Ocupação Nelson Rodrigues

Obra, vida e pensamento de Nelson Rodrigues são dissecados em exposição em São Paulo

por Anna Carolina Lementy - 25 de junho de 2012
Um dos cenários da mostra Ocupação Nelson Rodrigues/ Foto: Ivson
Nelson Rodrigues está por todos os cantos do Itaú Cultural. Em fotos, vídeos, sons e palavras. Batizada de "Ocupação Nelson Rodrigues", a mostra é uma das primeiras homenagens ao escritor, jornalista e dramaturgo no ano em que ele completaria 100 anos (Nelson nasceu em 23 de agosto de 1912).

 + Wine Stains: Amelia Fais Harnas utiliza o vinho para discutir o caos e o controle em retratos artísticos

Um dos traços mais peculiares deste primeiro evento é que a curadoria é feita pela filha de Nelson, Maria Lucia Rodrigues, e por uma das netas do autor, a cineasta Sonia Muller, que não chegou a conhecê-lo. Ao longo de vários meses, as duas se debruçaram sobre a obra do pai e avô procurando elementos que ajudassem a apresentá-lo ao público sob uma outra perspectiva: a dele mesmo. De São Paulo, a exposição segue para Recife, na Torre Malakoff, em itinerância única no próprio dia 23. O Colherada Cultural conversou com Sonia sobre esse trabalho. Confira:

Colherada Cultural: De onde surgiu a ideia da exposição?

Sonia Muller: Eu e a minha mãe, que é a curadora, queríamos, no centenário, trazer o Nelson falando sobre o que ele pensava, sentia, as obras, as festas... Ele teve duas colunas, uma no Correio da Manhã chamada "Memórias" e outra em O Globo chamada "Confissões". Elas viraram quatro livros, "Um Cabra Vadio", "O Óbvio Ululante", "O Reacionário" e "A Menina Sem Estrelas: Memórias". São crônicas que ele escrevia diariamente e falava sobre o ser humano, a sociedade, o jornalismo, o teatro e a vida dele. Ele não guardava o próprio acervo, então tivemos que pedir para os amigos, os parentes. Fomos atrás das matérias originais publicadas nos jornais, não dos trechos que saíram em livros.

Sonia Muller, neta de Nelson Rodrigues, no cenário da mostra/ Foto: IvsonC.C.: O que há na parte audiovisual?
S. M.: São dez projetores, tablets e um vídeo de um minuto e meio com imagens e sons que simbolizam muito do que ele viveu, a infância, o espaço criativo, a solidão, as tragédias familiares, as mortes do irmão e do pai, a miséria. Tentei transpor para o audiovisual o que ele estava escrevendo, quis fazer disso algo sensorial, o que é difícil porque ele escreve muito bem. Usamos metáforas do texto dele para conduzir o espectador nesse mergulho.

C.C.: A exposição permite conhecer Nelson de uma outra maneira?
S. M.: É uma oportunidade de saber o que ele realmente pensava. A exposição é toda cercada por textos e vídeos que mostram como ele trabalhava nas crônicas, uma coisa de ele começar falando sobre a hipocrisia da sociedade, aí de repente ele conta, num outro parágrafo, uma memória da infância e mais adiante ele fala da linguagem, da palavra, do estilo. Não colocamos na exposição aquela frase clássica sobre a unanimidade ("toda unanimidade é burra"), por exemplo, mas sim textos em que ele fala sobre a primeira vez em que deparou com a unanimidade, quando viu um massacre político ou social acontecer.

C. C.: É uma forma de fugir dos clichês que cercam a obra e a pessoa dele...
S. M.: É isso. Nos três anos em que a minha mãe esteve pensando em fazer algo para homenageá-lo no centenário, ela sempre esteve certa de que gostaria que ele "falasse", não as outras pessoas. A exposição também mostra bastante a família Rodrigues, a origem pernambucana dele. Era uma família urbana, de classe média, de artistas. Foi o que permitiu que ele tivesse esse espaço criativo para poder pensar e questionar. Na exposição, uma mesa simboliza a família e cada cadeira é o espaço de um dos irmãos, com fotos e trabalhos de cada um. Todo mundo escrevia, tinha o Roberto, que era ilustrador, mas ele (Nelson) ficou mais famoso. Falar e escrever sobre o que se acredita é influência do pai. Fui a Pernambuco e entrevistei os Rodrigues que ficaram lá e descobri que eles também são uma leva de artistas.

C.C.: Você acha que a exposição desmistifica frases como "Nelson Rodrigues era machista" ou "ele tinha convicções políticas conservadoras"?
S. M.: Acho que vai mostrar um outro ponto de vista. A gente selecionou um trecho de uma entrevista dele para o Vox Populi onde ele diz que é reacionário porque é a favor da liberdade. O não reacionário, o comunista, não tem liberdade de imprensa, que era algo que ele defendia muito. O público pode fazer suas conexões e pensar, mas tem a oportunidade de saber exatamento do que ele estava falando. Em relação à mulher, também selecionamos trechos em que ele fala que a mulher não tem que ser bonita, tem que ser interessante, por exemplo. A exposição foca no que é menos clichê, em coisas que ele focava e repetia muito, como a ideia da bondade, do amor, da liberdade, da criação e a importância da linguagem.

A mesa simboliza a família de Nelson Rodrigues. O ambiente em que ele cresceu fomentou a criatividade e o pensamento crítico/ Foto: IvsonC.C.: O que esse mergulho na obra dele representou para você?
S. M.: Foi uma descoberta, uma volta às origens. Foi cansativo também, porque ele escreveu muito - foram 50 anos de profissão escrevendo todos os dias e eu li tudo. Às vezes, a sensação que eu tinha era de que eu estava mergulhando no universo da pessoa Nelson Rodrigues, meu avô, e outras horas parecia que eu estava mergulhando nas obras de um cara fenomenal. Você lê e fica "meu deus, ele escreveu isso há tanto tempo, faz tanto sentido". Eu ficava emocionada pela ligação familiar e também deslumbrada por ver um cara vivendo fora de sua época.

Serviço
Itaú Cultural - Avenida Paulista, 149, Estação Brigadeiro do Metrô
De terça a sexta-feira, das 9h às 20h

Sábados, domingos e feriados, das 11h às 20h
Grátis
Até 29 de julho


Gostou? Siga o Colherada no Twitter e no Pinterest!

Curta a página do Colherada no Facebook!


Últimos comentários

Nenhum comentário para exibir, seja o primeiro a escrever um!

Faça o seu comentário

Top 5 as mais clicadas

Vídeo

Publicidade
Colherada no Twitter
Ressaltamos que nenhum estabelecimento foi incluido neste guia por ter feito publicidade em qualquer publicação nossa e que nenhum tipo de pagamento influenciou as resenhas. As opiniôes publicadas neste site são dos escritores do Colherada Cultural e são totalmente independentes