entrevista
Jason Tércio investiga desaparecimento de Rubens Paiva em "Segredo de Estado"
Em um dia de 1971, um homem foi tirado de sua casa para supostamente dar um depoimento de rotina. Deixou a esposa e os cinco filhos em casa, e nunca mais voltou. Esse homem era o deputado Rubens Paiva -- pai do escritor Marcelo Rubens Paiva --, uma das muitas vítimas da ditadura militar brasileira. Sua trajetória e os mistérios envolvendo seu desaparecimento são objeto do livro "Segredo de Estado - O Desaparecimento de Rubens Paiva" (ed. Objetiva), do jornalista Jason Tércio.LEIA MAIS: Livraria da Vila promete encontro entre turismo e literatura no projeto Navegar É Preciso
A obra alia recursos narrativos de ficção a fatos verídicos, como a tortura sofrida por Rubens. Em entrevista ao Colherada, Jason justificou a escolha por esse formato e afirmou ser uma vergonha o Brasil ainda não ter encarado o fantasma da ditadura. Confira abaixo:
Colherada Cultural: Como foi o processo de apuração do livro? Quanto tempo durou?
Jason Tércio: O livro demorou quatro anos e meio para ser feito, desde o início das pesquisas até a publicação. Fiz pesquisas em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro, no acervo da família e em arquivos públicos, onde encontrei documentos inéditos dos órgãos de segurança da ditadura. Também entrevistei dezenas de pessoas e li tudo que saiu na imprensa brasileira e estrangeira sobre o caso, além da pesquisa bibliográfica sobre a ditadura militar.
C.C.: O livro pode ser classificado como jornalismo literário, por ter partes romanceadas. Por que optou por esse formato?
J.T.: A história de Rubens Paiva é muito dramática e comovente, envolve as emoções mais profundas do ser humano, com um enredo de mistério, violência, perseguição, intriga política, suspense. Após muita reflexão, concluí que um texto do tipo reportagem ou ensaio não conseguiria exprimir toda a intensidade dessa história. Optei por uma linguagem que funde técnicas narrativas de romance histórico, reportagem e crônica. Eu quis mostrar, em vez de contar, as sensações físicas e psicológicas dos personagens, sobretudo da família, e o impacto dos acontecimentos no seu cotidiano. Mas tudo foi reconstituído com base em documentos oficiais e particulares, depoimentos e imagens fotográficas.
C.C.: O livro descreve, inclusive, a tortura que Rubens Paiva teria sofrido quando foi preso. O senhor teve acesso a esses dados?J.T.: Sim, duas mulheres que foram presas com ele deram detalhes em depoimentos posteriores e que constam de um inquérito que nunca tinha sido consultado por pesquisadores. Outro testemunho-chave é o do médico que atendeu Rubens agonizante, com o corpo todo machucado, conforme está no livro. Aliás, uma das provas de que Rubens morreu sob tortura é o próprio desaparecimento do corpo. Se ele tivesse morrido, por exemplo, de ataque cardíaco, e o corpo estivesse sem nenhuma marca, os agentes o teriam devolvido à família, em vez de inventarem a versão da fuga mirabolante.
C.C.: No "Epílogo", o senhor se coloca de forma enfática em defesa de que o país encare o fantasma da ditadura. Acha que o fato de termos, agora, uma presidente que foi torturada nesse período pode ajudar no processo de abertura dos arquivos da ditadura?
J.T.: Os arquivos não devem conter grandes novidades. Mas a busca dos desaparecidos é uma dívida que o Estado brasileiro tem com a sociedade. Vejamos os fatos concretos: o Brasil vive numa democracia sem nenhum abalo institucional há mais de 25 anos, a geração atual das Forças Armadas não teve nada a ver com a ditadura, praticamente todos os oficiais que estavam no comando da repressão já morreram, a Guerra Fria acabou há 20 anos, os golpes militares estão totalmente fora de moda, apesar de haver ainda alguns saudosistas, mas sem influência política nenhuma. Além disso, todos os países da América do Sul que tiveram ditaduras no mesmo período criaram Comissões da Verdade, avançaram nas buscas dos desaparecidos e até puniram alguns culpados importantes, sem nenhuma crise militar, exceto reclamações esporádicas e inconsequentes. O Brasil é o país mais atrasado do mundo nessa questão. É um vexame. Precisamos virar esta página negra da nossa História, encontrando os desaparecidos, para lhes dar sepultamento digno e trazer a paz aos familiares. Espero que essa mentalidade esteja começando a mudar, e uma demonstração disso seria a aprovação do projeto da Comissão da Verdade pelo Congresso Nacional.
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