papo musical
“Prefiro ser comparado a Itamar Assumpção do que a Vinícius de Moraes”, diz Kiko Dinucci
* Por Larissa Saram
Cantor, compositor, cineasta, artista plástico. A
multiplicidade de Kiko Dinucci reflete em tudo o que ele faz, principalmente na
música. Com raízes no tradicional e também no contemporâneo samba paulistano, as
canções de Kiko ecoam influências que vão desde a música caipira, que seu pai
ouvia quando era criança, até as batidas africanas vindas do candomblé, sua
religião. “Tenho o ouvido livre, e essa falta de fronteira reflete na minha
obra”.
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Guarulhense da safra de 77, Kiko já gravou “Padê” (2007), com Juçara Marçal, “Pastiche Nagô” (2008), com o Bando Afromacarrônico, e faz parte do Duo Moviola, com Douglas Germano, com quem gravou “O retrato do artista quando pede” (2009). Em 2010 lançou “Na boca dos outros”, disco com composições suas interpretadas por outros cantores. Fez uma participação em “Nó na Orelha” (2011), álbum do rapper Criolo, e faz apresentações de samba ao lado de Rômulo Fróes e Rodrigo Campos, no projeto intitulado “Passo Torto”.
Na próxima sexta-feira (22), ele junta dois desses amigos, Juçara Marçal e Thiago França, para apresentar seu mais recente trabalho, o CD “Metá Metá”, na Casa de Francisca. Em entrevista ao Colherada, ele falou de suas diversas parcerias, do interesse pelo cinema e, claro, da apresentação que está por vir:
Colherada Cultural: “Metá Metá”, em
parceria com Juçara Marçal e Thiago França, é seu projeto musical mais recente.
O que o público pode encontrar neste disco (CLIQUE AQUI para baixar)?
Kiko Dinucci – “Metá Metá” é composto por canções nuas. A minha
geração tem o lado técnico muito apurado, sabe mexer no som, consegue deixar os
timbres exatos e o resultado é que surgem discos parecidos. Não queríamos isso para o “Metá Metá”. Nosso disco não tem artifícios de
produção, tocamos sax e violão de um jeito econômico, para dar destaque para a
voz da Juçara e também para as letras. Nós o lançamos em maio, mas só está disponível para download. Nós vamos lançá-lo em formato de
CD, em breve, mas só para vender nos shows.
C.C: As suas músicas
têm visível influência das batidas africanas e, por isso, alguns críticos afirmam
que o seu som é uma versão contemporânea do “Os Afro-sambas” (1966), álbum de
Vinícius de Moraes em parceria com Baden Powell. É muita responsabilidade ser
comparado com este clássico?
O pessoal acaba comparando de um jeito muito fácil. É claro que o Baden vai
acabar aparecendo nas minhas músicas, porque ele estudou um jeito diferente de
tocar. Mas tem tanta coisa no meio do meu som, como o diálogo com a vanguarda
paulista, a produção do compositor
Paulo Vanzolini, toda essa coisa de São Paulo, do punk. E eu prefiro ser Itamar
Assumpção a Vinícius (risos). Ser comparado com o Baden Powell eu até aceito,
mas não tenho ligação nenhuma com o Vinícius. A minha parte literária é o
oposto do que ele fazia, Vinícius fala de orixás como um parnasiano, minha
música é muito mais narrativa. Se você falar que pareço mais com o Nelson
Rodrigues, eu acredito!(risos)
C.C: Por que os
parceiros são uma constante em seu trabalho? Não tem vontade de fazer algo
sozinho?
Isso daí pode ter dois lados. Pode ser porque tenho medo de fazer disco solo,
com toda aquela pressão de estar sozinho. Mas também pode ser que seja minha
resposta ao mercado, que tem esse modelo pré-estabelecido de ter que ter um
disco só com o teu nome. Acho isso muito limitado, não me encaixo neste
formato. Tem gente que faz parcerias boas, mas não põe o nome dos caras no
disco, sabe? Acho que o importante é o encontro. Vai chegar a hora de eu fazer
alguma coisa sozinho, mas não é agora.
C.C: E o que é o
projeto “Cortes-curtos”?
Acabei de falar que ia demorar para lançar um disco só meu, mas tá aí, o
“Cortes-curtos” vai ser um CD solo! (risos) Serão 15 músicas, com
aproximadamente dois minutos e duas frases. As canções não terão exatamente 140
caracteres, mas serão feitas para caber no Twitter, porque eu acho que ele
reflete o ritmo rápido de São Paulo, e eu queria que as músicas mostrassem
flashes da cidade. São Paulo não é o tema, mas é o meu jeito de tocar. Daí eu
comecei a reparar que todas os meus discos tinham vinhetas, depois fui
estudar o Itamar Assumpção e descobri que ele também tinha músicas com
vinhetas; inclusive o samba antigo era vinheta, mudou só depois que foi para o
rádio. Sei lá, é uma oportunidade para experimentar outros tipos de linguagem.
C.C: Em 2005, você
resolveu aventurou-se pelo cinema. Como
pintou a ideia de fazer o documentário “Dança das Cabaças : Exu no Brasil” (CLIQUE AQUI para saber mais)?
Em 2002, estava muito desanimado com a música, porque é uma arte onde tudo
é muito demorado, tudo é muito penoso. Nessa mesma época comecei a ter
interesse pelo candomblé, que é onde está grande parte do que usamos na música
brasileira. Ouvia muita música do candomblé e aí descobri que era Exu de
verdade. Porque todo mundo pensa que Exu é diabo, e na verdade significa o
movimento do mundo, é a energia vital, o que faz o mundo girar. Então resolvi
fazer o documentário sobre isso. Exu é o meu super-heroi, tem todo um elemento
transformador, está em todos os extremos. Botei na cabeça que minha trajetória
tem que ser que nem a dele, ter que ter dinâmica, conversar com tudo!
C.C: Qual é a sua opinião sobre o cinema contemporâneo?
Confesso que do cinema nacional atual eu vejo pouca coisa, porque acho a
maioria das coisas muito comercial. Mas eu adoro a época áurea, o Cinema Novo
e o Cinema Marginal. Eu gosto de filmes em que a
arte é mais escancarada, longas mais baratos. Gostei muito de “Amarelo Manga”
(2003), do Claudio Assis, “Um céu de estrelas” (1996), da Tata Amaral, e de um
documentário do Rodrigo Siqueira, chamado “Terra Deu, Terra Come” (2005). Já
do cinema internacional, gosto muito dos japoneses, do Kenji Mizoguchi. Fellini e Antonioni são influências
para o meu trabalho, mas não posso negar que há muito do que eu assistia na
infância. E eu assistia Chuck Norris, não adianta dizer que era só
Orson Welles.
Serviço
Quando: 22 de julho (sexta-feira), às 22h30
Onde: Casa de Francisca – Rua José Maria Lisboa, 190 – Jardim Paulista
Quanto: R$ 35
Informações: (11) 3052-0547
Últimos comentários
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romulo miranda - 21/07/2011 às 13:56:16
super herói
exu super herói, lindo kiko. ele tb é o meu.


