
Berlim, uma cidade para se conhecer de bicicleta / Foto: Dirk Ingo Franke
* Por Anna Carolina Lementy
A publicitária Gabriela von Gal trocou São Paulo por Berlim há oito anos. Incorporou a cultura dessa parte da Alemanha de tal forma que acha estranho usar roupa social em reuniões de trabalho (em Berlim, todo mundo faz isso usando tênis) e mais esquisito ainda pegar um carro para andar pela cidade. Onde mora, tudo é feito a pé ou de bicicleta, um sonho quase impossível para os paulistanos. O metrô também é usado, mas só nos dias mais frios.
Bicicleta, em Berlim, não é lazer. É meio de transporte e o melhor jeito de conhecer a cidade e sua arte mutante, construída dia a dia nos muros – uma clara influência do muro mais importante da história, que separou o mundo em dois (veja o roteiro adiante). Mas também se vê arte em pequenas galerias e museus, como em qualquer parte do mundo. “Cada bairro tem um painel pintado por artistas. As pessoas gostam de interagir com a rua e, consequentemente, com quem vê os graffitis ou lambe-lambes”, conta Gabriela.

A brasileira Gabriela von Gal se mudou para Berlim há oito anos e virou artista, inspirada pela cidade / Foto: Divulgação
Geralmente, a arte urbana tem mensagens políticas, que incitam a “revoluções, a ir para frente, lutar pelos direitos dos artistas, de todos”, diz. Este momento, em particular, é simbólico, porque a evolução do consumo e a especulação imobiliária estão tomando conta do lado oriental da cidade, ainda preservado dos avanços capitalistas mais expressivos. Berlim é, portanto, cenário de uma constante e apaixonante “batalha” entre o velho e o novo. ”Quando cheguei, foi um choque cultural. Achava tudo muito destruído e velho até entender que o velho é um pedaço do novo, de uma história sendo construída”.
QUEM FOR A BERLIM VAI GASTAR POUCO PARA SE DIVERTIR
A vida cultural em Berlim é barata e agitada. Há bandas tocando em cada esquina, no metrô, como em toda metrópole que se preze. Há shows dos mais variados estilos por 10 euros (o preço máximo é 80 euros), enquanto por aqui os ingressos mais baratos para atrações mais badaladas custam centenas de reais. O preço baixo permite que o pessoal se reúna para conhecer novos artistas (enquanto toma muita cerveja), ampliando as próprias referências musicais e fomentando o crescimento da arte. “Berlim é o lugar onde mais assisti a shows na vida”, diz Gabriela.
A arte de rua é grátis, claro, e a entrada nos museus também, às quintas-feiras, entre 18 e 22h. Gabriela recomenda a Ilha dos Museus, que agrupa o Museu Pergamon, Altes Museum, Neues Museum, Alte Nationalgalerie e Museu Bode. Se passar pela ilha, caminhe no sentido centro e conheça a Auguststraße – a rua Augusta de Berlim, cheia de galerias. Quem gosta de fotografia não pode deixar de visitar a Fundação Helmut Newton.

A bela Museumsinsel, ou Ilha dos Museus/Foto: Divulgação
E há projetos itinerantes interessantíssimos como o Dr. Sketchy, uma escola de “antiarte”. Todos os finais de semana, desenhistas e aspirantes se reúnem para retratar modelos vivos – mulheres com figurinos burlescos. Custa de zero a 10 euros e, ao final, os desenhos participam de uma competição. Gabriela já participou da brincadeira. “A cidade te prende de tal modo à arte que não tem como não ter vontade de ser artista”.

A Auguststraße – a rua Augusta de Berlim, cheia de galerias / Foto: Cwiki
O DESENHO ERA UM HOBBY E VIROU PROFISSÃO

Fridaneska, o trabalho mais famoso de Gabriela von Gal/Foto:Divulgação
Em Berlim, Gabriela desenvolveu pra valer seu gosto pelo desenho. Antes, era apenas um hobby. Fez um curso rápido, aprendeu uma técnica básica e hoje tem uma cartela de trabalhos fofíssimos, lúdicos e supercoloridos. Os experimentos, postados no Instagram, chamaram a atenção dos seguidores e agora os personagens estampam ilustrações vendidas online e, em breve, capinhas para celular. Um deles, a Fridaneska, uma ilustração em madeirite, foi exposta no MuBE, em São Paulo.
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Gabriela também abriu caminhos em Berlim para outros artistas, como o grafiteiro brasileiro Nunca. Depois de se conhecerem durante aulas de paraquedismo no Brasil, dois anos atrás, ela o levou para expor na cidade alemã, no projeto “Freedom Park Berlin”. Houve uma enorme receptividade ao seu trabalho, e muitas obras foram vendidas, algo ainda incomum no Brasil, onde é mais rara a busca por quadros com a assinatura de artistas que se formaram nas ruas.
ROTEIRO CULTURAL DE BIKE EM BERLIM, POR GABRIELA VONGAL
Este roteiro pelo bairro de Kreuzberg também pode ser feito a pé, mas de bike é mais legal. O ponto de partida é o viaduto da estação Warschauer Strasse U1. Se você optar pela saída à direita da estação, siga pela ponte histórica Oberbaumbrucke. Ali mesmo da ponte é possível avistar uma figura enorme de um homem de gravata (do inconfundível artista Blu), uma visão importante da cidade, pois do outro lado você encontra o East Side Gallery, a maior extensão que sobrou do muro de Berlim, um verdadeiro acervo de arte de rua.

O famoso trabalho do artista Blu, um dos símbolos da arte urbana de Berlim / Foto: Real Art of Street Art
Depois da ponte, vire à esquerda e siga pela rua Stralauer Allee 3 até o hotel Nhow. Ao chegar, você encontrará o Freedom Park, um acervo de artistas do mundo inteiro em um cenário tipicamente berlinense. Lá, terá o privilégio de ver o trabalho do Nunca.

Nunca dá os últimos retoques em obra exposta em Berlim / Foto: Urbanartcore
Depois, você deve seguir pela Schlesische Straße. Ali, você vai encontrar uma coleção de arte de rua e poderá ver mais de perto os muros pintados por Blu e também os famosos ursos do artista berlinense Bimer. Siga em direção ao Club der Visionäre, o famoso ponto de encontro sobre as águas com direito a cerveja e música. Se estiver fechado, sem problemas, contorne o club e você encontrará achados interessantes entrando nos becos.
Na rua Skalitzers strasse, você encontrará um mural pintado pelos GEMEOS, outros brazucas que deixaram sua arte pelas ruas de Berlim. Descendo a rua, você encontra o mural “Astronaut”, pintado pelo artista português Victor Ash. Ali mesmo também vai encontrar o charmoso mural pintado pela dupla britânica The London Police.

Club der Visionäre, um ponto de encontro sobre as águas / Foto:Divulgação
Berlim, aos meus olhos, é assim: uma cidade em constante movimento e mudanças, cheia de galerias, bares e projetos temporários. É uma cidade com uma explosão de energia. Um dia, aquele bar que você costumava frequentar pode se tornar uma galeria, ou uma quitanda, e no verão uma sorveteria. Você sempre vai se surpreender com essa cidade. Ela traz segredos e surpresas a cada esquina. Desvende-os!
Se quiser conhecer melhor o trabalho artístico de Gabriela von Gal, acesse a página dela no Facebook e os perfis no Pinterest e Instagram (@gabivongal).