Uma viagem enogastronômica por Portugal: a primeira parada é Lisboa

Para chegar ao Castelo de São Jorge você pega o famoso Bonde 28

Foram seis dias de viagem e 11 vinícolas: a viagem enogastronômica do Colherada por Portugal inaugura, em grande estilo, o blog Colheres na Estrada. Foi depois dela que surgiu a ideia de criar um blog para contar as aventuras culturais que nos esperam cada vez que visitamos um lugar novo.

Após passar por regiões como Lisboa, Alentejo, Algarve e a Península de Setúbal, listamos lugares especiais para ficar e passear em Portugal se o seu interesse é mergulhar na histórica cultura enogastronômica do país, conhecido por seus quitutes e por sua produção de vinho. O segredo é montar uma boa programação, porque lugares para visitar não faltam. Primeira parada: Lisboa!

+ Algarve, a região mais turística de Portugal, tem vinhos frescos e o encanto da arquitetura árabe

ONDE FICAR, COMER E PASSEAR

Vista do hotel Jerónimos, em Lisboa

HOSPEDE-SE NO Jerónimos 8
O hotel design tem quatro estrelas e está no charmoso bairro de Belém, um dos mais visitados de Lisboa. Moderno, tem quarto amplo e banheiro com louças arredondadas, que dão um toque descolado.
Rua dos Jerónimos, 8, Belém, Lisboa. Tel.: (+351) 21 360 0900
www.jeronimos8.com

Neste roteiro feito pelo Colherada, foram 105 vinhos provados ao longo de seis dias

Neste roteiro feito pelo Colherada, foram 105 vinhos provados ao longo de seis dias

 

RESTAURANTES

Rosa dos Mares: é uma boa opção para o almoço ali no burburinho do Belém. O Bacalhau Rosa dos Mares tem boa textura, imerso em azeite e sobre uma cama de cebolas. Além de delicioso, o prato é barato.
Rua de Belém, 2, Belém, Lisboa. Tel.: (+351) 21 363 9055
www.rosadosmares.com

Pastel de Belém: Desde 1837, a casa faz essas delícias redondinhas e, com a fama, também cresceram as filas. Cada pastelzinho tem massa crocante e recheio consistente, sem gosto de ovo. Dá água na boca só de lembrar.
Rua de Belém, 84, Belém, Lisboa. Tel.: (+351) 21 363 7423
www.pasteisdebelem.pt

Cantinho do Avillez: após conquistar estrelas no Guia Michelin pelo restaurante Tavares, o chef José Avillez decidiu investir nesta proposta menor. A casa é pequena e o menu impecável. Prove o sanduíche de vitela com batata palha caseira e como sobremesa peça o Avelã3, uma espuma com três castanhas diferentes e sorvete. Dali dá para seguir a pé para a balada no Chiado.
Rua dos Duques de Bragança, 7, Chiado, Lisboa. Tel.: (+351) 211 992 369. www.joseavillez.pt

Cervejaria Ribadouro
: para os fanáticos por frutos do mar. Tudo o que servido no restaurante fica à vista em um aquário grande. As porções de percebes, servidos por quilo, são as mais pedidas.
Av. da Liberdade, 155, Liberdade, Lisboa. Tel.: (+351) 213 549 411
www.cervejariaribadouro.pt

PASSEIOS

Mosteiro dos Jerónimos: a construção comporta a Igreja Santa Maria Belém, o antigo mosteiro e um parque arqueológico. Dentro da Igreja estão enterrados o navegador Vasco da Gama e Luis Vaz de Camões, de “Os Lusíadas”. Já vale a visita pelo valor histórico.
Praça do Império, Belém. Tel.: (+351) 213 620 034
www.mosteirojeronimos.pt

Torre de Belém: o forte foi construído para proteger uma das margens do rio Tejo. As escadarias apertadas são disputadas pelos turistas. Apesar disso, não deixe de ir ao topo e ao subsolo, onde ficava a prisão (salas pequeninas, na qual uma pessoa de 1,60m mal consegue ficar em pé).
Praça do Império, 1400, Belém. Tel.: (+351) 213 620 034
www.torrebelem.pt

Castelo de São Jorge: para chegar lá, você pode pegar o famoso Bonde 28. O castelo foi construído durante a ocupação dos mouros e está em um dos pontos mais altos de Lisboa. No Museu de Arqueologia, dentro de uma das salas, estão alguns objetos utilizados pelos muçulmanos e pelos primeiros reis a ocupá-lo. A vista da cidade é linda e o pôr-do-sol um espetáculo.
Rua de Santa Cruz do Castelo, , Tel.: (+351) 218 800 620
www.castelodesaojorge.pt

Chiado: É o bairro boêmio de Lisboa. Os bares estão espalhados pelas ruas apertadas e as pessoas ficam de lá pra cá. É só andar por ali e escolher a música e o ambiente que mais atrai.

NO PRÓXIMO POST: O roteiro para continuar a viagem enogastronômica agora por Algarve, Évora, Alentejo e Estremoz, na fronteira com a Espanha.

Clique aqui e veja a galeria completa deste roteiro em Portugal

Alentejo, no início do roteiro enogastronômico, é a casa do vinho da Herdade do Rocim

A paisagem outonal em frente a Herdade do Rocim

No outono europeu, a paisagem está no auge de seu clima bucólico romântico com a grama amarronzada e os topos das árvores começando a pegar a mesma tonalidade, um sol agradável, mas com um vento fresco durante o dia, e um frio mais rigoroso pela noite. Este cenário acompanha o trajeto entre Lisboa e o Baixo Alentejo, por onde começa o roteiro enogastronômico por Portugal proposto pela ViniPortugal, uma instituição que representa algumas vinícolas no país.

+ O Colherada embarca em uma viagem enogastronômica pela região sul de Portugal

Da capital à maior região portuguesa são aproximadamente duas horas de carro. A parada neste primeiro dia foi na Herdade do Rocim, uma vinícola nova, com apenas quatro anos de vida. Catarina Vieira, tão jovem quanto sua “adega” (como chamam os portugueses), com 34 anos, é e a nóloga e a responsável pela produção do Rocim, ao lado do enólogo consultor, Antonio Ventura.

Alguns dos rótulos da Rocim

A herança da vitivinicultura vem dos avós, mas Catarina representa uma nova tendência na produção de vinhos nesta região. Com conceitos modernos – inclusive na arquitetura da vinícola, longe daquele espírito histórico do “Velho Mundo”, como Itália e França – ela tenta levar vinhos portugueses para novos mercados, como Estados Unidos e Brasil.

Em 70 hectares de terra, com as videiras plantadas em lis (sistema parecido com a espaldeira, mas com as uvas mais expostas ao sol), a variedade de castas é significativa, sendo a maior área da tinta alicante bouschet. O solo nesta região é predominantemente arenoso, o que garante baixa produção com elevada qualidade.

O clima mais quente resulta ainda em vinhos com alto teor alcoólico, alguns chegam a ter 15% na graduação. De maneira geral, os vinhos do Rocim são jovens, com acidez acentuada, mineralidade presente e aromas frutados. No Brasil já é possível encontrar o Mariana 2008, um tinto mais simples, de fácil paladar. E o Olho de Mocho 2007, um tinto com touriga nacional (uva abundante em todo o país) e syrah, bem complexo e com características mais próximas do que é produzido no Novo Mundo (Chile, Argentina, Brasil, por exemplo).

DELÍCIAS TAMBÉM PARA COMER
Para arrematar a visita, vale muito a pena fazer uma reserva antecipada no restaurante (ele não funciona sem reserva mínima de 10 pessoas!) com cardápio elaborado pelo chef José Júlio Vintém, que privilegia os ingredientes regionais. É imperdível a queixada de porco assada por 14 horas – a carne desmancha já no garfo – com castanhas e “batatinha nova”.

A próxima parada será em Algarve, bem ao sul de Portugal, perto do Mediterrâneo. Enquanto isso,  veja a galeria de imagens feita em Alentejo.

Veja as imagens da Herdade do Rocim

Algarve, a região mais turística de Portugal, tem vinhos frescos e o encanto da arquitetura árabe

Seguindo o roteiro da nova cultura vinícola lusitana, a próxima parada é Algarve. A região no extremo sul de Portugal é a mais turística do país e recebe principalmente os europeus nórdicos, que chegam durante o verão para aproveitar as belas praias e as altas temperaturas.

As "Gordas" feitas pelo alemão Karl Heinz Stock lembram as esculturas de Botero

+ Conheça mais da Quinta dos Vales na nossa galeria

A visita foi breve: apenas uma noite para conhecer a Quinta dos Vales, uma adega de médio porte que produz cerca de 100 mil litros de vinho por ano. Quem quer passar mais tempo na área para aproveitar a costa do mar Mediterrâneo, a boa comida e a paisagem arquitetônica com forte influência árabe, no entanto, encontra vasta oferta hoteleira.

A própria Quinta dos Vales tem 44 quartos para hóspedes dentro da vinícola. O proprietário, o alemão Karl Heinz Stock, construiu seu “parque de diversões” em um terreno de 50 hectares situado em Estombar, cidade onde no século 11 morava o poeta árabe Ibn Ammar.

Por lá, ele reuniu duas paixões, o vinho e as artes. Esculturas coloridas de elefantes, ursos e as “Gordas” (mulheres idênticas às criadas por Botero) se espalham pelo terreno. Periodicamente também são feitos concertos de fado e grupos de leitura, que já contaram com a participação da escritora Ligia Jorge (best-seller em Portugal).

A adega foi remodelada em 2007 e o primeiro vinho deles chegou no mercado em 2008. As principais castas produzidas são a castelão (no Brasil conhecida como a uva periquita), a alicante bouschet, a touriga nacional, petit verdot e viognier.

Pela proximidade com o mar, tanto os tintos como os brancos apresentam salinidade e aromas cítricos. Os vinhos, sempre sob o título de Marquês dos Vales,  já são exportados para alguns países, mas ainda não chegaram ao Brasil. Boa parte dos rosés e dos brancos são vendidos no Algarve mesmo, por conta da grande movimentação turística.

Vinho, vinho e muito mais vinho!


O BOOM DAS NAVEGAÇÕES

Como a gente já pode imaginar, boa parte do crescimento econômico de Portugal se deu depois do período das Grandes Navegações. Algarve ganhou reconhecimento quando dom Henrique, no século 15, decidiu instalar em Sagres a sede de sua escola de

navegação. Ali, da cidade de Lagos, saíram as naus que se lançariam à exploração da África e Ásia, elevando o país à potência imperial.

De um período mais antigo ainda, a Quinta dos Vales herdou um poço com 40 metros de profundidade, descoberto pelos mouros que construíram 80 degraus de areia e pedra para alcançá-lo.

 

Enogastronomia no Alentejo: vinícolas dos Grous e da Malhadinha Nova são ótimos pontos para comer, beber e passear

Nem o tempo nublado atrapalha as atrações das duas vinículas especializadas em enoturismo

Conhecer a produção e degustar os mais variados vinhos não são as únicas atrações para quem pretende embarcar no enoturismo em Portugal. As herdades, nomes dados à propriedades rurais que se dedicam a produzir vinhos ou oliveiras, há muito o que fazer. O Colherada visitou duas delas – a Herdade dos Grous, na região do Alentejo, e a da Malhadinha Nova. Na primeira, o hóspede pode andar a cavalo ou de bicicleta pelo vinhedo cercado por oliveiras de mais de 500 anos, fazer passeios de balão para apreciar a bucólica paisagem e, claro, comer bem. Muito bem!

+ Acompanhe tudo sobre a nossa viagem por Portugal

A fazenda dos Grous pertence à multimilionária família Pohl, alemães donos de empresas de seguros e de mais cerca de 150 companhias em diferentes ramos. Foi perto de Beja, em uma área total de 750 hectares, que eles decidiram construir um complexo turístico com um hotel dividido em duas casas. Ao todo, são 24 quartos com decoração de época aconchegante.

A deliciosa tábua de sobremesas

Conforto também é a marca dos dois restaurantes (sem nome) que servem comida típica alentejana dentro desta herdade. O menu inclui pão com azeite da casa, carne de porco preto ultramacia, costeleta de vitela, lombinho de novilho, legumes variados e risotos para acompanhar. Para a sobremesa, uma belíssima tábua de doces, também da região, com destaque para o tradicional pudim de requeijão. “Acredito que temos que vender os nossos costumes, a nossa gastronomia e o vinho como um todo”, diz Luis Duarte, uma autoridade no quesito vinhos e responsável pela adega local.

Os rótulos que Duarte assina nos Grous estão entre os melhores da região e a degustação, neste caso, vem acompanhada por todo o charme e beleza do entorno da construção. Para quem quer saborear a bebida, vale investir na garrafa do 23 Barricas, um tinto com syrah e touriga portuguesa bem equilibrado e floral, que é encontrado no mercado brasileiro.

A charmosa cave

MODERNIDADE E TRADIÇÃO
Outro produtor a investir no formato do enoturismo é João Soares, da Herdade da Malhadinha Nova. Para montar a sua adega, em 2003, ele uniu a tradição portuguesa que existe há mais de mil anos na fabricação de vinhos com a tecnologia do “Novo Mundo”, e partiu para conhecer a produção vinícola no Chile. O resultado é uma produção moderna, com equipamento de ponta comum aos bons produtores da atualidade.

A hospedagem neste local é mais luxuosa: os quartos ficam em uma casa, com sala ampla, lareira e sala de jantar com mesa para 12 pessoas. O glamour continua na suíte, que além de espaçosa conta com amenidades (aquele kit dentro do banheiro) da marca Bvlgari e e uma banheira pronta para fazer o viajante relaxar.

O jantar no restaurante Wine and Gourmet, também dentro da Malhadinha Nova, é reconfortante. Para o cardápio de outono-inverno (cada estação do ano merece um menu de acordo com o tempo), o chef Joachim Koerper (que tem duas estrelas no Guia Michelin) serve caldo de agrião com tartar de atum, corvina com legumes e purê de xerém (parecido com a nossa polenta) ou novilho no espeto. O peixe é tenro e supersaboroso, enquanto o novilho é extremamente macio. Para acompanhar, o tinto Marias da Malhadinha, da safra de 2007 (feito com aragonês, touriga nacional e cabernet sauvignon) costuma fazer sucesso à mesa.

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