corpo ideal?

A artista plástica Patricia Kaufmann desnuda a Barbie para evidenciar a semelhança entre a mulher de plástico e a real

por Anna Carolina Lementy - 11 de agosto de 2012
Na série Sombra Negra, a Barbie é fotografada como uma modelo real/ Foto: Patricia Kaufmann
A estranha articulação do joelho na foto acima denuncia: não se trata de uma mulher real. Por outro lado, a cintura fina, os seios empinados e a tal da "barriga negativa" não provocam espanto. As mulheres de verdade se miram nas bonecas de plástico para atingir formatos e medidas sempre mínimos.

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Para a moda, isso é normal e desejável, apesar dos pedidos de desculpas que surgem de tempos em tempos. Para a artista plástica Patricia Kaufmann, é tudo muito estranho. "A maioria das mulheres é quase de plástico. Elas são neutras, estão dentro de uma forma. É como se fossem corpos sem órgãos, parafraseando o filósofo italiano Mario Perniola. É tudo plastificado, bombado, endurecido", diz.

Seu novo trabalho, "Sombra Negra", exposto na Mônica Filgueiras & Eduardo Machado Galeria, é inteiro protagonizado pela Barbie, sempre erotizada, nua e deslocada da posição de objeto. São 25 fotografias que provocam a questão: mulher ou boneca? O Colherada conversou com Patricia sobre essa dualidade. Confira:

O ensaio Sombra Negra conta com 25 nus da Barbie/ Foto: Patricia Kaufmann

Colherada Cultural: quão incômodo é esse novo modelo de corpo?

Patricia Kaufmann: ele é incômodo pela pressão que as mulheres – e até os homens – sofrem para tê-lo. Basta ver o número de revistas que oferecem fórmulas para o corpo magro, sarado, e o número de cirurgias plásticas feitas no Brasil. Os manequins estão cada dia menores, não fazem roupas para pessoas normais. Se você não se encaixar naquele padrão ultramagro, você está banido. Isso deixa as pessoas obcecadas.

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C. C.: por que escolheu a Barbie?
P. K.: sempre quis inserir uma figura no meu trabalho de pintura e acabei escolhendo a Barbie, em 2004. A fotografia [usada por Patricia pela primeira vez na série "Sombra Negra"] foi um desdobramento para seguir usando a boneca. Sou artista plástica, não fotógrafa, mas como gostava muito dessa vertente acabei migrando. Não domino a técnica, foi algo mais autoral mesmo.

C. C.: a Barbie é uma obsessão para você? Como isso começou?
P. K.: [risos] Começou quando vi a minha sobrinha brincando. Como eu não tive filhos, nunca tinha tido muito contato com o mundo infantil, especialmente o feminino. Chamou a minha atenção a quantidade de roupinhas, sapatinhos, acessórios e o quanto as meninas ficavam piradas com isso. Minha sobrinha queria ter todas as Barbies, Barbie isso, Barbie aquilo. Eu pensava: isso não tem fim? Decidi fazer algo que a Barbie não tinha, um caixão. Construí um caixão rosa-choque, lindo e chique, e coloquei 200 Barbies dentro. Matei essa Barbie e comecei a construir a minha. Fiz uma versão "Barbie no puteiro", "Barbie carroceira" – que ficou linda e foi vendida –, "Barbie travesti"...

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Colherada Cultural: qual é o retorno que você tem com a obra centrada nessa personagem?
P. K.:  As pessoas gostam, compram. É tudo uma grande ironia.

Mais uma das releituras do universo da Barbie por Patricia Kaufmann
C. C.: É um olhar bem crítico...
P. K.: Tá no sangue. Sou prima do Betinho e do Henfil – você é a primeira pessoa para quem conto isso. É uma mania de olhar para as coisas e não achar que está tudo bem. As modelos morrem de anorexia, há inúmeros sites promovendo a anorexia... São questões mais do que discutidas, mas as coisas continuam iguais. A Dove faz uma campanha com "mulheres reais" e não é consistente. Existe algo de errado.

Serviço
Mônica Filgueiras Galeria de Arte
Rua Bela Cintra, 1533
Tel.: 11 3082 5292
Até 25 de agosto
www.monicafilgueirasgaleriadearte.com.br


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Últimos comentários
  • Fabio Cezanne - 16/08/2012 às 13:04:35

    contato c/ Ana CArolina

    Olá Anna Carolina, Faço assessoria de imprensa tb em artes plásticas - assessoro atualmente a artista Anna Bella Geiger. POr favor, poderia me mandar o seu email para sugestões de pauta p/ o Colherada Cultural? Agradeço Cezanne

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