Quem quer ser inglês?
Danny Boyle e sua abertura olímpica tresloucada

Um inglês amigo meu andava preocupado antes da cerimônia de abertura da Olimpíada de Londres. Não que duvidasse da capacidade do povo das ilhas britânicas em oferecer um belo espetáculo ao planeta. Pensava na comparação. "Coitada da Inglaterra, ter que apresentar-se depois do exagero exibicionista chinês e antes das mulheres cariocas e sua cidade maravilhosa?".
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Agora, somos nós que devemos nos preocupar. Meu amigo pode relaxar. O povo que já foi dono do mundo, soube usar bem as suas armas para levar as cores da "Union Jack" aos quatro cantos da TV global. Foi um espetáculo televisivo-teatral-pop para ninguém botar defeito. A cultura inglesa colocada em um liquidificador e servida como um Dry Martini "batido e não mexido".

Aliás, a escolha do James Bond atual para participar da festa deve ter sido causa de muita comoção no parlamento escocês em Edimburgo. O debate em torno do almoço de domingo deve ter sido tão acalorado como foi em minha casa. Afinal, Sean Connery não devia estar no lugar de Daniel Craig? Na minha opinião, o atual é dos melhores, senão o melhor. E a rainha Elizabeth 2ª ficou bem na paródia de si mesma, transformando Londres no perfeito cenário cinematográfico. Chamar diretor de cinema para dirigir a cerimônia dá nisso.
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Danny Boyle deve ter se divertido na concepção de sua Londres olímpica. O jornal "The Guardian" chamou a abertura comandada pelo cineasta de "Trainspotting" e "Quem quer ser um Milionário?" de "tresloucada", mas de forma elogiosa. Disse que o inglês tinha escrito ali um pequeno poema ao país que ele imagina: uma nação tolerante, multicultural, justa e gay-friendly. Antecipando-se ao ritmo da Sapucaí, Boyle soube criar seu samba-do-criolo-doido-inglês.

Na política, direita e esquerda. A estátua de Churchill acenando o helicóptero que levava a rainha e o agente secreto e no palco, uma homenagem ao NHS, o Sistema Nacional de Saúde. Motivo de orgulho (mais do que se supunha depois desta apresentação), foi criado pelo grande rival trabalhista de Churchill, Clement Attlee, que o sucedeu e inaugurou o "welfare state" na ilha britânica.
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Na história, a transformação do bucólico paraíso verde no berço da Revolução Industrial. Kenneth Branagh interpretando o Caliban de Shakespeare enquanto o cenário ganhava chaminés gigantescas. As sufragetes e os negros do Caribe chegando e transformando a Londres da primeira Olimpíada (a de 1948, a do pós-guerra), na de 2012 (a dos pós-modernismo e pós-tudo).

Na literatura, a beleza da criança que lê com a ajuda de uma lanterna debaixo da coberta. De Shakespeare a Harry Potter. De Carroll a Peter Pan. De J.M. Barrie a J.K. Rowling. William Blake, Tolkein, Ian Fleming, Voldemort, Mary Poppins. E ainda deixaram de fora todo o Dickens, a máquina do tempo H. G. Wells e os piratas de Robert Louis Stevenson.
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Na música, a catarse perfeita de um mundo que reverencia o britpop desde os Beatles e os Rolling Stones. Teve Sex Pistols, David Bowie, Sir Simon Rattle (junto com Mr. Bean, apresentando o inescapável tema de Carruagens de Fogo), The Kinks, Clapton, Oasis, Amy Winehouse, Prodigy e Franz Ferdinand. Sir Paul McCartney terminou ao som de "Hey Jude". Vale ou não o ingresso?

Resta agora imaginar a aquarela do Brasil no Rio de Janeiro, fevereiro e março. Uma coisa podemos ter certeza: o tempo estará menos cinza e o batuque um pouco mais vibrante.
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