papo musical

“Prefiro ser comparado a Itamar Assumpção do que a Vinícius de Moraes”, diz Kiko Dinucci

* Por Larissa Saram

por Larissa Saram - 21 de julho de 2011

Kiko Dinucci. Foto: Gina DinucciCantor, compositor, cineasta, artista plástico. A multiplicidade de Kiko Dinucci reflete em tudo o que ele faz, principalmente na música. Com raízes no tradicional e também no contemporâneo samba paulistano, as canções de Kiko ecoam influências que vão desde a música caipira, que seu pai ouvia quando era criança, até as batidas africanas vindas do candomblé, sua religião. “Tenho o ouvido livre, e essa falta de fronteira reflete na minha obra”.

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Guarulhense da safra de 77, Kiko já gravou “Padê” (2007), com Juçara Marçal, “Pastiche Nagô” (2008), com o Bando Afromacarrônico, e faz parte do Duo Moviola, com Douglas Germano, com quem gravou “O retrato do artista quando pede” (2009). Em 2010 lançou “Na boca dos outros”, disco com composições suas interpretadas por outros cantores. Fez uma participação em “Nó na Orelha” (2011), álbum do rapper Criolo, e faz apresentações de samba ao lado de Rômulo Fróes e Rodrigo Campos, no projeto intitulado “Passo Torto”.

Na próxima sexta-feira (22), ele junta dois desses amigos, Juçara Marçal e Thiago França, para apresentar seu mais recente trabalho, o CD “Metá Metá”, na Casa de Francisca. Em entrevista ao Colherada, ele falou de suas diversas parcerias, do interesse pelo cinema e, claro, da apresentação que está por vir:

Colherada Cultural: “Metá Metá”, em parceria com Juçara Marçal e Thiago França, é seu projeto musical mais recente. O que o público pode encontrar neste disco (CLIQUE AQUI para baixar)?
Kiko Dinucci – “Metá Metá” é composto por canções nuas. A minha geração tem o lado técnico muito apurado, sabe mexer no som, consegue deixar os timbres exatos e o resultado é que surgem discos parecidos. Não queríamos isso para o “Metá Metá”. Nosso disco não tem artifícios de produção, tocamos sax e violão de um jeito econômico, para dar destaque para a voz da Juçara e também para as letras. Nós o lançamos em maio, mas só está disponível para download. Nós vamos lançá-lo em formato de CD, em breve, mas só para vender nos shows.

C.C: As suas músicas têm visível influência das batidas africanas e, por isso, alguns críticos afirmam que o seu som é uma versão contemporânea do “Os Afro-sambas” (1966), álbum de Vinícius de Moraes em parceria com Baden Powell. É muita responsabilidade ser comparado com este clássico?
O pessoal acaba comparando de um jeito muito fácil. É claro que o Baden vai acabar aparecendo nas minhas músicas, porque ele estudou um jeito diferente de tocar. Mas tem tanta coisa no meio do meu som, como o diálogo com a vanguarda paulista, a produção do compositor Paulo Vanzolini, toda essa coisa de São Paulo, do punk. E eu prefiro ser Itamar Assumpção a Vinícius (risos). Ser comparado com o Baden Powell eu até aceito, mas não tenho ligação nenhuma com o Vinícius. A minha parte literária é o oposto do que ele fazia, Vinícius fala de orixás como um parnasiano, minha música é muito mais narrativa. Se você falar que pareço mais com o Nelson Rodrigues, eu acredito!(risos)

A capa do disco Metá MetáC.C: Por que os parceiros são uma constante em seu trabalho? Não tem vontade de fazer algo sozinho?
Isso daí pode ter dois lados. Pode ser porque tenho medo de fazer disco solo, com toda aquela pressão de estar sozinho. Mas também pode ser que seja minha resposta ao mercado, que tem esse modelo pré-estabelecido de ter que ter um disco só com o teu nome. Acho isso muito limitado, não me encaixo neste formato. Tem gente que faz parcerias boas, mas não põe o nome dos caras no disco, sabe? Acho que o importante é o encontro. Vai chegar a hora de eu fazer alguma coisa sozinho, mas não é agora.

C.C: E o que é o projeto “Cortes-curtos”?
Acabei de falar que ia demorar para lançar um disco só meu, mas tá aí, o “Cortes-curtos” vai ser um CD solo! (risos) Serão 15 músicas, com aproximadamente dois minutos e duas frases. As canções não terão exatamente 140 caracteres, mas serão feitas para caber no Twitter, porque eu acho que ele reflete o ritmo rápido de São Paulo, e eu queria que as músicas mostrassem flashes da cidade. São Paulo não é o tema, mas é o meu jeito de tocar. Daí eu comecei a reparar que todas os meus discos tinham vinhetas, depois fui estudar o Itamar Assumpção e descobri que ele também tinha músicas com vinhetas; inclusive o samba antigo era vinheta, mudou só depois que foi para o rádio. Sei lá, é uma oportunidade para experimentar outros tipos de linguagem.

C.C: Em 2005, você resolveu aventurou-se pelo cinema. Como pintou a ideia de fazer o documentário “Dança das Cabaças : Exu no Brasil” (CLIQUE AQUI para saber mais)?
Em 2002, estava muito desanimado com a música, porque é uma arte onde tudo é muito demorado, tudo é muito penoso. Nessa mesma época comecei a ter interesse pelo candomblé, que é onde está grande parte do que usamos na música brasileira. Ouvia muita música do candomblé e aí descobri que era Exu de verdade. Porque todo mundo pensa que Exu é diabo, e na verdade significa o movimento do mundo, é a energia vital, o que faz o mundo girar. Então resolvi fazer o documentário sobre isso. Exu é o meu super-heroi, tem todo um elemento transformador, está em todos os extremos. Botei na cabeça que minha trajetória tem que ser que nem a dele, ter que ter dinâmica, conversar com tudo!

C.C: Qual é a sua opinião sobre o cinema contemporâneo?
Confesso que do cinema nacional atual eu vejo pouca coisa, porque acho a maioria das coisas muito comercial. Mas eu adoro a época áurea, o Cinema Novo e o Cinema Marginal.  Eu gosto de filmes em que a arte é mais escancarada, longas mais baratos. Gostei muito de “Amarelo Manga” (2003), do Claudio Assis, “Um céu de estrelas” (1996), da Tata Amaral, e de um documentário do Rodrigo Siqueira, chamado “Terra Deu, Terra Come” (2005). Já do cinema internacional, gosto muito dos japoneses, do Kenji Mizoguchi. Fellini e Antonioni são influências para o meu trabalho, mas não posso negar que há muito do que eu assistia na infância. E eu assistia Chuck Norris, não adianta dizer que era só Orson Welles.

 Serviço
Quando: 22 de julho (sexta-feira), às 22h30
Onde: Casa de Francisca – Rua José Maria Lisboa, 190 – Jardim Paulista
Quanto: R$ 35
Informações: (11) 3052-0547

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Últimos comentários
  • romulo miranda - 21/07/2011 às 13:56:16

    super herói

    exu super herói, lindo kiko. ele tb é o meu.

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