a animação mais original
Merida, a princesa de "Valente", não está nem aí para os príncipes

*** Atenção: este texto pode ter spoilers***
As garotinhas que assistirem à nova animação da Disney e da Pixar, "Valente", talvez não percebam que estão diante do filme infantil mais revolucionário de todos os tempos. Mas as garotas crescidas darão um suspiro de alívio no final, quando as letrinhas dos créditos tomarem a tela.
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Após décadas de tramas iguais e tediosas, com princesas que só querem ser amadas por seus príncipes, Merida, a ruiva protagonista de "Valente", chega ao fim do filme sozinha. Para ela, garantir o direito de escolher é mais importante do que um casamento, vale mais pagar o preço por ser uma menina rebelde do que viver uma vida conformada e chata.
E Merida nem é uma princesa do século XXI, uma época mais boazinha com as mulheres e que receberia com muita simpatia esses valores. Ela vive na Escócia, em plena Idade Média, com castelo e tudo. Parece uma tentativa da Disney, que sempre optou por histórias tradicionais, de recriar sua temática do zero, olhando com outros olhos para o mesmo passado que sempre a inspirou. Com esse movimento, vai povoar a imaginação da nova geração com as ideias de uma princesa feminista, o que, convenhamos, tem muito mais a ver com o que vivemos hoje (mulheres trabalhando, presidentas sem marido, maternidades adiadas). Mas essa virada está longe de ser uma tendência. Nos últimos meses, a Bela Adormecida e TRÊS Brancas de Neve foram cuidadosamente retiradas de suas tumbas e voltaram ao cinema e à TV, em "Espelho Espelho Meu", "Branca de Neve e o Caçador" e "Once Upon a Time".
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Ao que parece, existe uma esquizofrenia no mundo do entretenimento. Uma parte quer olhar para trás (bem atrás) outra está tentando compreender como funciona o mundo contemporâneo. E "Valente" definitivamente está no segundo time.
Enredo divertido, inesperado e dar orgulho a Freud
Enquanto a mãe de Merida, a rainha Elinor, deseja ensiná-la a se portar como uma princesa, a ruivinha só quer cavalgar e treinar arco e flecha. Quando ela chega à adolescência, as coisas se complicam, porque só um casamento arranjado pode manter a união entre o reino de seu pai, Fergus, e os reinados vizinhos.
Elinor e Fergus armam, então, uma grande celebração para apresentar Merida aos pretendentes. Mas a corajosa princesa dispensa todos. Ou melhor, diz que se casará com o que vencê-la na disputa de arco e flecha. Obviamente, nenhum deles consegue. Afinal, ela é uma especialista na arte, enquanto eles são príncipes sem nada de atlético e heróico. Nem bonitos eles são. Revolucionário de novo. Pois é.

A trama ganha peso com o conflito entre Merida e a mãe e a carga de expectativas que uma deposita na outra. Elas não conseguem se ouvir, medem forças para descobrir quem tem razão, numa disputa que ocorre menos pelo casamento ou a liberdade e mais pelos desejos ocultos sobre os quais nenhuma tem coragem de falar. Freud ficaria orgulhoso. Mas, ao contrário do que aconteceria na vida real, tudo se resolve com magia. Tudo bem. "Valente", por mais original que seja, ainda é um conto de fadas.
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