Viagem + estudo: EICTV, a escola de todos os mundos em Cuba

Alunos da escola de cinema e fotografia com a mão na massa

Acho importante começar este post com uma informação: eu não falo espanhol e em momento algum isso foi um impeditivo durante a minha passagem por Cuba e, principalmente, pela EICTV, a escola de cinema mais famosa do país.

Na hora de se inscrever nos cursos que são oferecidos por lá e mandar a carta de intenção para se tornar aluno (esse trâmite é feito por meio de um representante na sua cidade, confira aqui), eles deixam bem claro a importância de dominar o idioma. No entanto, assim que cheguei, logo ouvi da coordenadora: “mais um brasileiro! Tem pelo menos um em cada curso”. Finda da tensão, chegou a hora de conhecer a utopia.

+ Uma viagem a Cuba por meio da fotografia

Gabriel García Marquez, Julio Garcia Espinosa e Fernando Birri, com todo o apoio do governo cubano, fundaram a Escola Internal de Cinema e Televisão de San Antonio de Los Baños, em 1986, com o objetivo de criar um centro de formação artística para três mundos, América Latina, África e Ásia.

Bons tempos: os fundadores da Escola com Fidel Castro

Com Birri na direção – cineasta argentino precursor do cinema novo latino-americano – a escola adotou a proposta de ensinar através de professores que tenham uma produção cultural ativa, com a capacidade de transmitir o conhecimento na prática, além de palestras com figuras importantes para o cenário cinematográfico atual. No meu caso, por exemplo, tive a oportunidade de participar da conversa com o iraniano Asghar Farhadi, diretor de “A Separação”, que falou sobre como utiliza métodos teatrais de direção de atores no cinema, e da palestra de mais de quatro horas com Walter Carvalho, decupando a fotografia, cena por cena, do filme “O Veneno da Madrugada”.

Em Havana, turistas abordam pessoas para fotografar

O carro-chefe da EICTV é o curso regular de três anos, em que jovens de 23 a 29 anos, de mais de 50 países, passam por um processo seletivo rígido de adimissão. Ao serem aceitos, esse fazem um primeiro ano básico e depois ingressam nas suas especialidades, que se dividem entre direção, direção de fotografia, produção e som. Além disso, são realizados cursos de altos estudos, que duram seis semanas, e os taillers internacionais, com três semanas de duração. Com toda essa oferta e nível de excelencia, a escola tornou-se de todos os mundos, cuja a comunidade brasileira é a maior tanto entre os alunos, quanto entre os professores.

Voltando a minha experiência, encontrando brasileiros em todos os cantos e ao redor de pessoas dispostas a trocar conhecimento, o idioma não foi mesmo um problema. Como já dito por aqui, o curso que fui fazer foi o tailler internacional de Fotografia Digital, com o professor guatemalteco Ivan Castro.

Nessas três semanas de duração tivemos aula de segunda a sexta, das 9 às 17 horas, que se dividiam entre teóricas e práticas. Por causa disso, diferente dos demais cursos da escola, tivemos a oportunidade de viajar bastante, entrar nas casas dos cubanos e conhecer um pouco do seu dia a dia. Uma coisa interessante, por exemplo, é que ao passo que as pessoas eram muito receptivas nas cidades menores, como Baracoa, em Havana cobravam 1 CUC por uma foto.

Fazer uma foto custa 1 cuc (a moeda local) se você é turista em Cuba

A minha sala era composta por três cubanos, três mexicanos, um espanhol, uma argentina, um equatoriano e um chileno. Com exceção dos cubanos, que têm desconto nos cursos, todos pagamos 1.200 euros. Esse valor engloba as aulas, hospedagem em quartos individuais, alimentação (esse é o assunto do nosso próximo post!) e uma ótima infraestrutura tanto de ensino, quanto de lazer, com piscina olímpica e quadras de esporte.   

A oportunidade de conviver 24 horas com essas pessoas faziam os momentos pós-aula também de absorção de conhecimentos – e muita festa. Em mais de uma ocasião, os estudantes se reuniam nas salas de projeção da escola para exibirem seus curtas (muitos deles, o trabalho de conclusão de curso que fizeram em seus países), e com isso a oportunidade de entrar em contato com o trabalho e entender o que pensam os jovens cineastas, entre eles Béltra Luque, da Espanha, Edison Cájas González, do Chile, Juan Guerci, da Argentina, e a brasileira Catarina Accioly. Bom, sobre as festas, é melhor nem entrar muito em detalhes…

O resumo de tudo isso é que voltei para o Brasil sabendo fotografar e muito mais interessada na produção cultural latinoamericana e hablando un poco de español. Para ver mais fotos da viagem www.flickr.com/camismartins .

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