a febre literária do momento
Como "Cinquenta Tons de Cinza" mudou a minha vida
*Texto de Martha Lopes

Eu confesso. Eu fiquei (e ainda estou) obcecada por "Cinquenta Tons de Cinza". Devorei o livro em poucos dias e, quando terminei, decidi relê-lo para apaziguar a ansiedade de esperar até setembro, quando o segundo volume chega ao Brasil. Me vi como uma adolescente fã de "Crepúsculo", pesquisando tudo sobre o livro, sonhando com os personagens, realmente envolvida com essa história.
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Tudo isso, por outro lado, me encheu de vergonha. Literatura é a minha praia. Principalmente literatura erótica. Já curti as aventuras bem menos recatadas de Marquês de Sade, Anais Nïn, Catherine Millet, Henry Miller, D.H. Lawrence, Hilda Hilst, Milo Manara e outros. E nem precisava dessa bagagem para perceber que "Cinquenta Tons de Cinza" é literariamente fraco. Qualquer um saca logo de cara que é uma história cheia de clichês, com descrições pobres e diálogos no melhor estilo vergonha alheia.
Será que eu, e justo eu, teria caído nesse conto da carochinha erótico? Fiquei cheia de dúvidas. Primeiro, elas recaíram sobre o meu bom senso -- será que eu tinha perdido totalmente a noção? Depois invadiram minha vida pessoal: será que eu queria buscar uma tórrida aventura sexual? Queria largar tudo e sair correndo em busca de um Mr. Grey para chamar de meu? Tinha me descoberto uma adepta do sadomasoquismo (de butique)?
Nessa breve crise pessoal, cheguei a uma conclusão bastante simples. Eu não precisava buscar uma aventura. Eu podia VIVER uma aventura nas páginas de "Cinquenta Tons de Cinza" -- e talvez essa seja uma das principais qualidades deste livro. A própria autora resume: "É a fantasia do primeiro amor. Se você está casada há 400 anos, como eu, é legal experimentar o primeiro amor novamente, e dá para fazer isso por meio de um livro. Tira você da rotina de lavar a louça e separar a roupa".
Não sou exatamente a mulher dedicada a lavar roupa e louça, mas -- assumo --, em meio a uma rotina exaustiva, de muito trabalho e de cuidar de um filho pequeno, sobra pouco tempo e ânimo para viver momentos tórridos em casa. "Cinquenta Tons" me inspirou a resgatar a importância desses momentos e ainda inaugurou um terreno para a fantasia, onde eu podia vivenciar, mesmo que através da leitura, a paixão avassaladora de uma menina de 21 anos que se descobre diante do primeiro amor e de uma iniciação sexual surpreendente.
É claro que nada disso torna "Cinquenta Tons de Cinza" um clássico da literatura. No entanto, se a função de um bom livro é transportar o leitor para outros universos, proporcionar experiências inéditas ou impossíveis de serem vividas, também não dá para dizer que a obra é ruim. A maioria pode não concordar. Mas, para mim, vai ter valido a pena. Enquanto houver rotina pela vida afora, levarei Christian Grey debaixo do braço.

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Últimos comentários
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rafaela - 14/08/2012 às 16:11:18
'50 tons'
estou terminando de ler o terceiro livro da trilogia. o que me assusta muito nesses livros são os usos perigosos de clichês: a mocinha, o vilão, o sexo, a perversão. acho que o plot tem tudo pra ser ser muito bacana. MAS, do modo como a autora (não)trata nem problematiza as questões que o livro suscita, acredito que de uma forma muito sútil, '50 tons' acaba prestando um des-serviço à sociedade.
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bianca sousa - 06/11/2012 às 15:27:35
Onde assino!?
Simplesmente, adorei o seu texto e o contexto. Você esxplicou o que sentiu e toda a crise por qual passou. Passei por ela também. E também gostei. É que a gente se auto critica muito baseado no que os outros acharão da gente. Depois percebemos que isso é "bullshit" e que se gostamos, foda-se os outros (desculpe o palavreado), mas é a verdade. Também fiz meu parecer sobre a história no meu blog. Adoraria se você pudesse lê-lo! :) http://minhasmeiassujas.blogspot.com.br/2012/10/50-tons-de-cinza.html Bjo grande! Adoro seu blog!


