Ocupação Nelson Rodrigues
Obra, vida e pensamento de Nelson Rodrigues são dissecados em exposição em São Paulo

Nelson Rodrigues está por todos os cantos do Itaú Cultural. Em fotos, vídeos, sons e palavras. Batizada de "Ocupação Nelson Rodrigues", a mostra é uma das primeiras homenagens ao escritor, jornalista e dramaturgo no ano em que ele completaria 100 anos (Nelson nasceu em 23 de agosto de 1912).
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Um dos traços mais peculiares deste primeiro evento é que a curadoria é feita pela filha de Nelson, Maria Lucia Rodrigues, e por uma das netas do autor, a cineasta Sonia Muller, que não chegou a conhecê-lo. Ao longo de vários meses, as duas se debruçaram sobre a obra do pai e avô procurando elementos que ajudassem a apresentá-lo ao público sob uma outra perspectiva: a dele mesmo. De São Paulo, a exposição segue para Recife, na Torre Malakoff, em itinerância única no próprio dia 23. O Colherada Cultural conversou com Sonia sobre esse trabalho. Confira:
Colherada Cultural: De onde surgiu a ideia da exposição?
Sonia Muller: Eu e a minha mãe, que é a curadora, queríamos, no centenário, trazer o Nelson falando sobre o que ele pensava, sentia, as obras, as festas... Ele teve duas colunas, uma no Correio da Manhã chamada "Memórias" e outra em O Globo chamada "Confissões". Elas viraram quatro livros, "Um Cabra Vadio", "O Óbvio Ululante", "O Reacionário" e "A Menina Sem Estrelas: Memórias". São crônicas que ele escrevia diariamente e falava sobre o ser humano, a sociedade, o jornalismo, o teatro e a vida dele. Ele não guardava o próprio acervo, então tivemos que pedir para os amigos, os parentes. Fomos atrás das matérias originais publicadas nos jornais, não dos trechos que saíram em livros.
C.C.: O que há na parte audiovisual?S. M.: São dez projetores, tablets e um vídeo de um minuto e meio com imagens e sons que simbolizam muito do que ele viveu, a infância, o espaço criativo, a solidão, as tragédias familiares, as mortes do irmão e do pai, a miséria. Tentei transpor para o audiovisual o que ele estava escrevendo, quis fazer disso algo sensorial, o que é difícil porque ele escreve muito bem. Usamos metáforas do texto dele para conduzir o espectador nesse mergulho.
C.C.: A exposição permite conhecer Nelson de uma outra maneira?
S. M.: É uma oportunidade de saber o que ele realmente pensava. A exposição é toda cercada por textos e vídeos que mostram como ele trabalhava nas crônicas, uma coisa de ele começar falando sobre a hipocrisia da sociedade, aí de repente ele conta, num outro parágrafo, uma memória da infância e mais adiante ele fala da linguagem, da palavra, do estilo. Não colocamos na exposição aquela frase clássica sobre a unanimidade ("toda unanimidade é burra"), por exemplo, mas sim textos em que ele fala sobre a primeira vez em que deparou com a unanimidade, quando viu um massacre político ou social acontecer.
C. C.: É uma forma de fugir dos clichês que cercam a obra e a pessoa dele...
S. M.: É isso. Nos três anos em que a minha mãe esteve pensando em fazer algo para homenageá-lo no centenário, ela sempre esteve certa de que gostaria que ele "falasse", não as outras pessoas. A exposição também mostra bastante a família Rodrigues, a origem pernambucana dele. Era uma família urbana, de classe média, de artistas. Foi o que permitiu que ele tivesse esse espaço criativo para poder pensar e questionar. Na exposição, uma mesa simboliza a família e cada cadeira é o espaço de um dos irmãos, com fotos e trabalhos de cada um. Todo mundo escrevia, tinha o Roberto, que era ilustrador, mas ele (Nelson) ficou mais famoso. Falar e escrever sobre o que se acredita é influência do pai. Fui a Pernambuco e entrevistei os Rodrigues que ficaram lá e descobri que eles também são uma leva de artistas.
C.C.: Você acha que a exposição desmistifica frases como "Nelson Rodrigues era machista" ou "ele tinha convicções políticas conservadoras"?
S. M.: Acho que vai mostrar um outro ponto de vista. A gente selecionou um trecho de uma entrevista dele para o Vox Populi onde ele diz que é reacionário porque é a favor da liberdade. O não reacionário, o comunista, não tem liberdade de imprensa, que era algo que ele defendia muito. O público pode fazer suas conexões e pensar, mas tem a oportunidade de saber exatamento do que ele estava falando. Em relação à mulher, também selecionamos trechos em que ele fala que a mulher não tem que ser bonita, tem que ser interessante, por exemplo. A exposição foca no que é menos clichê, em coisas que ele focava e repetia muito, como a ideia da bondade, do amor, da liberdade, da criação e a importância da linguagem.
C.C.: O que esse mergulho na obra dele representou para você?S. M.: Foi uma descoberta, uma volta às origens. Foi cansativo também, porque ele escreveu muito - foram 50 anos de profissão escrevendo todos os dias e eu li tudo. Às vezes, a sensação que eu tinha era de que eu estava mergulhando no universo da pessoa Nelson Rodrigues, meu avô, e outras horas parecia que eu estava mergulhando nas obras de um cara fenomenal. Você lê e fica "meu deus, ele escreveu isso há tanto tempo, faz tanto sentido". Eu ficava emocionada pela ligação familiar e também deslumbrada por ver um cara vivendo fora de sua época.
Serviço
Itaú Cultural - Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô
De terça a sexta-feira, das 9h às 20h
Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
Grátis
Até 29 de julho
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