-lo. Um Fordão de capô traseiro aberto, forrado de chita e com um televisor ligado ao som e imagens de apresentações da banda -- no meio da exposição, que fique claro -- evidencia o clima de alto astral que gravitava em torno de Chico.
Para complementar, o Itaú Cultural abre espaço para shows com as bandas Instituto, Mundo Livre S/A e Bomba do Hemetério, além de bate-papos com os parceiros do cantor, como Fred Zeroquatro e Paulo André Pires. Todos com entrada franca. Confira as datas e horários neste link, clicando a seguir em “serviços”.
“Ocupação Chico Science” até 4 de abril no Itaú Cultural. Avenida Paulista, 149 – São Paulo. Tel: (11) 2168-1777. Twitter: @itaucultural
Para entrar no clima, assista ao vídeo com trechos do programa Radiola com Chico Science & Nação Zumbi:
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