DiCaprio é Jay Gatsby
Obra-prima de Fitzgerald volta ao cinema

O século vinte americano talvez tenha começado na máquina de escrever de Francis Scott Fitzgerald. A exagerada década de vinte do século vinte, das fortunas desproporcionais, dos carros e festas, da opulência desavergonhada. A era do jazz, como cunhou o próprio escritor. Hoje, olhamos a China ameaçar a economia americana, acreditamos que o Brasil ou a Índia também possam se lambuzar neste nectar chamado american way of life, mas nos tempos de Fitzgerald o mundo era Nova York e suas cercanias.
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"O Grande Gatsby" é a América – a "essência da América" – em estado puro. É a obra-prima de Fitzgerald, mesmo que tenha vendido pouco enquanto o autor era vivo (em torno de vinte mil exemplares). É o livro que se lê na escola: o amor de Daisy e Gatsby é como o de Romeu e Julieta nas high-schools americanas. Um homem sem dinheiro é um Montéquio e fica sem o amor de sua Capuleto. É a história do homem que constrói a sua própria fortuna, o símbolo da meritocracia que só é possível no novo mundo.
É também uma das histórias mais contadas por Hollywood. Em uma visita a um dos meus sites favoritos, o IMDB, contei nada menos do que cinco adaptações desde a primeira, quando Fitzgerald ainda era vivo, em 1926. Uma nova versão surge mais ou menos a cada vinte e cinco anos, tal qual um cometa repete a sua órbita de tantos e tantos anos. A história rende e a simplicidade do texto é um contraponto espetacular aos exageros da era do jazz.

Depois de 1926, depois da esbórnia da década de vinte veio a crise de 29. A derrocada da bolsa de valores serviu para quebrar muita gente, foi motivo de muitos suicídios, aumentou a fila do sopão e o desemprego e, também, jogou para escanteio a obra de Fitzgerald. Somente depois da segunda guerra, que enriqueceu a América enquanto a Europa se destruía, é que o Grande Gatsby chegaria de novo aos cinemas. Foi em 1949, com Alan Ladd e Betty Field no papel do par romântico.
Aí na década de 70, um ano após a crise do petróleo, o cometa era visível mais uma vez. Esta talvez a adaptação mais conhecida e celebrada de Gatsby. Robert Redford é o milionário excêntrico e Mia Farrow a beldade a ser reconquistada. (Ganhei recentemente este DVD, que ainda não assisti, mas está na minha lista de afazeres no próximo domingo de chuva.)
Em 2000, surge uma versão menos estrelada e um tanto menos badalada com Mira Sorvino e Toby Stephens. E eis que veremos mais uma adaptação menos de doze anos depois, quebrando a regra dos vinte cinco anos de separação. Parece que Baz Luhrmann, o diretor mais conhecido por Moulin Rouge, não teve paciência de esperar por mais uma década para apresentar o seu Jay Gatsby.Leonardo DiCaprio e Carey Mulligan são o casal da vez. Mulligan, onipresente ultimamente, está em "Drive" e "Shame" (dois grandes filmes de 2012) e será uma Daisy que se parece muito com a Daisy que projetei em minha cabeça enquanto lia o livro na praia (só encarei recentemente a obra). Seu jeito tímido sem ser, sofisticada sem afetação, seu olhar de um desdém equilibrado parece combinar muito bem com a personagem de Fitzgerald – segura um drink com o mindinho levantado, apoia suas pernas sobre um divã e dá risadas com sua amiga Jordan em uma tarde de verão intenso em Long Island.
Jay Gatsby interpretado por DiCaprio faz sentido desde sua aparição como o milionário excêntrico Howard Hughes em "O Aviador". É de se pensar quanto de seus trejeitos não estarão na mansão de Long Island também – especialmente se Nick Carraway e Jay resolverem passear de hidroavião em Long Island como está no livro.
"O Grande Gatsby" é uma daquelas histórias em que você não sabe bem se ama ou odeia os personagens. Se quer ser um deles, se enxerga suas paixões e desejos ali ou se os desdenha pela superficialidade, por suas estranhas obsessões. Vou encarar o Gatsby de Redford em um futuro próximo, aguardar o de DiCaprio (que deve ser lançado em dezembro) e, se o leitor permitir, volto aqui em outra oportunidade para colocar os dois galãs do cinema em um mesmo ringue.
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