beatles forever

Ringo Starr faz 70

por Mr. Fork - 14 de julho de 2010

Ilustração de André Hellmeister, diretor de arte e designerE o Beatle mais feio foi o que envelheceu melhor. Vão dizer que John Lennon não teve tempo de envelhecer, parando nos quarenta e que George Harrison também não está mais por aqui. Mas dentre os que ficaram, Paul McCartney mais parece uma velhinha inglesa e Ringo Starr faz setenta com um show no Radio City de Nova York, levando a todos a impressão de que se a idade não faz bem a ninguém, também não lhe fez mal.

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Li sobre o show e seu aniversário no New York Times. Um infográfico informa também os próximos setentões e a lista impressiona: Chuck Norris, Al Pacino, Mick Jagger, Bob Dylan, além de Robert De Niro e Harrison Ford que completam o número em 2012 (estes podem ser salvos pelo apocalipse maia).

Por aqui, sei que Pelé faz 70 dia 23 de outubro deste ano. Obviamente, o mais incrível jogador de futebol de todos os tempos não está mais fazendo o que lhe fez famoso,  como Ringo Starr, que continua na bateria, mas é ainda um dos grandes garotos-propaganda da televisão Brasileira. Perde apenas - alguém mais percebeu a onipresença dela? - para a Marília Gabriela.

A questão do artigo nem é a capacidade de Ringo Starr, de Mick Jagger, Caetano Veloso e outros de aguentar o ritmo do show business, mas da obrigação dos velhos dos dias de hoje de manter um cotidiano muito parecido de quando tinham aos cinquenta, quarenta ou até trinta e poucos anos. Quantas vezes não ligamos a TV para ver uma vovó que resolveu pular de paraquedas ou atravessar o canal da mancha a nado?

Americanos e europeus começam a aprovar leis impedindo que sua população se aposente antes dos 70. Se você é um setentão e prefere ficar na poltrona de casa zapeando a televisão com um gato no colo, vai ter que esperar mais dez anos. Já existe uma pressão por parte da sociedade, que diz que para ser um sucesso, um septuagenário deve ser socialmente e intelectualmente ativo, trabalhar diariamente como Oscar Niemeyer, fazer trabalhos sociais ou ao menos jogar tênis no clube.

A letra da inescapável "When I'm 64" dos Beatles de Ringo, narra velhinhos mais preocupados em cuidar do jardim e dos netos do que da bilheteria de uma casa de shows em Nova York. Vai saber, talvez se não fosse àquele tiro em frente ao edifício Dakota, John Lennon e Yoko estariam mesmo cuidando de rabanetes na horta de algum castelo escocês.

O filósofo romano Cícero tem um livrinho sobre envelhecer com sabedoria, que sempre entra em discussões como esta. Diz que são quatro as razões detestáveis da velhice: o fato desta fase afastar o ser humano da vida ativa; a constatação de que ela enfraquece o corpo; a condição de privar-nos dos melhores prazeres e a aproximação com a morte. Diante dos velhos de hoje, diante da medicina moderna, do Viagra e das vagas para idosos nos shopping centers, parece que a sabedoria romana envelheceu um bocado.

O velho clichê diz que ser mais velho implica em ser mais sábio. Na verdade, em geral, velhos, somos aquilo que sempre fomos com mais dores no corpo. Se você é um sedentário será um velho sedentário, se é uma estrela do pop, será uma estrela do pop com algumas rugas a mais. Podemos dizer que até mesmo o mais distraído dos velhos aprendeu uma ou outra lição ao longo da vida, só não custa reforçar que a memória é uma das primeiras coisas que se vão e as sabedorias adquiridas podem ficar pelo caminho.

O artigo do New York Times termina dizendo que hoje em dia, fazer 90 anos é a única garantia de liberdade. Com 90, você pode fazer qualquer absurdo e será tolerado. As pessoas já se espantam que você esteja fazendo alguma coisa para início de conversa.

*James Scavone é anglo-brasileiro com sobrenome italiano, sócio e diretor de criação da agência Salve e também mantém uma coluna semanal no jornal "Placar". Anda de bicicleta e adora balas de goma. Como todo redator publicitário que se preze, tem um livro que não sai da gaveta.



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